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Momo – Cadafalso (independente, 2013)

O Momo mais uma vez bota um disco na praça lindaço, Cadafalso, explorando o formato mínimo, voz e violão – singer/songwriter, como se diria no mundo anglófono. E eu que estava – mesmo sem saber – com o ouvido saturado de produções intrincadas, detalhistas, sou jogado sem maiores ressalvas a um trabalho onde você tem esses dois elementos apenas pra observar, pra fruir. A execução de cada acorde, o dedilhado, a dicção de cada fonema ali, puro e cristalino, batendo no ouvido. Só essa sensação de algo tão simples virar o jogo todo, já me aponta para algo significativo. Depois de um álbum que passou um tanto quanto despercebido, Serenade Of A Sailor, Momo retoma, em movimento pendular, elementos já pontuados no inaugural A Estética do Rabisco e depois reformulados e rebuscados no álbum Buscador. Nunca a faceta existencialista sempre tão latente do artista esteve tão francamente escancarada ao ouvinte. 

 

(leia texto que escrevi para a +Soma 9 na ocasião do lançamento do álbum Buscador)

 

As letras continuam resvalando em melancolia, por ora carregada de madrugadas, de pássaros negros, solidão, ilusão e um naco de nostalgia, mas “seja o que for / ou que se morra / toda beleza fingida / toda canção prometida / e os pássaros negros circundam do alto / e os pássaros negros são apenas pássaros” (Sozinho). Curioso é que o tema mais pueril, é a inflexão onde cabe, verbalmente, o azul, vermelho, rosa, roxo e, por fim, o cinza, tom predominante no disco. Wado, parceiro de 3 composições do álbum, diz no release que “Momo encontrou uma forma de execução rara de se encontrar na cena atual e sua poesia – e nisso estou envolvido – encontra caminhos novos e inusitados, vezes evitando rimas e noutras nos jogando imagens bonitas, porém desconcertantes”.

 

Creio que Momo é comumente um ponto extemporâneo no cenário atual, mas necessário porque aponta os flancos descobertos a serem revistos, reavaliados. A versão inequívoca e ligeira de “Eu Vou Para O Ceará”, de Humberto Teixeira, não me deixa margens de dúvidas quanto à isso.

 

E o que pensar dessa insular “Copacabana” que fecha o disco? Uma das canções mais arrebatadoras dessa nova geração, um posto avançado de lirismo romântico, fechando um compacto imaginário IMPECÁVEL com o “estou triste tão triste / e o lugar mais frio do Rio é o meu quarto” de Caetano Veloso em “Estou Triste” de seu Abraçaço.

 

Cadafalso é o disco perfeito para esse Rio de Janeiro de 2013, carregado de nuvens e chuva.

 

Ouça o álbum abaixo ou o baixe aqui