ManuelBandeira

Quando que bonus dormitat Homerus – IV

[“Também o bom Homero cochila”. Expressão de Horácio, que expressa a ideia que a perfeição absoluta não existe em poesia; assim sendo, até o grande Homero comete suas falhas. Aqui, usamos para não FALHARMOS na missão de conhecermos mais e mais poesia. Todas as terças feiras colocarei algum poema ou texto relacionado à poesia e um link do MAJESTÁTICO site Ubu (não conhece? Esquece aqui e vai pra lá AGORA!) de poesia visual. Quer ter seu poema publicado aqui? Entre em contato! Regozijai-vos, plebeus!]

Manuel Bandeira é desses seres humanos raros. pelo que descrevem seus pares, não fosse sua poesia enorme e suas crônicas incríveis, já seria um poeta enorme na arte de bem viver entre as pessoas.

 

Não bastasse sua obra poética que foi uma baliza na minha vida, sobretudo nos anos em que realmente aprendi a ler poesia, Bandeira também me fez ter um olhar mais detido e vagaroso sobre as coisas, graças às suas crônicas. Nem todo artista que admiro sinto vontade de querer ter contato, conhecê-lo; até pelo contrário. Mas com o Mané famoso que não é o Garrincha, já me sinto chapa. Abaixo um poema incrível da fase inicial do mestre e um curta incrível do Joaquim Pedro de Andrade retratando um dia como qualquer outro na vida do poeta. Simples em estrutura, o curta O Poeta no Castelo parece ser uma experiência fílmica que marcou o realizador e certamente quem ver vai curtir.

 

Chama e Fumo

Amor – chama, e, depois, fumaça…

Medita no que vais fazer:

O fumo vem, a chama passa…

Gozo cruel, ventura escassa,

Dono do meu e do teu ser,

Amor – chama, e, depois, fumaça…

Tanto ele queima! e, por desgraça,

Queimando o que melhor houver,

O fumo vem, a chama passa…

Paixão puríssima ou devassa,

Triste ou feliz, pena ou prazer,

Amor – chama, e, depois, fumaça…

A cada par que a aurora enlaça,

Como é pungente o entardecer!

O fumo vem, a chama passa…

Antes, todo ele é gosto e graça.

Amor, fogueira linha a arder!

Amor – chama, e, depois, fumaça…

Porquanto, mal se satisfaça

(Como te poderei dizer?…),

O fumo vem, a chama passa…

A chama queima. O fumo embaça.

Tão triste que é! Mas… tem de ser…

Amor?… – chama, e, depois, fumaça:

O fumo vem, a chama passa…

(Manuel Bandeira, Teresópolis, 1911)

 

***

 

Seguindo a tradição, aqui vai o link para a obra sonora de Kurt Schwitters (1887-1948). Coisa fina demais!

Um pensamento sobre “Quando que bonus dormitat Homerus – IV

  1. Poxa, mas esse UbuWeb usa a poesia concreta do Agusto de Campos (Código) quase como logo, sem referência ao uso e nem tem ele na lista de poesia visual!!!! Não gostei! Mas a poesia é sempre válida… e muito!

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