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Ciel Vieira Somos Todos Nós!

“Eu sou um outro” – Rimbaud

 

Tem a famosa máxima marxiana do “a história acontece primeiro como tragédia, depois como farsa”. Felizmente, não parece ser este o caso dessa vez. A notícia de que um estudante, Ciel Vieira, após se recusar a rezar antes de aula, ouviu da professora que “jovem que não tem Deus no coração nunca vai ser nada na vida” reanimou um episódio péssimo da minha vida particular: fui vítima de “bullying religioso”, como a imprensa chama agora. O fato dessa vez aconteceu em uma escola estadual de Miraí, cidade de 14 mil habitantes a 300 km de Belo Horizonte. Ciel, usando de um celular e de postagem no youtube, angariou uma rede larga de solidariedade e conseguiu com que não fosse mais hostilizado pelo fato de não rezar o pai nosso pedido por uma professora em sala de aula.  Comigo situação equivalente aconteceu por volta de 1994 ou 95, em Pouso Alegre, Sul de Minas, cidade de médio porte, também em uma escola estadual. Leiam o texto no link antes de seguirem adiante.

***

 

Não era uma época fácil pra mim e eu não era uma pessoa fácil para os outros, simples assim.

 

Pouco antes, eu havia sido preso em uma manifestação contra as Forças Armadas e o serviço militar obrigatório na minha cidade, durante o desfile de 7 de Setembro (o hoje quase desativado quartel da cidade ainda era muito presente em nosso cotidiano). Hoje, “fora de moda”, naquele tempo se opor àquela bobajada patriotesca era  uma bandeira forte nas hordas punks e anarquistas no Brasil de FHC. Foi um verdadeiro pesadelo: um bando de garotos (apenas dois dos detidos tinham mais de 18 anos) na delegacia, sofrendo aquela boa e velha humilhação verbal de gambés (alguns outros passam por uma torturinha psicológica leve dentro do referido quartel, ou seja: tudo errado), um delegado totalmente despreparado (apelidado de “Rambinho” na cidade) querendo nos enquadrar numa lei de segurança nacional que não era usada desde a ditadura militar. Vai sentindo o drama… Acabou com minha mãe me pegando na delegacia acompanhada de um vizinho que a levara e ficava reativando o fantasma vermelho do comunismo (não bastasse ser preso, a humilhação de um desconhecido confundindo um altivo anarquista com um comunista!). Horrível ver a vergonha estampada na cara da sua mãe, o início de mais um drama familiar. Não bastasse isso, vivia em guerra com a autoridade familiar, a da escola, com os taxistas que teimavam em pegar no pé dos skatistas, enfim: aquele caráter irritadiço adolescente todo voltado numa luta infértil contra toda e qualquer autoridade. Mas diz-se que o dissidente se forma nessas pequenas coisinhas, não?

 

Pois bem, não bastasse estudar de manhã, minha família achou por bem me meter em duas das maiores roubadas da minha vida. Primeiro, arrumaram um curso gratuito de Artes Gráficas durante a tarde com os padres de um colégio católico burgês da cidade. A turma era muito homogênea, comigo destoando do conjunto: jovens infratores ou problemáticos, a maioria absoluta negros. E um padre italianado roçando a gente, falando com aquele hálito nojento na nossa nuca. Como o padre começou a me usar de exemplo para os outros garotos, logo começaram as piadas que eu era “peixe” dele. Depois de umas 6 aulas debandei sem que meus pais percebessem e ficava de bobeira na rua durante aquela parte do dia. A segunda e muito pior, foi me obrigarem a fazer um segundo colegial  noturno (o mesmo que fazia pela manhã) que incluia Contabilidade. Justo eu que odiava exatas.

 

Nessa escola, próxima à minha casa, na periferia da Zona Sul da cidade, eu tinha alguns amigos de bairro que estavam em outras salas e era até divertido nos intervalos, rolava uns flertes com umas garotas, a volta pra casa já de noite sempre guardava alguma surpresa. O inferno era a sala de aula.

 

A turma da minha sala pouco tinha a ver comigo: gente mais velha de fato ou mais velha de espírito: aquelas meninas sem graça de bairro, todas com a cabeça em um casamento, numa família; garotos em empregos precários pensando em roupas bacanas e carros para agradar as garotas etc. Eu tinha dois colegas na sala, improváveis: uma garota mais velha, que vivia no antigo bairro onde eu vivera anos antes e que nunca havia me dado atenção, bonitona e trabalhadora, filha única de mãe solteira, e um policial muito correto no trato com o pessoal e de um humor franco, fácil. Engraçado que muito rápido sacaram que eu, que entrava mudo e saia calado, era o “alien” ali no meio. Vinham com questões absurdas e achavam estranhos meus objetivos (lembro que falava que ia estudar na USP ou alguma outra faculdade pública de cidade grande e todos achavam meio “viagem”). E tudo piorou com a presença de uma mesma professora que dava aula das 3 disciplinas específicas de contabilidade do curso. Alcoviteira, cheia de máximas nos chamando à responsabilidade em um mundo onde quem ganha são os “espertos”, interesseira (orgulhava-se de suposta relação com políticos corruptos da cidade), grossa em demasia com todo mundo e, o pior, extremamente carola.

 

Todas as aulas dela havia um pai nosso a ser rezado. O padre da paróquia tava doente? Um pai nosso e uma ave maria. Era aniversário da escola ou qualquer outra data besta? Lá estava ela no pátio comandando rezas e frases de efeito conservadoras. No pátio, eu ainda dissimulava meu mal-estar com aquela cena, ia ao banheiro, pra biblioteca, ou ficava jogando conversa fora de canto com uns outros gatos pingados que não participavam daquilo ( Espíritas? Umbandistas? Ateus não eram, tenho certeza). Mas, obviamente, assim como com o Ciel dos vídeos de agora, chegaria a hora da sabatina, do embate.

Depois de umas 3 vezes sem participar da reza na sala de aula, essa professora me inquiriu sobre minhas razões. Falei que era ateu – era assim que me via naquela época – que a fé cristã não fazia sentido pra mim, assim como qualquer outra fé religiosa apresentado a mim até então. Ela perguntou se meus pais sabiam disso. Respondi que meu pai era católico não-praticante (brasileiro, enfim…) e que minha mãe era espírita. Fez cara de descontentamento. Perguntou de batizado e crisma. Falei que era batizado porque não pude escolher e que não havia feito catecismo e quetais. Horrorizada, trouxe a sala à discussão. Aborrecido, já correra metade da aula, falei que ela estava lá pra dar aula e não pra catequizar ninguém. Me chamaram de grosso, um garoto super afeminado, enrustido como poucos que conheci na vida e, pasmén!, o mais religioso da turma, começou a me chamar de grosso, que eu era “revoltado” porque não tinha deus no coração, essa ladainha padrão típica de um cristianismo mal informado. Naquele dia, fui embora mal, muito deprimido, humilhado e, curiosamente, o colega policial me dera carona de moto, coisa que nunca fazia e tentou me consolar. Solidariedade vem das situações mais  estranhas e dos personagens mais improváveis, é verdade.

 

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Nessa época eu já era completamente envolvido com cultura underground, punk/hardcore, e as amizades de cartas no mundo inteiro eram um alívio para aquela situação. Lembro que relatei a situação à estes amigos de missivas, a grupos anarquistas… Poucos me orientaram quanto ao que fazer em relação ao bullying, que naquele tempo nem tinha este nome entre nós. Era engraçado que com os pares pouso alegrenses que também não professavam fé católica, amiúde haviam histórias similares. Saber que não era o único a passar por aquilo não me ajudava em nada. Só que o inferno é grande, cheio de etapas, sempre há de piorar. E a vida no interior de Minas Gerais não é fácil para um livre pensador precoce…

Passou-se algumas semanas, meses talvez?, e o ano encaminhava-se já para o fim. Ia relativamente bem nas matérias que me apeteciam e rodava bonito nas disciplinas de exatas, feito exceção à matemática, onde encontrei o melhor professor que tivera até então, uma lenda naquela escola. Como começara a ir mal nas aulas da manhã, pedi para minha mãe para faltar uma semana pra estudar. A bem da verdade, tava envolvido também com minha máquina de escrever e a reta final de um fanzine que terminava naquela época. No fim de semana após este intervalo nas aulas noturnas, jogava basquete de rua com alguns amigos, coincidentemente, aquela colega de sala bonitona morava lá. Ela passou, me chamou ao seu portão um pouco depois, queria saber se eu estava bem, falou que tava sentindo minha falta, etc etc e terminou com uma frase em ar meio maroto:

 

– Fulana (a professora mala) tá com saudades de você…

 

Achei estranho mas voltei ao jogo e larguei um “ave Maria, deus me livre” irônico.

 

Segunda volto a escola, já ocupado com outras coisas, uma fita do Descendents que tenho até hoje no walkman. A sala toda me encara de um jeito estranho. Ninguém fala comigo direito. Vou levando a situação e mais para o meio da semana, num intervalo entre as aulas, puxo prosa com a colega bonitona e o colega policial. Falamos da vida, os dois estavam em crise em seus respectivos relacionamentos, eu brincando de formar casal entre os dois. Naquele clima tranquilo, a colega me conta que rolara uma situação horrível que me envolvia. Na semana que estive ausente e julgando não ter nada mais a ensinar nos 50 minutos de aula, a professora “carinhosamente” apelidada de “Mantena”, resolvera fazer uma sabatina a meu respeito.

Mantena e sim, ela parecia com ele!

Mantena e sim, ela parecia com ele!

A questão era que essa professora julgava-se um pouco psicóloga e discorre sobre o fato que muito provavelmente eu era “louco”. LOUCO, simples assim. O pior, é que uns colegas regozijaram com aquilo. Zé povinho é mato. Uns chegaram a levantar a hipótese de ser satanista, de estar possuído, uma garota (que inclusive eu ajudara muito nas aulas de redação e literatura), dizia sentir uma energia pesada vindo de mim e por aí seguiu a toada. Essa minha colega contou que não aguentara mais aquele papo e havia batido boca com a professora. Apesar de ser uma colega relativamente tímida, fato era que tinha rasgos idealistas e sabia ser firme em alguns momentos. A raiva fora tanta que ela chegou a sair da sala – amenizando a história, brincou que usou do expediente pra aproveitar para fumar no banheiro. Meu colega policial pediu desculpas, porque disse que não concordara com aquela situação mas que se ausentara em dar qualquer opinião. Não o culpei e disse isso a ele. Aproveitando o momento de papo franco, ele me contou algo surpreendente: fora ele que me “grampeara” na manifestação de 7 de Setembro tempos atrás! Em um primeiro momento, fiquei um pouco puto, mas depois rimos da situação. O que sabia era que iria dar o troco para aquela professora noiaba.

 

Cheguei em casa e relatei o ocorrido à minha mãe – meu pai morava em Santo André por motivos de trabalho. Seria esperado que tomasse atitude em relação àquilo não? Qual nada! Falara que meu “jeito de ser” provocou aquilo. Parecido com a lógica do “mulher de roupa curta instiga o estupro”. Bati muita boca e por fim mamãe contemporizou – mãe é mãe, afinal. Prometera ir até a escola – não foi. Como já era fim de terceiro bimestre e ela sabia que tinha chances de reprovação e que nada ali me interessava, disse que poderia abandonar as aulas noturnas. Mas eu tinha que dar o troco.

Num era o louco? Loucura faria.

No outro dia havia aula daquela professora. Escrevera durante o dia meu manifesto durante as aulas da manhã. Tirara algumas cópias a tarde. Obviamente, aquele panfleto tinha um “A na bola” e um “Nem Deus Nem Pátria” no final. Quando ela entrou na sala, deixei que terminasse a reza e enquanto sentava, me levantei e comecei a falar, respondendo ponto por ponto as acusações que me fizeram. Ela tentou me parar e a mandei calar a boca. Havia eletricidade no ar. Distribuí os panfletos enquanto falava (gritava?) aos colegas e deixara um na mesa dela, e afirmei categoricamente que, pela Constituição de nosso país (tal qual o Ciel) se havia alguém errado naquela sala era ela, e que eu pretendia acionar os jornais, a polícia e secretaria de ensino. O estado era laico e fiz questão de anotar o verbete de dicionário referente ao termo no panfleto. Mandei nominalmente cada uma das pessoas que me tacharam ir se fuder, peguei minhas coisas e sai da sala. Fui à sala da diretoria, distribuí os panfletos para os que lá estavam e falei que ia processar a escola e pedi pra ir embora. Falaram que não podiam me deixar ir. Não lembro se ligaram pra minha casa, mas sei que saí e naquela merda de lugar nunca mais pisei. Levei sim o panfleto e a reclamação à delegacia de ensino e fui a 2 jornais. Tudo por conta e indignação própria. Fizeram graça com o caso  (novamente tal qual o relatado pelo Ciel)  e nada foi adiante.

 

O que aconteceu depois? Aquilo aqueceu sobremaneira minhas convicções de então sobre o quão perigoso são as religiões organizadas, o que foi bom e, o dado ruim, subiu minha guarda em relação às pessoas de forma que até hoje vejo o lobo em cada ser humano. Perdi um pouco da sadia fé na humanidade. Hoje, sou mais conivente com os assuntos da fé. Conivente não, tolerante. Porque da fé também fiz uso, em uma outra chave, que não merece ser assunto aqui. E a fé na humanidade a recuperei por outros meios. O que me assusta é a tragédia de agora, quase 20 anos depois.

 

O Brasil não é caso isolado no planeta e um certo tipo perigoso de fundamentalismo cristão ronda a sociedade. E esse Feliciano é só a figura midiática mais ressoante dessa pataquada. Acreditem, ele é o menos importante agora. Eu brinquei esses dias em uma lista de discussão, antes de saber da história de Ciel Vieira, que ser ateu no nosso mundo o colocava num grau de pária social abaixo de uma mulher negra, homossexual, manca, anã, judia, nordestina e pobre. Mas o fato é que certas características comportamentais, ideológicas e de caráter muito negativas são atribuídas aos ateus. A desrazão e o despropósito dessa situação são muito gritantes para qualquer pessoa que jogue com a história como aliada.

 

Esse texto me fez pensar em como as redes sociais podem ajudar um adolescente cheio de dúvidas e temores a se sentir parte de algo maior, de não se sentir menosprezado, rejeitado. Tudo graças a um celular e um site de compartilhamento de vídeos. Pena eu não ter tido essas ferramentas. E me fez pensar como esse garoto, Ciel Vieira, é um garoto incrível! Se conselho fosse bom, eu só daria um pra ele: continue assim, vá aonde há silêncio e diga algo. Não se omita. Vai ser um caminho doloroso e não tenha ilusões que o mundo vai ser melhor que a sala de aula. Não vai ser. Mas ele é maior. Mundo mundo vasto mundo. Mas, por experiência própria, tenha certeza que encontrará um monte de gente de coração bom, de peito aberto, de ideias, gente que deseja um outro mundo melhor, que talvez nem vamos vislumbrar, mas essa afinal é a rota da liberdade. E liberdade te leva para um monte de lugar, menos às prisões físicas, psíquicas ou espirituais.

 

Nunca desista!

  

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