Primos e meu irmão. Eu sou o emburradinho do canto direito.

in girum imus nocte et consumimur igni

Esse texto foi publicado originalmente na Revista Creta, na edição dedicada à cidade de São Paulo. Aliás, se vocês não a conhecem ainda, cliquem ali no link. Publicado aqui no blog levemente alterada e com links que elucidam termos e ilustram passagens. Sei lá, deu uma expandida na experiência até pra mim! Abram os links em outras abas e vejam se não forma um conjunto interessante… 

De certa forma, comunica-se com muito do que será publicado no meu próximo zine, “Sonho da Casa Própria…”, a ser lançado na Feira Plana em São Paulo e posteriormente no Rio de Janeiro e em Pouso Alegre!

Ah, recomendo a leitura tendo como trilha o álbum Qualquer Frágil Fio de Fantasia, do projeto Lise, do querido amigo Daniel Nunes, pra mim, eternamente o maior baterista do inesquecível Retórica, de Belo Horizonte!

Primos e meu irmão. Eu sou o emburradinho do canto direito.

Primos e meu irmão. Eu sou o emburradinho do canto direito.

in girum imus nocte et consumimur igni

Largado no quintal, esperando o pouco do sol que se agigantava em um fiapo de horas acima do muro alto que estabelecia o limite entre minha casa e a viela. O sol ainda driblando a laje tirânica que da outra ponta do minúsculo quintal queria furtar a nós a presença majestática. A espera naquele chão frio – um mosaico sem graça formado por cacos de azulejos cimentados por todo o quintal e corredor – me lembrando a existência: brigas na rua, pipas perdidas, jogos de fubeca onde invariavelmente saía perdedor, os amores inconclusos… um moto-contínuo existencial onde a epifania e o gozo que encontraria muito adiante me eram negadas. Os azulejos de tons pasteis dominavam a topografia. A falta de tons da miserável vida cotidiana era reafirmada no meu leito matinal. Um ou outro caco colorido me faziam assomar ficções todos os dias que findavam com os primeiros raios do Sol queimando as pestanas. Mas não eram essas as histórias que ficaram em minha memória.

O sol me livrava da quase morte todos os dias. O tom pastel predominante me lembrava a terra, e trazia a tona um exercício diário onde tentar diminuir a respiração até que a mesma parasse de existir era a ambiciosa meta. Ou, em dias inspirados, buscar um vazio de pensamentos onde me livrasse de toda e qualquer ideia – na minha cabeça a respiração e a vida por extensão eram frutos da ideia que brotava em nossa mente. Quando alcançava este estado, enganava o frio daquele piso e encontrava o calor da terra escura, meu corpo sugado lentamente por ela, a paz chegando, o som ambiente se desfazendo, um aconchego natural, o contato da minha pele com a maciez daquele solo trazia-me sensação que nunca mais pude recuperar. Talvez não seja exato chamar isso de morte, mas não tivera contato ainda com as histórias do Monstro do Pântano, o avatar do “verde”.

E aí chegava o sol e mudava a ficção da minha existência.

1985/86. Mas ali não era São Paulo, era periferia de Santo André. Mas foi com a razão e a emoção devassadas em São Paulo que pude reavivar tal período.

“Escrever é uma maneira de viver” – Flaubert

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Eu era um príncipe em um cavalo branco desgarrado de meu exército, pleno nas paisagens a minha volta, ocupado em apreender o entorno, buscando uma outra vida que me fizesse esquecer de dias gloriosos que nem sabia serem tão cheios de vulto. A fantasia nos tira daqui.

Era eu e uma bicicleta montada de restos de outras bicicletas. Aros dali, guidão de acolá, o que havia de mais digno naquele Frankenstein era o quadro recém-pintado de vinho. Tudo obra do meu irmão mais velho, tirando meu foco da condição material de então. Me deu asas e eu voei. O único lastro de dignidade conferido àquele conjunto, cavaleiro e montaria, era a soberba do primeiro. Soberba banhada da ignorância do outro, do mundo – até desta dádiva me veria afastado com o avançar dos anos.

Meu bairro era quase inabitado. Uma existência que ainda permitia leite entregue fresco todos os dias por um carroceiro. As alcoviteiras exerciam sua parte no jogo, os crentes esfregando suas pulsões e reprimendas aos incautos, a molecada por falta de recursos pixando os muros com carvão – farto naquela quebrada do mundareu fora do radar de cronistas geniais. Pedra noventa, como sempre, não esfarelava. Tudo feito pra se esquecer. Voava em minha bicicleta através das ruas de terra. Imaginava areia, por haver uma fina camada desta acima da terra vermelha, fechava os olhos por longas retas sentindo o vento quase ausente no verão de minha memória, um walkmen velho – dado por meu irmão mais velho – tocava incessantemente uma fita dos Garotos Podres, falando de subúrbios operários, de parasitas que sugavam meu suor. Aquilo poderia ser minha vida, mas também não o era. Eu vagava numa fenda temporal, com aquele calor e aquelas ruas largas e de casas com quintais amplos me fazendo querer as praias do litoral Sul pobre que conhecia até então. O mar. O mar… Mar… chegava em um limite do bairro onde dava de cara com um rio sempre próximo do assoreamento. De onde veria poucas canoas, poucos pescadores, mas que nos serviria de palco para  alguns namoricos pré-adolescentes e algumas putarias mixas. Não dava pra saber, mas, assim, a fantasia ia passando para uma ficção científica – a literatura de ideias de nosso tempo – e me tornaria outra pessoa.

1993/94. Mas ali não era São Paulo, era um subúrbio de Pouso Alegre, Sul das Minas Gerais. Mas foi com a emoção e a razão de nova narrativa em São Paulo que me fez reavivar tal período.

“Tudo o que você podia ser, sem medo” – Milton Nascimento

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Era carnaval. 28 horas acordado. Pulando de um bloco para outro. Pastilhas coloridas. Muita cajibrina na mente. Delírio, folia, uma cidade em transe. Todo mundo junto e misturado. Odor de mijo estourando narinas. Foda-se: viver e não ter a vergonha de ser feliz. Todo mundo nu & misturado no alto do Morro, o dia nascendo, uma pequena multidão maravilhada, desconcertada com o horizonte estraçalhando nossas vistas cansadas, com o que aquilo nos revelava adiante, pras nossa vidas. Caipirinha. Mais caipirinha, por favor. Gringas. Nunca sexo bêbado ruim foi tão bom. A memória alcoolica não extirpou tais lembranças. Fomos engolidos pelo frenesi e não afinei: me entreguei. Éramos felizes e não sabíamos. Quando nada é mais forte que a felicidade.

2012. Nem citei a praia mas é fácil saber que não falo de São Paulo. Rio de Janeiro, eterna república Guanabara. Mas foi para falar de São Paulo que lembrei desse frame do meu carnaval. Talvez porque São Paulo seja como a vida, onde a tristeza não tem fim, felicidade sim.

São Paulo pro migrante hedonista, estes carpe-diemistas afoitos da Ordem da Alienação Voluntária e Fortuita, é sempre um lugar a se equilibrar entre a cruz do capital e a espada dos paraísos artificiais, da fortuna de oportunidades que nunca se realizam, de encontros fugazes e inesquecíveis. De tatuagens feitas a ferro. De bares cheios de almas tão vazias. De tiranias vividas em velocidade lancinante. Nada permanece na memória. Tudo estraga a alma. Todos lançados em um abismo e já não sabemos quem somos. As fogueiras enormes em cada favela que se avolumam por todas as partes nos lembram de nossas bruxas, o mal interior. Ninguém é inocente.

Só que São Paulo é tudo isso e não é. São Paulo é sempre mais. Mais. Nunca é mar. Mar.

São Paulo, pra mim, é um lugar onde não estou.

“All sense was lost in frenzy” – Fugazi

p.s: obrigado ao Ale Teles pelas últimas correções/considerações.