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Cinema Em Casa: Memórias Uspianas

O Cinema Em Casa de hoje neste blog tá estilo Street Fighting Man, vendo tudo vermelho!

A USP não é só uma das mais importantes universidades latino-americanas. Quem passou por lá sabe: muitas vezes o que rola além sala de aula acaba te marcando muito mais – para o bem e para o mal.

No vídeo-documentário A Experiência Cruspiana, de 1986, sobre o CRUSP (Conjunto Residencial da USP), tem-se um panorama histórico da mítica moradia e dá-se um pouco a “temperatura” do lugar. Morei lá no início dos anos 2000 e a gente brincava que “a gente sai do CRUSP, mas o CRUSP não sai de você”. E é meio por aí: essa vivência árida, a pobreza sempre presente, o isolamento, a sensação de ser uma espécie de pária social naquele ambiente privilegiado, tudo dá um sentido de comunidade e cumplicidade. Não à toa, muitas grandes amizades são desta época.

O filme foi realizado logo após a chamada “expulsão dos punks” do campus, e mostra diversas facetas deste espaço de vivência universitária desde o seu início, no período da ditadura militar. Inclui depoimentos de ex-moradores, dentre eles, o famigerado José Dirceu, na época um recém-anistiado.

Já o filme Porque Lutamos? traz a história do estudante Alexandre Vannucchi Leme, que foi preso, torturado e assassinado pela ditadura militar do governo do general Emílio Garrastazu Médici, em 1973. Esse é um outro lado, doloroso – como fica explícito neste filme, de algo muito presente no cotidiano uspiano: o fazer político.

Neste filme, são sete pessoas que contam suas trajetórias de luta, de como atuaram pelo fim da ditadura militar e o que representou, para os movimentos e as organizações de esquerda, a morte de Alexandre.

 

 

Já o curta Não Começou Em Seattle, Não Vai Terminar Em Quebec, fala de algo muito caro à minha formação política: o movimento anticapitalista. O filme produzido pelo CMI – RJ sobre a manifestação na capital paulista contra a Cúpula das Américas, ocorrida em 20 de abril de 2001, em Quebec, Canadá, mostra sem meio termo como uma manifestação pacífica foi atacada pela polícia com uma violência brutal, que resultou em quase 100 presos e centenas de manifestantes feridos. Sinceramente, passado o calor do momento, como não podia deixar de ser, tenho muitas e muitas críticas àquela época, à nossa prática política, aos nossos objetivos, mas esse vídeo ainda é bem difícil de se assistir pra mim pelo sofrimento que fica latente pra mim. No dia da manifestação, estava na comissão de primeiros socorros da manifestação e atendi inúmeras pessoas feridas e assustadas: lembro que, quase 24 horas depois do ocorrido – ficamos horas em portas de DPs da região da Paulista, depois escrevendo textos para imprensa, contactando organizações de Direitos Humanos, ligando pros amigos feridos – eu desabei e chorei copiosamente, de cansaço físico, de dor moral, de impotência, de sair derrotado ao colocar seu sonho em contato direto com a ordem do dia.

O resultado foi uma lição trágica: como a violência policial “educa” o cidadão e desmobiliza um movimento que crescia exponencialmente. Afinal, é necessário muuuita convicção e idealismo pra ficar nessa vida de conflito físico com as forças mantenedoras da ordem.

Ah, obviamente, foi minha vivência como ativista político na USP que me colocou naquele breve espaço de tempo na Avenida Paulista, protestando contra a ALCA que, ao fim, felizmente não foi adiante. Olhando hoje, o plano ALCA foi uma última tentativa de legitimação do neoliberalismo na região.