A Comuna de Paris 1871

Brecht Ocupa Wall Street + Peter Watkins

Nada mais pós-moderno, avesso à força narrativa tão cara ao dramaturgo alemão Bertold Brecht – um dos maiores dramaturgos e poetas do século 20. Paradoxalmente, poucas ideias poderiam ser tão pertinentes: encenar a clássica peça Os Dias da Comuna no entorno do movimento Occupy Wall Street, em Nova Iorque.

A engenhosa ideia só poderia vir de uma mente instigada e realizadora de trabalhos cruciais como o multi-artista Zoe Beloff, que se apresenta como diretor e “instigador” da montagem de rua da clássica peça que trata do cotidiano do povo sob a Comuna de Paris em 1871. antes de continuarmos, Com a palavra, o próprio Zoe Beloff:

“Na primavera de 2012, reuni um grupo de atores, ativistas e artistas para encenar a peça de Brecht “Os dias da Comuna” em solidariedade com o Ocuppy Wall Street. Pensando no OWS como um teatro popular radical, me inspirou a conceituar esse projeto como uma “obra em progresso”, no sentido de que todos os movimentos sociais são um trabalho em progresso, e eu queria que esse trabalho fosse visível. Ao invés de apresentar a peça em um teatro, encenamos cena por cena em espaços públicos ao redor de Nova York, a partir do Zuccotti Park [epicentro do próprio OWS]. Estes ensaios públicos funcionaram de março a maio, os meses da breve existência da Comuna de Paris, na primavera de 1871. Comuna de Paris foi a primeira ocupação moderna, onde os trabalhadores assumiram a sua cidade e a transformormaram em uma democracia popular progressista. Diversos grupos de esquerda se reuniram e as mulheres desempenharam um papel importante na definição e exigiram princípios feministas. Os communards tinham muitas ideias que são relevantes ainda hoje: decretaram que a educação deveria ser livre, que nenhuma casa ficaria ociosa enquanto houvessem trabalhadores desabrigados. Eles eram contra o militarismo e internacionalistas. Brecht nos mostra a vida cotidiana durante a Comuna e, ao mesmo tempo, nos convida a pensar sobre como política e economia moldam nossa experiência vivida. A peça nos convida a imaginar o que aconteceria se um novo tipo de democracia popular assumisse uma cidade hoje. Como poderia sobreviver contra as forças do Capital Global? Como responderia a um ataque armado? Essas questões são relevantes tanto para a Primavera Árabe quanto para o movimento Occupy. Brecht não fornece respostas. Ao invés disso, convida cada um de nós a pensar por nós mesmos”.

A peça pode ser vista inteira em três partes (Primeira parte, Segunda Parte e a Terceira Parte). Os vídeos foram disponibilizados para uso não-comercial e educacional.


Aqui e aqui, dois trabalhos fundamentais de Bellof, e abaixo um vídeo:

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Se o assunto é Comuna de Paris, não dá pra não falar do INCRÍVEL filme de Peter Watkins sobre o assunto, realizado em 2000. Watkins é um dos mais engenhosos cineastas políticos contemporâneos de nosso tempo e não deixou por menos neste filme de quase 5 horas: em sua recriação da Comuna de Paris no filme A Comuna, usou classificados de jornal para recrutar atores de direita que nutriam nutriam uma antipatia genuína pelos ideais dos rebeldes comunardos para encenar o governo e a burguesia. A história toda, realizada em chave teatral, é “filtrada” pelo ponto de vista de 2 emissoras de TV (obviamente) fictícias – a dos rebeldes e a estatal, do governo.

Abaixo, os primeiros 6 minutos do filme. E aqui, um link com bom texto sobre o filme e canal pra baixar o filme todo legendado. FUNDAMENTAL.