Sacco-russia

Joe Sacco, Pekar, Patti Smith, Pynchon etc etc Em 5 Resenhas

Resenhas do fim de 2011 – acho que dessas, uma foi publicada na +Soma e outra na Vista e só.

Vários autores . Os Beats . Editora Benvirá . 2010

Harvey Pekar (1939 – 2010) foi um desses gênios ofuscados por suas diatribes e companheiros de percurso. Não era pra menos: quem o “descobriu” e o lançou no mercado de HQs foi ninguém menos que Robert Crumb – o maior artista vivo das HQs no planeta. Reconhecido muito mais  por sua excentricidade do que pelo seu vibrante talento para constituir narrativas baseadas em experiências pessoais, sem cair no piegas, na autocomiseração e na auto adulação egóica.

Pekar construiu uma obra ainda pouco conhecida no Brasil (havia no mercado apenas o volume Bob & Harv – Dois Anti-Herois Americanos, lançado pela Conrad e cuja preparação de texto foi feita por este que vos escreve) e que o coloca como um dos maiores contadores de histórias de nosso tempo. Histórias prosaicas, mundanas – o retrato fiel de um trabalhador ordinário no Ocidente – que saíam do comum graças aos comentários agudos de Pekar. Assim, não soa estranho que Pekar, aliado com Paul Buhle (uma eminência parda quando o assunto é radicalidade estadunidense no século XX), que editou a obra, escrever sobre os beatniks em Os Beats. Dividindo o livro em três grandes histórias sobre Kerouac, Ginsberg e Burroughs e outras menores sobre os demais nomes da literatura beat (Ferlinghetti, Corso, Di Prima, Lamantia etc) e aspectos ligados ao meio, como os antecedentes na literatura americana, os aspectos filosóficos que deram consistência ao movimento, a (não) participação feminina, a música de então etc etc, por uma deficiência do mercado editorial brasileiro, ainda é possível conhecer algo novo sobre a turma ainda não explorado no Brasil. Na maior parte do livro, a arte fica a cargo de Ed Piskor, um dos maiores parceiros de Pekar e amplamente desconhecido no Brasil.

É engraçado os questionamentos um tanto quanto “travados” e típicos de Pekar sobre a misoginia e homossexualidade de Kerouac (o mesmo manteve diversas relações com homens), ou na HQ de Joyce Brabner (a esposa feminista de Pekar) sobre as mulheres no mundo beat, apresentando um lado mais barra pesada e menos heroico dessa geração, amplamente jogado pra debaixo do tapete por seus biógrafos. Em Os Beats, não há muito malabarismo textual ou explosão visual; neste livro, realizado por pessoas que acima de tudo nutrem um fascínio saudável sobre o assunto, texto e arte operam as premissas mais elementares da linguagem da HQ, transferindo um pouco do didatismo típico de livros biográficos, para a linguagem propriamente dita das histórias em quadrinhos, “ensinando” como é possível contar uma ótima história se atendo ao essencial da linguagem das HQs.

Harvey Pekar – um dos herois deste blog!

Vício Inerente – Thomas Pynchon – Cia das Letras

Pynchon é um desses heróis da literatura que unem descontração, desvario e rigor formal e narrativo de uma maneira tão peculiar e inextricável que tornou-se referência e paradigma. Onde muitos falham e acabam por se apoiar no tal do “diálogo com a cultura pop”, torna-se apenas um ponto de partida para o escritor americano responsável por um dos clássicos psicodélicos em qualquer forma de arte, o monumental Arco-íris da Gravidade. Voltando ao cenário de alguns de de seus romances/esfinges anteriores, a Califórinia dos anos 1970, em Vício Inerente ele trata da descendente da curva do verão do amor hippie e, muito provavelmente não arbitrariamente, abre mão do gênero policial para tanto, criando um detetive doidão, Doc Sportello, misto de Sam Spade e Hunter Thompson. O detetive da vez se mete em encrenca por causa de uma ex-namorada, terminando por lidar com uma conspiração onde mistura-se especuladores judeus e seus seguranças nazis, hippies de diversas matizes, surfistas, traficantes, contrabandistas, bandas de rock, prostitutas e as mais variadas drogas. Ao contrário de muito escritor com pretensões pop, Pynchon não é preguiçoso nem condescendente com o leitor, com suas afinidades eletivas e nem com seus personagens, de forma que ninguém passa impune por seus livros. Apesar de uma tradução malvista por muitos, é ótima leitura introdutória para os livros mais densos do autor. O livro vai virar filme sob direção de Paul Thomas Anderson.

só garotos – Patti Smith – Cia das Letras

Pensa numa garota feia que nunca tomou umas bifas dos pais liberais. Pensa numa garota feia que cresce, arruma um namorado mais pintoso que o Clóvis Bornay, cheia de pretensões literárias e que vai pra “cidade grande”, deslumbrada e cheia de ideinha errada a respeito de poeta-estilo-torturado como o Rimbaud. Pensa que ele conhece um monte de gente afetada na cidade grande pra potencializar toda essa pilha errada. Pois é, essa é a Patti Smith e um pouco do seu livro de memórias. O que eu penso disso tudo? Bom, que mesmo uma pessoa cuja vida e pretensões me soam como um banquete de cagalhada pode se tornar uma artista foda e escrever como poucos – o que fica evidente em só garotos – com letra minúscula mesmo. Coisa de poetinha e tal. [Em tempo: podem cair dentro no disco novo dela, Banga – é coisa fina!]

Batu – Tute – Zarabatana Books

Na Argentina dos tempos de sua última ditadura, surgiu um cartunista gigante no talento, Quino, que criou a menina mais “problemática” do planeta – obviamente, um problema para os caretas e reacionários, e divertida e sagaz pra todo o resto: Mafalda. O cara marcou época e encheu o mundo de esperança com uma obra sintomática da própria América Latina. Hoje, lá na terra de nossos hermanos, o transe cartunístico em voga cria tiras fofas e poéticas como Macanudo, por exemplo, ou menininhos igualmente fofos e loquazes como esse Batu, do cartunista Tute.

Não sendo este o espaço para discutir esse “desvio de rota” por parte dos cartunistas argentinos mais incensados da atualidade, vale destacar as virtudes desse Batu: Tute cria empatia com personagens e cenários de um grafismo um tanto sem graça, por onde o meninote de juba vermelha do título e seu cãozinho azul flanam em busca de aventuras imaginárias e por vezes oníricas, emblemático de um autor que clama desde a dedicatória pela magia infantil com um “à minha infância, de onde eu sou”. Mesmo sendo característico de nosso tempo essa postura e não guardando o peso reflexivo e histórico de uma Mafalda, Batu é dessas leituras leves e agradáveis, mais uma boa publicação voltada para os sempre frutíferos quadrinhos argentinos.

Notas sobre Gaza . Joe Sacco . Quadrinhos na Cia

Nenhum artista de quadrinhos contemporâneos criou obras tão relevantes e comentadas em um contexto social/cultural amplo quanto Joe Sacco. Suas obras, como os álbuns sobre o conflito palestino e o sobre Gorazde, impõe-se como referências sobre ambos os assuntos e destacam-se – e muito! – como HQs. O domínio da técnica preto e branco de desenhar com hachuras e seu traço e domínio narrativo devedor da escola das HQs undergrounds de Crumb dos anos 1960/70, fazem de Sacco um dos artistas mais relevantes das HQs no planeta. Tendo tudo isto em vista, Notas Sobre Gaza é uma obra-prima – e para bons entendedores não precisaria ser dito mais nada. O apuro jornalístico, a narrativa e seus desenhos nunca estiveram tão afiados e nunca um relato de sua lavra fora tão contundente e incisivo. Dessa vez, interrogando pessoas no presente, retrata o massacre na vila palestina de Khan Younis em 1956 – evento devidamente ignorado pelo historiografia. Só que para Sacco, que conversou com especialistas, militares e testemunhas do acontecimento, este evento marca até hoje a dinâmica de baixos e mais baixos na região. E o faz, com muita propriedade. O próprio Sacco aparece mais uma vez como personagem secundário. Só que, típico de sua abordagem e predileções, trata-se de um personagem “menor” no caudaloso rio da história disposto a fazer diferença. Clássico urgente.

Aqui uma ótima entrevista com Sacco em inglês.