bolobolo

Envelhecer Punk Rocker – bolo’bolo e Colligere

Pessoal, eu acredito piamente que quem não faz nada sempre estará com a razão, mas sempre alimenta a apatia e o conservadorismo. Já quem tá na lida e na luta, erra muitas vezes, mas aprende, ensina e curte a vida com mais felicidade, apesar de todos os pesares. E essa receita primordialmente bota por terra qualquer sinal de apatia e caretice. Agora, estar “na atividade” tem dimensões variadas. Eu, por exemplo, pra cortar esse banzo que é o desemprego, resolvi, paradoxalmente, festejar. Daí nasceu a bolo’bolo.

Como toda ideia legal, ela tem um quê de utópica já no nome, que faz referência ao devaneio utópico que influencia boa parte da contracultura ocidental. Me juntei ao Bruno Negrão, uma das cabeças por trás da Comuna, espaço que junta o que há de melhor na energia jovem criativa da Zona Sul carioca, e botamos a mão na massa: bolo’bolo é uma festa como qualquer outra, com a gente botando música pro povo sacolejar, bar, paquera etc. Tudo na mais perfeita ordem. O elan que criamos pra gerar bons sentimentos e desapego em um mundo norteado pelo individualismo e o consumo como cura para os males da alma, foi catalizar a energia ali criada para fomentar uma feira de trocas, onde não envolva $$$. E a primeira edição, com divulgação pífia e de poucos dias, foi um sucesso!

Maiakóvski, se vivo o fosse e pudesse pintar na festa com sua gravata borboleta amarela, adaptaria sua máxima para “Sem forma revolucionária não há festa revolucionária.”

Vale dizer que não inventamos a roda e eu só apliquei algo que havia experienciado em Buenos Aires no auge da crise argentina, em 2003. Quase dez anos depois, pude encontrar gente bacana o suficiente e com gana de criar experiências valorosas pras pessoas que tornou possível esta festa – milhões de loas à Comuna de Botafogo! E tenho que dizer mais: descobrimos no processo que há ao menos duas Feiras similares na Zona Sul carioca: a Feira da Gratidão no Largo do Machado e o Troca-troca da São Salva, na praça São Salvador, epicentro de muita folia barata e pública no Rio de Janeiro. Prova que esse sentimento de tentar experiência não-normativas, e porque não utópicas?, está vivo é que, apesar da pouca divulgação, já fizemos contato com pessoas de ambas as feiras. Um viva pra noiz!

Dia 5 de dezembro tem mais uma e tentaremos criar algo novo pra esta edição. A primeira teve de guitarra infantil à disco do Sonny Rollins, de vestidos femininos à bottons e gibis. E a próxima com certeza terá mais e mais coisas – além de todo carinho e gratidão que você vê nos olhos das pessoas! Como tá no vídeo abaixo, a sensação de participar de uma feira dessas é incrível!

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Cada um ao nascer / traz sua dose de amor, / mas os empregos, / o dinheiro, / tudo isso, / nos resseca o solo do coração”. – Maiakóvski


Aproveitando o gancho da feira, foi nela que peguei o CD “Incerto” do grupo curitibano de hardcore Colligere, de 2003. E fazia muito muito tempo que não o escutava. E que letras!
O Rodrigo Ponce, vocalista/letrista do grupo, é um desses parceiros que você admira pro resto da vida. Foi desse vídeo abaixo que surgiu a ideia pro nome do post, Envelhecer Punk Rocker, que pode vir a se tornar uma série no blog:

http://www.youtube.com/watch?v=XdON1qY9fIU&feature=youtu.be

Neste vídeo, o Rodrigo mostra uma clareza impressionante ao falar dos dilemas em manter uma banda punk/hardcore quando a rotina chega e os ideais juvenis (necessários e bem-vindos, diga-se de passagem) começam a não bater com a conta do consumo e da produção da humilhação que é acreditar e tentar por em prática atitudes que não condizem com o status quo. Resumindo, pra perspectiva que compartilho com ele, continuar “punk rocker” para além de coleção de discos, visual ou camisetas de bandas. Novamente o bom e velho Maiakóvski já expressou melhor este ponto de vista no trecho acima.

Ser punk rocker pra mim, já ultrapassou a mera questão de ser atuante em alguma cena – coisa que não o sou por motivos vários, a começar que escuto e me identifico muito mais com o rap já faz anos e não encontro ressonância política com as coisas que acredito hoje. Por outro lado, incentivo os amigos que ainda se mantém nos círculos punks, comparecendo nos shows de suas bandas e as incentivando pagando ingresso, discos etc. É pouco. Mas é pouco dizer que ser punk rocker se restringe somente à isso. Pra mim, funciona como uma visão de mundo. E, por incrível que pareça, o filtro mais importante pro meu ponto de vista cultural é o punk rock, no que ele se propões como modus operandi, como ética – da estética prefiro deixar para outro post.

Quando exerço a crítica cultural, sou um militante do gosto, e meu gosto vem filtrado por essa visão cultural punk rocker. Simples assim. Posso refletir sobre o samba do Martinho da Vila ou o rap do Emicida que, fundamentalmente, estarei pensando em sintonia com coisas que aprendi através de um D. Boon, um Penny Rimbaud, uma Alice Nutter, um Joe Strummer, um Jello, Biafra, um Rédson ou um Mau, pra ficar em alguns.

As duas últimas vezes que estive em Curitiba, nós conversamos longamente sobre tudo isso, sobre se fazer ainda relevante, sobre as coisas da vida. E o Rodrigo é um letrista do punk/hardcore que coloco num mesmo patamar que um Sandro do Mukeka Di Rato, um Ruy do No Violence ou o João do Ordinária Hit, pra ficar em três pessoas que conheço e que ajudaram a formar minha opinião.



Esse ano muitas bandas lançaram bons discos de punk/hardcore no Brasil e inclusive os fanzines tão voltando com tudo. E logo mais vou botar algo na roda pra geral.

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