Academia da berlinda CD 2

Bailando Com a Academia da Berlinda

Por Arthur Dantas . Fotos Divulgação

(texto do início de 2008, pra revista +Soma. Divirtam-se!)

“Se eu não puder dançar, esta não é minha revolução.” A frase, atribuída à feminista e revolucionária Emma Goldman, encaixa-se perfeitamente quando o assunto é a Academia da Berlinda, o combo dançante mais quente que surgiu nos últimos anos no Brasil.

Mais um produto da cena recifense, o grupo fundado em 2004 comanda bailes dançantes à moda antiga, com casais dançando coladinhos, criando o pretexto perfeito para aquela namoradinha esperta. “A idéia inicial era fazer um som pro pessoal chamar a menina para dançar na primeira música e só soltar na última. Dançar mesmo, como em um grande baile. A gente sentia falta disso aqui, nossos pais sempre falavam dos grandes bailes tradicionais que aconteciam na cidade antigamente”, explica Yuri Rabid, baixo e voz do grupo.

Pergunto para Yuri se a emblemática geração Mangue Bit teve algum papel ao retirar o foco da música de baile da região. “Acho que eles enfocavam outras características tradicionais do nosso estado e, ao mesmo tempo, vieram com uma visão diferente não só da música… foi uma coisa que envolveu pensamentos e estéticas de uma época.” Ao mesmo passo, o músico contextualiza a situação atual e contemporiza o papel da Academia em um possível renascimento da música de baile para as novas gerações: “Sobre eles terem tirado o foco da música de baile, acho que não foram os responsáveis por isso, porque esse tipo de música já estava um pouco esquecida. Nós também não inventamos essa história, já que a música sempre se renova”.

Os músicos do grupo não são necessariamente novatos da cena local: Tom Rocha toca com Mundo Livre S/A, Alexandre Urêa toca com a banda Eddie, Gabriel Melo acompanha o DJ Dolores, Tiné e Hugo Gila tocam com a Orquestra Contemporânea de Olinda, e Irandê com A Roda. Yuri também fez parte do grupo A Roda e toca forró tradicional com o Quarteto Olinda. Essa “promiscuidade” toda possibilita viver de música? “Acho que temos sorte por conseguir viver de música. Por enquanto dá pra pagar as contas e tomar uma cervejinha”, brinca Yuri. Fico curioso para saber como se deu a gênese do grupo. A resposta sintetiza muito do espírito festivo das apresentações da trupe. “O que se passava era meio que assim: ‘Galera, vamos fazer uma festinha bem legal pros amigos, pra deixar todo mundo feliz’. Uma das primeiras festas foi assim. O ingresso custava dez reais, a gente pegou a grana que arrecadou e comprou cerveja, batidas de maracujá, creme de galinha com arroz e era tudo de graça! Era um lance intimista e sem pretensão de nada… arrumamos a caixa de radiola com parentes, cobrimos o palco com lona preta caso chovesse, coisa de doido. Hoje em dia está mais organizado.”

O primeiro CD do grupo é uma profusão de estilos locais mesclados com ritmos latinos – o que não é necessariamente uma novidade, segundo o próprio Yuri. “Desde há muito tempo o norte do país se identifica bastante com Cuba, África e toda a América Latina. Isso vem desde a colonização, quando houve grande mistura de tradições e costumes. Por exemplo, o Maranhão é considerado a Jamaica brasileira. O Pará recebeu muitas tradições vindas de Cuba, tem o carimbó, que é tradicional de lá, mas teve origem em outros ritmos. Foi o Pinduca que inventou o carimbó e vários outros ritmos de lá, que a gente mistura com os de nossa região, como o côco e a ciranda.” Vale ressaltar: Pinduca é o cantor e compositor conhecido como o “rei do carimbó” e criou ritmos como sirimbó, lári-lári, lambada e lamgode. Além da cidade de São Paulo, a Academia já levou sua música para o interior de Pernambuco, para o Rio de Janeiro, Brasília, Fortaleza, Campina Grande, Recife e região. O disco está na sua quarta prensagem e foi disponibilizado na internet pelo próprio grupo [eles tem 2 álbuns agora – baixe-os aqui e aqui]. Yuri brinca para definir a opção do grupo. “Pode baixar, copiar, mandar pros amigos. O importante é nosso som chegar!”

Há espaço, junto ao imaginário festivo do grupo, para canções que abraçam um lado mais rebelde, talvez inspirado por ideais à moda cubana, como “Cumbia do Lutador” ou “O Sonho e a Dor” (Estou na terra pra sonhar / Com um mundo melhor que tudo dá / Cama pra dormir, casa pra morar / E comida na mesa do povo). Mas, entre o punho cerrado e o sorriso no rosto, o que prevalece é a alegria, expressa já na escolha do nome do grupo: “Nos shows sempre brincamos com alguém da banda ou do público, aquela coisa de deixar sempre um na berlinda. E, de tanto fazer isso, virou uma academia”.

Termino com a questão: há espaço para música de baile no mercado independente? “Acho que não existe mais essa coisa de ficar se lamentando se sua banda não vai pra frente porque você não tem uma gravadora. Tem que arregaçar as mangas e trabalhar que as coisas vão acontecendo e a música pra dançar tá aí. Todo mundo gosta de ralar o bucho, de arriar a fivela do cinto. Tem cumbia, carimbó, salsa, forró, lambada… O Brasil é um país quente, as pessoas são quentes e tem que dar calor pra todo mundo que gosta.”

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