Bill+Callahan 2

Bill Callahan Em Poucas Palavras

Por Arthur Dantas e Lauro Mesquita

(Mais uma matéria antiga, publicada na +Soma. Feita em parceria com o meu chapa Lauro Mesquita, Bill Callahan é um dos nossos herois na música estadunidense contemporânea. Descobrir pesquisando na net links para este texto que 1. Ele vai tocar na Argentina dia 24 de novembro e não virá ao Brasil, e 2. Teve sua tour de 2011 documentada em filme – trailer aqui . Divirtam-se!)

Uma das cenas mais importantes da década de 1990 nos Estados Unidos foi a dos singers-songwriters. Nos últimos dez anos, os compositores do gênero nos EUA ampliaram o sentido da palavra (literalmente, “cantores-compositores”), não só retomando uma tradição tão cara à cultura americana, mas inserindo elementos como gravações caseiras (lo-fi), influências do R&B e do pop de massa e, principalmente, tratando de temas atuais. Nomes como Will Oldham, Kurt Wagner, Elliott Smith e Vic Chesnutt, entre outros, são cruciais nessa retomada. Da mesma forma, a visita de Bill Callahan ao Brasil foi crucial para que nós entendêssemos melhor esse período.

O papo da +Soma com o músico rolou na tarde do dia 10 de setembro [2008?], quando Callahan apresentou seu show em São Paulo acompanhado pelo baterista Luiz Martinez (que toca na banda texana (Horse + Donkey). A impressão que o artista passou durante a entrevista é que sua comunicação com o público se dá quase exclusivamente por sua música; suas respostas são rápidas, muitas vezes vagas, como se tudo em sua vida acontecesse meio que ao sabor do acaso. Sobre as mudanças de nome, por exemplo – Callahan já se apresentou como Smog e (Smog) antes de adotar o nome de batismo – ele diz: “comecei a usá-lo em 1990, e depois de dez anos ele deixou de ter sentido. Não acho que esse nome tenha significado alguma coisa um dia. Ele nunca acrescentou nada à música, para mim, tipo ‘ah, este é o nome perfeito’. Eu simplesmente escolhi e fiquei com ele. Aí eu me cansei e comecei a me livrar dele.”

Ao terminar as gravações do álbum A River Ain’t Too Much to Love (último disco assinado com o nome de Smog, lançado em 2005), o artista já queria assinar como Bill Callahan, mas a mudança foi deixada para o disco seguinte, a pedido da gravadora Drag City. “Neste último disco eu não dei tanta chance de escolha a eles, porque disse antes ‘o nome do disco será este’”, ele brinca.

Antes de viver apenas de sua música, Bill Callahan foi jardineiro, pintor de paredes e tomou conta de uma mulher deficiente. Sua opção pela música, segundo declarou reiteradas vezes, surgiu porque não lhe agradava a idéia de trabalhar para outras pessoas ou ficar enfurnado em um escritório. Além disso, diz, “o maior estímulo nessa ‘profissão’ é a liberdade que a música proporciona”. Liberdade é uma idéia que ganha contornos variados e é expressa de diversas maneiras em sua obra.

Apontar o contexto de onde surgiu o músico Callahan é oportuno. Na virada deste século, surgiu uma nomenclatura que abraçou – muitas vezes sem consentimento – todos os singers-songwriters ao redor do mundo: neofolk. E não foram poucos que tentaram empurrar Callahan para dentro desse balaio. “Eu faço isso há 18 anos, e a cada ano eles inventam um nome novo para o que eu e outras pessoas fazemos. É só um rótulo. Era post-rock dez anos atrás, depois anti-folk… Mudam isso a cada dois anos, então não dá pra levar a sério”, diz Bill Callahan, num dos raros momentos em que dá risada.

A declaração faz bastante sentido, uma vez que o músico, desde seu primeiro lançamento (a fita cassete Macramé Gunplay, de 1988), não busca somente a inserção em uma tradição; sua intenção é mais a de um esteta que, combinando elementos diversos e por vezes supostamente antagônicos, almeja a singularidade, em um resultado novo e vigoroso. E é assim que, em um primeiro momento, buscou conciliar o barulho em estado bruto com uma tradição marcada por formas mais tradicionais – de blues e rock e, mais recentemente, parece se agarrar a idéia de, através de melodias e arranjos minimalistas, alcançar expedientes mais grandiloqüentes.

Suas letras freqüentemente dão vazão a ponderações de pendores existencialistas, filtrando o mundo através de experiências muito particulares. O caráter literário de suas letras é evidente, o que nos leva a perguntar se a literatura influencia suas letras mais do que a música. “A primeira coisa que eu faço é escrever as letras, sem nenhum tipo de música. Isso me faz pensar que sou mais interessado na escrita, em prosa, ficção ou algo do gênero. Eu provavelmente sou mais influenciado por literatura, mas, no final, componho canções, por isso é algo difícil de te dizer.” Na seqüência, reflete: “eu leio muito, mas não acho que isso influencie consideravelmente meu trabalho”. “Acho que encontrei minha voz no jeito que escrevo – talvez esteja roubando alguém sem saber, também.” Atualmente, inclusive, Callahan escreve um poema épico que deve ser publicado em meados de 2009 [nota: saiu e se chama Letters To Emma Bowlcut]. “Comecei faz uns três anos. É em forma de cartas, um homem escrevendo para sua mulher e os dois falando sobre a vida, o amor…”

Em mais de vinte anos de carreira, o músico se acostumou ao trabalho solitário. Porém, quando necessário, soube escolher bem seus parceiros: Jim O’Rourke (Sonic Youth, Gastr Del Sol), John McEntire (Tortoise), Cat Power, Joanna Newsom. Em seu álbum mais recente, o belíssimo Woke on a Whaleheart (“Acordei no coração de uma baleia”), lançado na América do Sul pelo selo argentino Ultrapop, contou com a participação de Neil Hagerty, mítico guitarrista e produtor, integrante de grupos como Pussy Galore e Royal Trux. “Perguntei se ele (Hagerty) poderia fazer os arranjos com rapidez, porque é algo que eu tenho dificuldades de fazer sozinho. Acho que fazer música boa de verdade não é o meu forte. Ele é um grande músico e tem influências bem rock. Achei que dava pra tirar alguma vantagem daquilo. E o tipo de música com que ele trabalha é bastante rítmica. Acho que ele levou sete ou oito dias para arranjar e gravar o disco todo. Comecei a trabalhar uns dois meses antes de mostrar as músicas pra ele, ele compôs algumas coisas e daí nós nos encontramos e fizemos o álbum.”

Uma característica muito forte de seu trabalho são as referências bíblicas, presentes no disco novo em canções como “The Wheel”, “Day” e “Footprint”. Isso leva a perguntar se ele enxerga influências religiosas em sua música. Bill é enfático sobre o assunto: “Não. Acho que [a religião] é algo do qual as pessoas deviam passar longe e parar de praticar. Já fizeram muita referência à Bíblia, eu tento não fazer nenhuma, porque é muito comum. Mas [a Bíblia] é um livro grande, com um monte de histórias… Quando você escreve algo, é provável que aquilo já esteja na Bíblia. Então, acho que é fruto de um sentimento inconsciente, porque [a Bíblia] é como um dicionário: é difícil não cruzar o caminho dela de vez em quando”.

O músico mantém alguns traços permanentes em sua carreira. Inicialmente, produziu gravações caseiras em quatro canais, explorando em seus arranjos e elementos desde o white noise até canções mínimas. Nos últimos dez anos, seu trabalho se tornou mais orgânico, soando mais como uma banda tocando ao vivo, além das evidentes influências de música negra americana. Além disso, o músico já usou corais infantis e arranjos orquestrais em seus discos. “Quando eu comecei, não queria fazer shows. Queria apenas fazer discos e músicas que não poderia recriar ao vivo, mesmo se tentasse. Mas aí comecei a querer fazer shows e a me interessar mais em fazer bons discos, com boas canções para que as pessoas ouvissem, sem nenhum barulho esquisito ou algo assim. Meus objetivos simplesmente mudaram.”

Callahan hoje tem maior interesse na música negra de seu país do que na música feita pelos brancos. “Sim, eu acho que [a música negra] é mais interessante do que a música branca americana. Eu gosto muito de R. Kelly, Lil’ Wayne… Acho que o hip-hop já não é tão inventivo como costumava ser, mas sempre os discos trazem alguma música, alguma coisa nas letras que te animam, chamam a atenção.”

Além do interesse nos cantores das paradas americanas, Callahan afirma escutar muito reggae e música cigana. “Não sou muito de procurar música – escuto o que chega até mim. Ouço muita coisa. Eu gosto do disco do Bill Fay [The Time of the Last Persecution], um inglês, só lançou dois discos (ambos no início dos anos 1970). Depois ele se desiludiu com a indústria musical. Ainda está vivo, mas não gravou mais nada… Acho que os discos foram populares quando saíram, não sei por que ele desistiu.”

O músico, que já morou em mais de sete estados em seu país, passou os últimos anos em Chicago. Recentemente, trocou o frio do meio-oeste americano pelo sol de Austin, no Texas. “Não queria voltar para nenhum lugar onde tinha morado. Ia parecer que estava andando pra trás. Toquei em Austin algumas vezes, e o povo lá é muito legal. Eu também queria viver em um lugar mais quente, e lá é bem barato pra morar, dá pra ter uma casa com uma garagem onde eu posso estacionar meu carro. Eu queria me mudar e aquele era o lugar pra ter tudo isso”, afirma. Se é lacônico e dá pouca chance de discutir suas motivações nas música, o desejo de Bill Calahan de sempre colocar a conversa no plano mais concreto possível (onde morar, que instrumento usar etc.) nos mostra o quanto sua música trata diretamente da sua vida e do que ela tem para oferecer aos ouvintes.

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