Count Zero

Cyberpunk, Punk Rock e Underground Carioca Em 3 Resenhas

Três resenhas do final de 2008, escritas originalmente para a revista +Soma 10, elencando algumas das minhas eternas obsessões. E vamos mais uma vez retomando este blog, aos trancos e barrancos.

Caras Dessa Idade Já Não Leem Manuais . Leonardo Panço . Tamborete Entertainment . 2008

Leonardo Panço é, desde a década de 1990, um dos mais notórios agitadores do underground carioca. O livro Caras Dessa Idade… passeia pelo mesmo caminho de seu primeiro livro, descrevendo de forma curiosa suas experiências pelo circuito de shows pra lá de do it yourself de squats (espaços ocupados) europeus. Esse tipo de relato de viagem punk, é razoavelmente consolidado no exterior e é um formato a ser melhor desenvolvido ainda por aqui. Panço compartilha experiências prosaicas, que, se tem por virtude não constituir contos morais, por outro lado não constituem fina crônica também. Os pontos mais altos são quando Panço se aventura em pequenos contos como “Família Soprando” (quase uma pornochanchada), “Sono dos Justos”, dando indícios de um escritor que, aparentemente “violando” regras de boa escrita e culto à palavra, cria momentos memoráveis ficcionais. Seria o começo de uma literatura punk rock tardia?

 

Count Zero . William Gibson . Editora Aleph . 2008

Count Zero foi publicado em 1986, e tirando o desgaste provocado pela trilogia cinematográfica Matrix (que popularizou e barateou a essência da trilogia de Gibson), o livro é atualíssimo. Segundo romance da Trilogia do Sprawl (palavra que descreve o crescimento desordenado da malha urbana), iniciada com Neuromancer, são estes o livros que dão corpo e forma ao conceito “cyberpunk“.
A trama do livro apresenta personagens que, de uma forma ou de outra, tem problemas a serem resolvidos ligados à Matrix. Um mercenário responsável por proteger e “extrair altos executivos de uma multinacional acaba por se envolver com uma psicóloga – na verdade, uma psicóloga contratado por seus empregadores para guiar sua recuperação mental de um trauma recente. Marly Krushkhova, ex-galerista de arte, se encontra virtualmente com um magnata triliardário que a contrata para localizar uma obra de arte – o que, como é de se esperar, esconde maiores ambições. O jovem hacker Bobby, o “Count Zero”, que sobrevive ao ataque de uma inteligência artificial, depois de testar um programa feito para furar o “firewall” das grandes empresas e suas IAs domésticas, desperta a atenção de “pais-de-santo cibernéticos”, emigrantes jamaicanos metidos no Sprawl.

Essa rede de tramas e personagens se entrelaçam de forma a proporcionar situações de traições e reviravoltas, ataques de ninjas, brigas de gangues e tiroteios, sobrando espaço para questionamentos sobre vida e morte. Em suma, apresenta recursos que se tornariam padrão em animês japoneses, HQs e qualquer outro produto cultural que exale atmosfera cyberpunk. Por isso Count Zero é uma daquelas obras incontornáveis, assim como os dois outros livros da trilogia Sprawl.

 

Velho de Câncer. s/t . Café & Raiva  (e outros selos) . 2008

Exatamente há catorze anos atrás, saía o último grande álbum de hardcore/punk do país: Gaiola, dos capixabas Mukeka di Rato. Ali, andava intacto a fúria e urgência do punk e uma insuspeita vontade de amealhar elementos distintos dessa estética, como a música rápida e simples do punk finlandês, reggaes primários, guitarras emulando sofisticação a la Fugazi, e letras simples, inteligentes e corrosivas. O que convencionou-se chamar em tempo real de radicó tosco capixaba. Música de inclinação popular mas nunca populista – o que é de se esperar de qualquer grupo bom que queira se destacar no gênero. O Velho de Câncer [posteriormente até seu fim, apenas “Velho”] adentrou na mesma seara e bota novamente o hardcore na ordem do dia. O CD do grupo, com uma arte muito bem cuidada, agressiva e nonsense, saiu no fim de 2008 e pode ser elevado a um dos grandes lançamentos nacionais de 2009. O que faz do grupo um acontecimento tão especial? A música, virulenta (um bom adjetivo para uma banda com fixação pelo lado “doentio” da vida) do trio gaúcho, fixa um rock sujo e direto, com aquela melodia “estragada” de grupos como Husker Dü e Wipers, com letras paradoxalmente agudas e violentas, ingênuas e poéticas, criando ficção tão pesada e pessimista que ultrapassa todos os grupos que buscam emular a raiva e desesperança de um Black Flag. Tudo soa real e possível saindo da voz suja do guitarrista/vocalista. “Sabe como é olhar no espelho / E sentir o ranço de ser ser humano / Você sabe como é, se não sabe é porque / Tu tem grana / Não sabe sobre a raiva espiritual”. Se raiva realmente é uma dádiva, o trabalho do Velho de Câncer é mantra – só que não.