Cronicas-da-Cidade-Cinza

Ogi, Cronista da Cidade Cinza + Contrafluxo + Leituras

Capa do disco de Ogi, feito pelos OSGEMEOS, só isso...

Versão mais elaborada de resenha inicialmente publicada na +Soma em 2011. Curto e grosso: Crônicas da Cidade Cinza é um dos 3 álbuns de rap de 2011 – pra não ser mais superlativo e dizer que é o melhor álbum. Trabalho meticuloso e bem amarrado, dá um giro na maior metrópole da América Latina com destreza e sagacidade, apoiando-se em um registro quase literário. Falando em literatura, durante a última Celebrai do ano passado, em SP, Ogi foi uma das estrelas da noite e pude reencontrá-lo. Como estava de mudança, tava me livrando de alguns livros e discos pra aliviar a carga, e achei algumas edições duplicadas do Plínio Marcos, João Antonio e John Fante na minha biblioteca. Joguei na mão da fera e de sua namorada. Foi legal sentir a felicidade do casal com o regalo. Há vida letrada no rap nacional, pode apostar!😉

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Sem onda de criar algo bastardo entre samba e rap, lugar já bem delineado por um Rappin Hood e um Marcelo D2, não seria exagero dizer que Ogi incorporou a dicção característica de um sambista. Ora Germano Mathias ora partideiro cioso de cada sentença proferida, o MC jogou, em Crônicas da Cidade Cinza, uma partida que poderia resultar em caricatura na mão de sujeito-homem menos habilidoso.

Curtir, perambular e lutar na cidade cinza de Ogi são quase sinônimos – mas encontram uma escala decrescente de interesse em sua escrita. Essa esquematização tem pouca relação com a música em si, mas justificam em boa medida a afirmação do primeiro parágrafo. É nos vãos dessa luta permanente, que dá cores fortes de paranoia (e premonições), curtição notívaga, dilemas pedestres como a procura por trabalho no centro de São Paulo e muito mais, embalado num cronismo simples e articulada, fazendo coro tanto a um Nei Lopes quanto a um Bezerra da Silva, caminhando a meio palmo de esbarrar na lírica forte e intransponível de um Mano Brown, uma sombra onipresente no disco. Tomando como parâmetro Sabotage, Ogi passou rente à sombra desse monolito que é o Brown para o rap posterior a ele, gingando, respeitoso, na maciota, carregando essa bagagem do samba consigo; Sabotage caiu pra dentro e ao invés da ginga, é como se num golpe de sagacidade e atrevimento, tentasse passar por baixo das pernas de Brown, num lance desconcertante – o resultado fica no campo do sonho, das possibilidades…

A malandragem sem afetação de seus versos gingados e cheios de esmero, recheados de imagens prosaicas e insinuantes dada a construção formal, lembram vultos literários como Plínio Marcos (a narração que abre e fecham o disco são dele) ou um João Antonio. Esse é o outro dado bem explorado em seu rap, completamente novo neste sentido: contemplar certa urbanidade paulistana concretizada na literatura. Claro, faixas como “Pronto Pra Guerra” e “Zé Medalha” são puro videogame e isso o coloca com os dois pés em nosso tempo, numa operaçào que poderia ser um despropósito, um erro que minaria as potencialidades do álbum como um todo, mas soaram como mais uma jogada malandra do MC. Aliás, o destemor ao se fazer uso dessa linguagem “menor”, o torna um MC ímpar, fazendo que sua escrita cheia de destreza enfrente esse desafio numa maior, lembrando um Kool Keith que faz uso de expedientes que na mão da maioria dos mortais soaria ridículo. A levada sinuosa de sua levada breaca é perfeita para o frenesi de contador de causos que se deixa levar pela temperatura do que narra. Sempre respeitei quem transforma esse estado tão característico do pileque em arte graúda. Ogi tem pulsoi e consciência suficientes para amalgamar tanto o distanciamento quanto à participação do que se passa na sarjeta bem conhecida por muitos de nós.

O erro do álbum pra mim se encontra no título: é gasta a metáfora do “cinza”, comumente atribuída ao falar de São Paulo. Me parece pouca coisa pra tratar de matéria tão vasta; floresta de concreto e aço ainda me parecem a expressão mais ajustada ao tópico. O álbum também carrega uma certa irregularidade dada a sua extensão e às várias màos ocupadas na produção. Paradoxalmente, é essa irregularidade que tornam ainda mais evidente o labor de Ogi: o disco se impõe na medida que o MC constrói fábulas sagazes e versos verossímeis para explicitar o que é viver nessa cidade “monstro gigante”. Curioso como pontua o trabalho com samples de Mano Brown (por isso a citação lá em cima), que funciona como uma espécie de voz da consciência no álbum/artista. Curioso porque Ogi preenche plenamente um dos poucos vácuos possíveis deixados pela maior voz do rap nacional ao narrar/explicar a experiência de homens fortes em tempos sombrios. Seja o tempo ruim de nascer do lado mais desfavorecido da sociedade em um caso, seja o tempo sombrio da própria consciência e da insônia que fazem Ogi fabular sobre o mundo notívago. Essa poesia áspera e urgente dão aquela falsa impressão que não resta brechas possíveis para expansão vocabular e de imaginário para São Paulo. Impressão pobre deste resenhista fascinado com o trabalho surpreendente deste MC.

Baixe Crônicas da Cidade Cinza aqui.

Abaixo, Ogi em momento inspirado ao lado da Nathy MC e com o Stereodubs, com a faixa “Talarico” que estará em seu álbum feito com os produtores cariocas.

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O Ogi é gênio, ponto”

Complementando, conversei rapidinho durante a madrugada com o MC e beatmaker Munhoz, um dos elos do grupo Contrafluxo, formação da qual o Ogi faz parte. O grupo prepara sua volta para este ano, após um ambicioso álbum duplo, Superação, faz alguns anos. Curte aí!

Conta mais desse disco do Contrafluxo. Qual é a pilha?

Munhoz . A gente tá no processo, é cedo pra falar, mas logo menos a gente solta umas infos. Tem o disco do Mascote pra colocar na rua, desmembramos o disco em três EPs, e o Ogi tá preparando o Jamés [Ventura]. Fora todos os corres que o Ogi faz. Mas a gente tá com o disco meio desenhado na cabeça, acho que mais um mês ele tá mais definido. E o Ogi tá fazendo um disco com o Stereodubs e um com o DJ Nuts.

E essa pilha de fazer umas letras mais politizadas? Tá rolando mesmo?

Então, o título provisório do disco é Contrastes e é um disco sobre a cidade de São Paulo, basicamente

Mas o do Ogi já era isso né?

Sim, mas o Ogi é uma voz, tem um lance de ser mais histórias, a gente vai passar por tópicos que não tem no Crônicas. A gente tá ainda amadurecendo um modo de abordar as coisas que a gente quer sem tornar o disco algo muito chato, panfletário ou cínico.

O Ogi fez um lance brilhante, usando samples do Brown como uma voz da consciência. Foi um modo de contemplar a visão do maior cronista do rap paulista e demarcar a área de atuação dele. Até aparecer o próximo MC zica, fica parecendo que nessa seara FUDEU, num tem muito o que fazer…

O Ogi é gênio, ponto. Não tem muito o que discutir, o resto do grupo que corra atrás. O nosso disco não é de crônica. Crônica o Ogi faz, o Brown faz. Dinâmica de grupo é sempre diferente. O pouco que já tem do disco, ele começa meio irônico, vai mudando de tom, fica mais sombrio. Você escreve, sabe melhor que ninguém que as maneiras de se abordar uma questão são inúmeras. O meu papel e do Ogi é fazer esse disco tomar forma. Eu fico instigando, questionando e bora nóis, nunca é fácil.

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LEITURAS . Li em duas tardes o Praia de Ipanema, de Théo-Filho, da coleção Babel. Publicado em 1927, o romance cria um bairro de Ipanema ainda não existente, que só se tornaria realidade na década de 1960. Além desse ponto de interesse, a história guarda certo brilhantismo ao tratar de tipos cariocas. Vale a leitura, sobretudo aos apaixonados pela Cidade Maravilhosa. Aqui Bruno Ragaz Anarquista – Théo Filho, PDF de outra obra do autor, romance de naturalismo ingênuo, Bruno Ragaz, Anarchista, também da década de 1920.