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Guizado e a Imensa Solidão Cinza

Foto de divulgação, álbum Punx, 2008.

Matéria saiu na +Soma 8, pegando bem o início do micro-estouro do Guilherme “Guizado”, que iniciou-se com o lançamento do disco Punk. Essa matéria foi feita antes de um show no Studio SP, um clima relax, de amigos mesmo, filmada pelo Luciano Valério, que era parceiro na +Soma e hoje é capo da Desmonta Discos, meu selo brasa predileto. O vídeo está logo aí embaixo. Depois teve ainda o álbum Calavera, o Guizado andou se apresentando como DJ também – vi uma na VoodooHop onde meu truta Psilosamples chapou grande no som -, e continua “cornetando” por aí com músicos mil. Se você acompanha música vinda de SP, já escutou alguma gravação onde contasse com o trumpete do Guizado. Curte aí!

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Guilherme Mendonça, 36, conhecido na música como Guizado, é antes de tudo, um cara muito bem relacionado. Punx, seu álbum de estréia muito bem recebido pela crítica, contou com participações de Maurício Takara (Hurtmold, M Takara 3, SP Underground, Trio Esmeril), Maurício Alves (Mestre Ambrósio), Régis Damasceno e Ryan Batista (ambos do Cidadão Instigado).

Com Régis e Ryan, além do ótimo Curumin na bateria, Guilherme tem se apresentado por todo o Brasil e vem conquistando um público pouco familiarizado ao som cíclico e dissonante do músico paulistano.

O álbum, lançado pelos selos Diginóis e Urban Jungle, é o primeiro do trompetista sob a alcunha Guizado e foi um verdadeiro desafio. “Eu fiz a produção inteira, com auxílio nos arranjos do pessoal da banda. Mas a concepção e a pré-produção foi toda minha. Foi um lance punk mesmo, bem faça-você-mesmo.”

Onde você gravou o disco?

A gente gravou no Estúdio Rocha (estúdio tradicional no bairro de Pinheiros, em São Paulo). Gravamos, masterizamos e mixamos lá em duas semanas. É um dos poucos estúdios de São Paulo feito para banda, porque agora tem muito estúdio feito para gravar publicidade. Lá se tem a opção de gravar em rolo e foi o que fizemos, em 24 canais. Mixamos numa mesa analógica e ainda usamos outros equipamentos eletrônicos, efeitos, um delay de fita alemão… O estúdio fez toda a diferença para o disco porque deu aquele “toque da casa”, que influenciou na sonoridade final.

Como que os músicos que tocam com você influenciam nas composições? Você já chega com todos os instrumentos arranjados, bem formatados?

Não. Só agora estou experimentando chegar com as idéias mais bem acabadas. No caso do Punx, eu chegava só com uma imagem e o esqueleto. Nos ensaios o pessoal vinha com idéias e eu adequava a estrutura geral em função dessas idéias. A sonoridade, o beat, as melodias, os climas, tudo isso já estava pré-estabelecido. Mas nos ensaios a coisa muitas vezes virava algo que não era o que tinha imaginado em casa.

De onde você tirou o nome do disco, Punx?

Tem a ver com a filosofia do punk mesmo. Porque, quando comecei a fazer o disco, me vi na situação de ter que bancar tudo, correr atrás de capa, de gravação, ter que organizar um milhão de coisas. Por outro lado, tem essa coisa do punk com “x”, que seria uma coisa mais “experience”, do Jimi Hendrix Experience, mais lisérgico, viajandão. Não tem a ver com aquela coisa mais dura do punk com “k”. É um lance mais da paz mesmo.

Com as lendas Ray Barbee e Chuck Treece, no finado espaço da +Soma. Foto de Áttila Choppa

Se o Guizado tivesse letras, sobre o que elas falariam?

Esse é um desafio que tenho me colocado. Tenho duas músicas novas com letras, fico horas buscando versos e tem tanta coisa pra se falar… Isso abre um leque muito amplo de possibilidades para comunicar algo, contar uma história, é um caminho que estou buscando. Escrevi a letra de uma música agora que fala sobre coisas misteriosas, rola uma brincadeira com o som das palavras, esse jogo entre o significado e a sonoridade, um lance meio labiríntico. Tem sido algo mais para esse lado.

Você trabalhou muito como músico contratado por outros artistas. Quando você decidiu fazer um trabalho autoral?

Acho que foi quando passei a morar sozinho. Tive mais calma, pude pensar mais. E coincidiu que foi quando comecei a tocar com artistas mais autorais, como o Dona Zica – que foi um grupo que me influenciou muito –, o Curumin, o Maurício Takara, o Fernando Catatau e o Cidadão Instigado, o pessoal da Nação Zumbi… todos eles me influenciaram. Foi trabalhando com esse pessoal que comecei a pensar em fazer algo meu, fiquei instigado. Ao conhecer essas pessoas e muitas vezes trabalhar com elas criei confiança, porque eu tinha algo a dizer também. E foi aí que resolvi misturar todas as influências que acumulei.

Dentre outros, Guilherme Mendonça já havia apresentado o seu trompete acompanhando artistas como Curumin, Dona Zica, Lucas Santanna e ainda se apresenta paralelamente com o Trio Esmeril, com o qual realizou uma temporada em São Paulo tocando versões para Os Afro-Sambas de Baden Powell e Vinícius de Moraes. E, como é possível atestar, apesar da influência “moral” do punk em seu trabalho, o trompetista quebra certa idéia associada comumente ao punk: a noção de pouco conhecimento musical e domínio frágil de seu instrumento.

Sempre fui muito curioso.” Com essa frase, o músico tenta explicar o fato de se interessar por diversos estilos musicais e sua passagem por vários instrumentos: “Comecei na bateria, fui para a guitarra e depois cheguei ao trompete.” Mas, acima de tudo, mostra como toda essa curiosidade, aliada ao apoio familiar, fez com que o músico se empenhasse nos estudos musicais.

Eu queria saber o seu histórico familiar. Havia outros músicos na família?

Cara, em casa sempre teve muitos discos. Meu pai sempre gostou de música e tinha muita coisa bacana, vários discos do Caetano Veloso, do Chico Buarque, do Tom Jobim, coisas de jazz. Logo que ganhei uma guitarra do meu pai, ele me deu o Eletric Ladyland do Jimi Hendrix e falou: “Olha, esse é o melhor guitarrista que existe, escuta bastante que ele vai te ensinar muita coisa”. Tenho um primo talentosíssimo que tocava guitarra. Sempre tive a presença da música, dessa coisa de brincar com instrumentos. Tive apoio para explorar esse lado musical. Na adolescência fiquei sócio de um sebo chamado Sebo de Elite, que era parecido com a internet de hoje em dia. Você podia alugar discos lá, e assim eu ficava em casa escutando discos o dia todo. Dava pra escutar na própria loja também.

E nessa época o que você escutava?

Eu ia na Pop’s [famosa loja de CDs em São Paulo] e comprava muito Van Halen, Beatles, Rolling Stones, AC/DC, era meio essa praia que eu curtia na época. Mas, depois que fiquei sócio do sebo, abriu na minha cabeça toda uma avenida. Muito jazz, Miles Davis, Dizzy Gillespie, muito Frank Zappa também…

Teve alguém que te influenciou nessa passagem?

Uma das coisas que me levaram para o jazz foi um livro que eu li, o On The Road do Jack Kerouac. Eu pirava lendo ele falar de bebop e alguma coisa me puxou para esse lado. Comecei a fuçar na parte de jazz do sebo, a pegar os discos dessa galera do bebop, do Charlie Parker. E tinha minha curiosidade também, fui atrás de coisas como The Animals, The Jam, Kinks. Sempre fui muito curioso.

E, desse ambiente familiar, só você foi para a música?

Não, meu irmão seguiu para outro lado. Ele virou produtor de rap, mas sem uma educação musical mais formal, nunca estudou nenhum instrumento. Ele mexe muito com MPC e atualmente toca com o grupo de rap SP Funk. Ele pegou a coisa mais das ruas, e eu fui para o lado da reclusão, de estudar. Rolou um pouco de conflito, cada um querendo demarcar seu território, cada um querendo impor sua verdade. Eu falava que ele tinha que estudar música, e ele me falava para sair mais para a rua, fazer contatos, conhecer pessoas. Na verdade, os dois tinham razão e hoje equilibramos as coisas.

E você gosta de rap?

Gosto muito. Na época em que ele foi para o hip hop, eu também ouvia muito esse som. Foi um tempo nos anos 90 que tinha De La Soul, A Tribe Called Quest, uma época mais aberta, mais musical até. Gostava de Run DMC também. Hoje em dia tá surgindo uma galera com essa musicalidade.

E foi em função de escutar jazz nessa época que você chegou ao trompete.

Foi. Paralelo à descoberta do On The Road, teve um amigo também que foi fundamental. Ele tinha um saxofone e depois do colégio ia para minha casa escutar uns discos. O avô dele tinha um trompete encostado. Daí pensamos: “Vamos fazer um naipe de sopro”. A gente colocava umas coisas de blues, do Dizzie, e ficávamos tentando tocar em cima. Blues tem uma escala que quase sempre cobre toda a música. E eu nem sabia como achar as notas ainda, ia na tentativa e erro. Era muito legal, um lance que rolava a tarde inteira, todo dia.

E depois você foi estudar música para valer?

Sim, fui para uma escola chamada Groove, em uma época maravilhosa. Porque você tá ali na adolescência, não sabe direito o que quer da vida… e o pessoal da escola falava: “Olha, se você quiser ser músico, pode vir pra cá todo dia porque você vai fazer parte de um programa de estudos junto com umas seis pessoas que ficam aqui o dia todo estudando”. E rolava todo tipo de estudo, a gente ficava até a escola fechar. O dono do lugar era meu vizinho e sempre dava altos toques, dizia o que eu precisava melhorar, me indicava coisas pra escutar. Era uma convivência de aprendizado diária.

Nas resenhas sobre seu disco percebo certa indecisão sobre o estilo de música que você toca, porque há elementos de eletrônica, jazz e rock. Na verdade, você pensa sua música de uma maneira rock, não?

É, você tá certo. Eu meio que virei as costas para um monte de coisa na adolescência… achava que jazz era o estilo superior mesmo. Foi bom porque aprendi um pouco do vocabulário do jazz. Mas nunca me vi como um jazzman, sabe? Mesmo naquela época. Nunca quis ser daquele rolê, de tocar de terno. Você tem que ser honesto e autêntico, saca? Você só é feliz no que faz quando acha autenticidade. É bom buscar coisas no passado, ter uma bagagem legal, para se ter uma ajuda criativa. Me emociono com várias coisas do pop, andei de skate, ouvi muito rock ainda bem novo… e achei um jeito de fazer tudo isso conviver dentro de mim de forma pacífica. Fiz todas essas coisas se entenderem, terem uma lógica, e a partir daí comecei a me encontrar de verdade. Foi quando deixei de ser estudante de música, um ouvinte que imitava o fraseado de trompete dos discos, para ser músico de verdade, com uma linguagem minha.

E teve algo na música pop que usava trompete e te chamava a atenção na adolescência?

Tinha algumas coisas. Lembro do Erik Truffaz que me fez muito a cabeça, porque usava bastante distorção. O próprio Miles, no On The Corner estava buscando essa coisa – ele tava ouvindo Jimi Hendrix, James Brown, Sly & The Family Stone. Miles foi um cara que mostrava uma saída pra mim.

Muitos falam que sua música se nutre muito da cidade de São Paulo, um lugar notoriamente tenso, carregado. O quanto disso é verdadeiro no seu trabalho?

São Paulo pode ser vista de várias formas. Tem um lado caótico que se reflete um pouco na minha música, mas a cidade também traz um sentimento de abandono, de solidão, que, apesar da cacofonia forte, tem uns momentos introspectivos, melódicos, uns riffs mais coloridos de guitarra. São Paulo tem a coisa do caos, do free jazz, mas também tem o lance do sujeito que quer ficar bem dentro de uma imensa solidão cinza, apesar de estar sempre rodeado de gente. Não penso que estamos condenados somente ao caos de uma metrópole pouco planejada. Realmente existe esse lado. Mas tem o lado colorido, das relações com as pessoas, que traz alegria e esperança, não é só o deserto de concreto. Por isso que a capa que o MZK fez tem várias pessoas, eu falei para ele: “Cara, tenta fazer uma cena de esquina, um boteco, com vários personagens”. É isso que faz a vida da cidade respirar, porque aqui não temos um horizonte azul, flores, colinas e matas… A cidade respira é por meio dessas relações humanas.

E o que anda fazendo sua cabeça atualmente? O que deixa sua vida mais colorida nessa imensidão cinza?

Muita coisa. As descobertas musicais e as coisas antigas, como os Beatles do álbum branco, do Sgt. Pepper, do Abbey Road… são coisas que escuto quando quero ter esperança, sentir coisas boas. Além dos clássicos, tenho escutado muito Stereolab, Broadcast, produtores como o Prefuse 73, gosto de Joy Division…

Você gosta de música rica de texturas e ambientações. Acho que essa é a grande particularidade do seu trabalho, a forma como você cria texturas por meio do trompete…

É, pra caramba. Eu tento levar o trompete para outro lugar, para outro contexto, dar outra função. Não só fazer aquela coisa tradicional de uma melodia bela. Eu piro em grupos como o Stereolab e o Broadcast, em como eles colocam o baixo na frente da música e dão uma cara diferente, em como usam os sintetizadores etc.

E daqui para a frente, o que você espera?

Me desenvolver mais. Tô amadurecendo no lance de composição, em estruturar as canções. Agora é pensar nas letras, não como um cancionista, mas de outra forma, para poder me comunicar melhor, captar a atenção de quem está ouvindo. E com certeza no ano que vem tem outro disco, tenho já umas cinco músicas novas e elas estão com uma cara diferente. O sonho de ser músico partiu do desejo de ter algo autoral, desde sempre. Mas foi bom ter tocado com todo mundo, passar por esse processo e agora estou batalhando para manter essa posição de ter um trabalho solo. Até aqui estou satisfeito… mais do que eu esperava! (risos)

Capa do artista MZK para o álbum Punx, de 2008