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Bruno Kurru e Renan Cruz – Brigando com Desenhos

Obra de Bruno Kurru

Obra de Renan Cruz

[publicado na +Soma #9]

Essa matéria foi fruto de entrevista concedida para mim e o Tiago Moraes, capo da +Soma e da Kultur. Dias após a entrevista, nasceu o Martim, filho do Tiago. Legal ter essa marcação temporal tão bacana em mente! A matéria final é responsabilidade minha e a revisão – aqui um pouco enxugadinha, do Mateus Potumati que hoje, é o editor da versão física da +Soma. As fotos que saíram na revista foram realizadas pelo Fernando Martins. Dois jovens e promissores talentos, muito legal realizar essa pauta. A última vez que encontrei com o Renan Cruz foi na porta da Choque Cultural, pouco antes de mudar para o rio, durante uma feira de fanzines. O papo sempre flui com ele, jovem, irrequieto, tem muita bala pra gastar nesse mundão – assim como o Kurru. A matéria fala por si só. Desfrutem!

Antes da popularização da internet, para se ver graffitis e outras manifestações de arte de rua não restava outra opção que dar umas bandas pelas ruas. Pela janela de um ônibus ou trem, andando de skate pelas ruas, aqueles enormes desenhos e letras coloridas destoavam do concreto cinza da cidade e fascinavam como símbolos de uma civilização subterrânea que dava o ar de sua graça. Hoje, sobretudo em SP, esse repertório foi incorporado e assimilado em diferentes âmbitos pela cena cultural, perdendo inclusive a virulência própria de algo que um dia foi exceção muito distante da regra. Se antes a arte feita na rua era apreciada por um número restrito de pessoas – quase um ritual secreto compartilhado por amantes -, agora ela poderia ser vista por pessoas no mundo inteiro.

Obra de Bruno Kurru

Na transição entre sua história moderna e a “contemporânea”, brotaram artistas como Bruno Kurru e Renan Cruz. O destino se incumbiu do encontro fortuito. “Lembro que queria fazer uns pôsteres e em São Bernardo ainda não tinha ninguém que fazia essas coisas. Eu tinha visto algumas coisas do Obey na internet e na sequência comecei a descobrir outras coisas. Um dia entrei no fotolog do [coletivo de arte] SHN e vi que ali tinha um movimento rolando. Na época tinha rolado algum evento em que o Stephan Doitschinoff, o SHN e o próprio Renan tinham participado. Foi quando decidi mandar um e-mail no mesmo dia para os três, perguntando mais ou menos as mesmas coisas. E lembro que o Renan, já no primeiro contato, foi o mais receptivo, e a conversa evoluiu para outras idéias”, conta Kurru. “Quando eu vinha lá de Mogi das Cruzes, ou com o meu pai de carro ou de trem, e via aquele monte de pichação, arte d’OSGEMEOS, Onesto… pensava: ‘Caramba, o que tá acontecendo aqui?’”, relembra Renan sobre seus primeiros contatos com o graffiti e a pichação.

Durante alguns meses, Kurru e Renan mantiveram sua amizade no campo virtual até que logo surgiu a primeira chance de finalmente se conhecerem e pintarem juntos. A amizade e o convívio cresceram, mesmo com a distância geográfica que os separava, um em São Bernardo do Campo e o outro em Mogi das Cruzes, ambas cidades da grande São Paulo. Renan teoriza: “Acho que o que rolou foi que a gente cresceu em lugares diferentes, mas com influências e questões próximas, e juntou com o desenho. Quando a gente se encontrou, estávamos preparados pra poder trabalhar outras paradas”.


Quando Kurru começou a trabalhar na criação para uma marca de streetwear e, na seqüência, Renan passou a ser seu colega de trabalho, a relação dos dois se intensificou ainda mais e o convívio passou a ser diário. Renan conta um pouco sobre a época: “Foi aí que a gente se juntou mesmo. Nessa época trabalhava lá eu, o Cabelo, o Kurru e o Doze. A gente fazia uns fanzines, ficava um puxando o outro para fazer trabalhos juntos, desenhar mais, conversar um pouco mais sobre desenho”.

Curioso que o elo principal entre os dois se dê na forma como pensam e sentem o desenho, conferindo a ele uma dimensão tida como “espiritual”, em que colocar o lápis ou pincel no papel se torna um ritual sagrado, de encanto. “Estou em um momento de tentar organizar minha produção, de decidir se eu quero direcioná-la para uma estética mais fechada, que seja uma coisa que eu vá carregar, ou se é o caso de abrir, criar sistemas pelos quais eu possa falar algumas coisas, pelos quais possa, mais do que falar, receber o desenho. Essa é uma coisa de que a gente conversa bastante, esse ‘poder’ que o desenho tem, quando você o respeita e vai o levando de maneira constante na sua vida. Muitas vezes ele te surpreende nesse sentido, ele apresenta pra você algumas coisas. Dificilmente a gente faz um desenho em um dia. É um negócio que você começa, dá uma parada, porque tem a coisa estética, você quer que aquilo faça parte de você, que você goste daquilo. Nesse processo, na maioria dos casos, eu fico uma semana angustiado, porque na hora em que volto pro desenho já é uma outra situação. É um negócio louco, mas acontece muito”, diz Kurru. Renan complementa: “São aquelas coisas que não podem ser ditas, né? São manifestações que falam como se fossem uma coisa que não é sua, o desenho cria vida e fala: ‘Olha, toma cuidado com essa situação’ ou ‘Presta atenção nisso’”. Ambos, nas palavras de Kurru, tem “vontade de enxergar o desenho como algo maior, conseguir enxergar o desenho com essa riqueza de vida que ele tem”.

Capa de Transesó, álbum do Hierofante Púrpura, por Renan Cruz


A Expressão Plena do Desenho

Uma característica forte no trabalho deles é a pesquisa e o estudo. Kurru fez faculdade de Design e Renan estudou Design Publicitário. Ambos estudaram gravura e há mais de dois anos frequentam as aulas de desenho do artista plástico Rubens Matuck, um personagem importante para entender a evolução de ambos. “Ele concretizou a nossa visão. Eu estudo já faz uns três anos com ele, que é pintor, artista, estudioso, cabeçudão, cientista das artes visuais. Ele leva a questão do desenho muito forte na vida dele. Com ele a gente aprendeu muito a valorizar o desenho. A gente vai tentando ver no desenho uma frequência de vida, de encontrar pessoas, valorizar as coisas que o desenho aproxima. Eu tenho muita vontade de que o desenho se socialize. Não ter esse poder tão grande de obra de arte, do tipo ‘isso não pode ser tocado’. Não: que seja uma parada que eu aprenda com uma criança”, define Renan.

Kurru se entusiasma e fala sobre a forma como o mestre de ambos enxerga o desenho. “Ele usa o termo ‘expressão plena’. De usar o desenho completamente, uma aversão absoluta ao esquema de mercado de arte, desse esquema de pensamento de arte com marchand embutido, que é o lance que vem da Europa etc. Ele é a favor do desenho em sua essência, e não preso à estética, nem ao que se vai desenhar. Para ele, a única maneira de você conseguir a expressão plena é com o desenho de observação, que é ter essa percepção, entender o espaço. Esses nossos desenhos que vocês conhecem… ele quase não conhece nenhum. A gente mostrou para ele pouquíssimas vezes. E a gente não leva mais como uma forma de respeito mesmo.” Kurru nos explica que “esse tipo de desenho nosso é um negócio muito curto, não chega nele. Muito diferente de eu levar algo desenhado agora, feito rapidamente. Ele vai ver e vai falar que tem um diálogo entre espaço, entre pensamento. Uma coisa que a aula tem me ajudado muito é entender o trabalho de arte. Por exemplo, um desenho, uma pintura. Ele passa muito essa coisa de às vezes a gente ficar preso ao tema. Percebo isso hoje em dia quando vou a uma exposição, independente do tema ou da estética do trabalho, tenho interesse na composição, na cor, é uma coisa que me aproxima, que cria diálogo, e é o que busco no meu trabalho. Não ficar só preso ao tema, não ficar só preso a uma forma estética. Enxergar a arte como um todo e conseguir dialogar em cima disso”.

A juventude de ambos reflete no permanente questionamento e na experimentação evidente em suas obras; encaram arte como uma estrada cheia de bifurcações, com diversas trilhas a serem seguidas. O espírito contestador faz com que ambos tenham, obviamente, uma posição paradoxal e considerações a fazer a respeito do mercado de arte. Kurru acredita que se pautar pelo mercado “leva à estagnação, porque o próprio mercado, como todos os outros mercados, tem um tempo de vida útil, ele usa você e o descarta. Se você não tiver uma produção firme, se o seu trabalho não for forte dentro de você e você deixar que o mercado ou outras pessoas te guiem, daqui a cinco, dez anos, o mercado vai procurar outro artista e o seu trabalho vai pro fosso junto com outros, e você vai ficar vazio. Minha busca é essa: me estruturar e conseguir me manter equilibrado dentro disso. O que ainda é muito difícil”.

Renan, por sua vez, acredita em um estilo de vida ascético, que pode tornar a inevitável relação com o mercado menos dolorosa. “A gente precisa saber do que precisa e viver de forma bem simples. Eu preciso de papel, caneta, alimentação, umas coisas assim. Penso em um dia viver num quarto, só papel, caneta, prancheta e um colchão. Eu trabalhei em um esquema diferente e o que eu vi era isso: se você ganha mil, vai mil. Se você ganha 2 mil, vai 2 mil. Você tem que se estruturar para dizer: ‘Eu tenho que viver com isso’. Tenho estudado permacultura, que é uma filosofia que resgata técnicas de vida sustentável. Pensar é a primeira das etapas. Você incorpora para depois aplicar. Eu não preciso ganhar muita grana e quero achar formas sustentáveis e simples de fazer um ambiente propício ao desenho. É o próprio modo como você mesmo lida com o seu trabalho. O externo é uma desculpa, você pode reclamar dele ou não. Mas é você que lida com ele. Você é quem fala: ‘Eu quero isso? Eu aceito?’ Não quero apresentar só uma forma física, mas também uma forma de energia, de sentimento. Uma pessoa pode falar: ‘Ah, eu quero dez quadros’. Tudo bem, vamos lidar com isso. Mas prefiro sistemas que sejam mais simples. Eu não quero ver o desenho com uma supervalorização.”

Organizando o Caos

No fim de 2007, eles criaram a editora Ôrganiza (com acento mesmo), interessada no processo de experimentação e intersecção entre o design gráfico e a ilustração, em que a forma é um elemento dinâmico no processo de composição. Cada livro ou revista tem tiragem mínima de duas edições, com exceção dos “Livros dos Livros Objetos”, que são únicos. Em novembro deste ano [nota: no caso, 2008] mesmo ano, realizaram exposição na Sala Cega, da [extinta] loja Trezeta Musik, em São Paulo.
Kurru conta que o interesse por publicações começou quando trabalharam juntos em 2005 e realizavam experimentos com a máquina de xérox do trabalho. Passaram-se dois anos até que Marcelo Fusco, da Trezeta Musik, convidasse ambos para uma exposição em sua loja. “Naquela época estávamos com questionamentos sobre exposições, não curtíamos o que estávamos vendo. Era uma forma de dizer para a gente mesmo o que queríamos. O Fusco nos convidou, mas achamos que não era hora para exposição. Ficamos semanas batendo a cabeça. Um dia lá em casa rolou o papo: ‘Mano, que você acha de fazer uma editora?’”. E havia um interesse prévio de ambos pelo objeto livro – a família de Renan inclusive teve uma gráfica: “Eu sempre curti muito livro. Tem a questão artesanal de se fazer o livro, a coisa do registro”. Kurru, que havia feito um livro de artista como trabalho de conclusão na faculdade, explica que a editora era também “uma forma de desenhar de maneira mais livre, falar mais coisas. A nossa vontade era que a editora por si só fosse convidativa. Que as pessoas vissem que era um negócio amigável, que tivesse como uma das coisas principais essa coisa de deixar aberto para as pessoas”.

A exposição era mais do que um espaço expositivo – era uma extensão da vida. “A gente ficou lá dois meses, fizemos uma zona. Levamos prensa, guilhotina, papel, computador – era um espaço vivo. A exposição começou antes e rola até hoje em dia, ela tá viva”, filosofa Renan. E o nome peculiar, de onde surgiu? Kurru explica que “o nome veio de duas coisas: de organizar os desenhos e de organizar também as ideias que a gente tinha. De não fazer uma exposição. Pelo contrário: fazer uns caderninhos cheios de desenho, desglamourizar um pouco, e o acento a gente colocou como forma de dizer que a Ôrganiza não organiza no sentido de ordem, mas no de criar um instrumento que desse “órgão” para coisas que estavam mortas, desde material até ideias, desenhos. Havia desenhos nossos que estavam parados, eram originais, mas em folhas de sulfite, coisas que a gente nem queria comercializar, nem nada disso, mas que diziam alguma coisa.” [nota: esta mesma proposta foi repetida em 2010 com a mega exposição Transfer, no Pavilhão da Bienal, em São Paulo]


Um bom desenho é uma boa briga”

O próximo passo de Renan Cruz e Bruno Kurru é uma exposição a se realizar em junho de 2009 [nota: foi realizada no extinto espaço da própria revista +Soma, com o nome de Chaves e Portas], em uma nova galeria na cidade de São Paulo. Ao que tudo indica, a exposição dará sentido e razão de ser para a produção de ambos – ontem, hoje e amanhã.

Kurru explica que pensa em criar uma estrutura visual com a qual consiga expressar pensamentos e desejos. “Um trabalho que pode ser uma coisa aparentemente abstrata, com elementos soltos. Não quero ter uma marca, não quero que alguém fale: ‘Ah, aquilo ali foi o que o Kurru fez’. E eu já tava meio que negando isso. Por outro lado, vamos supor que eu ficasse desenhando o céu até morrer. Se eu levasse isso a sério, podia ser um trabalho cabuloso, porque tem uma poética muito forte nesse sentido da liberdade, do movimento, de uma coisa que nunca é igual e que é uma força por si só. O momento dessa exposição é isso: o início de tentar expandir para uma coisa mais ampla, uma coisa que não seja fechada, pode até ser um trabalho feio para os outros. Mas eu não me preocupo com isso.”

Obra de Bruno Kurru

Faz parte da visão de Renan crer em uma interação total entre artista e desenho e ver seu ofício como “uma desculpa para viver a vida, para conhecer pessoas, assim como pintar na rua é uma desculpa para andar por aí”. Renan acredita em um período de inflexão e crescimento: “Durante muito tempo, rolou um fluxo grande de produção, sem uma certa consciência, e hoje em dia sinto que tenho um pouco mais de controle. Penso no Aldemir Martins – ele foi premiado na Bienal de Veneza. É meio isso, uma meta: ser o campeão mundial de desenho (risos). Posso conseguir isso e ver que tudo não passou de uma cenoura na frente do coelho, só para fazer ele correr. Posso descobrir ao me tornar campeão mundial que vencer é desenhar todo dia a minha filha. É isso: eu quero ser campeão mundial de desenho. Um bom desenho é uma boa briga”.

Kurru acredita que, pelo desenho, é possível encontrar problemas a serem resolvidos por toda uma vida e isso o estimula a produzir. “Esse turbilhão que percebo hoje em dia é valioso. Eu tento ficar tranqüilo dentro dele, sentir o que tá acontecendo. Por isso eu acho que a gente não está muito apegado à estética, porque acaba limitando esse tipo de vivência, que é o que mais interessa para nós.”
Saiba mais sobre Renan Cruz aqui e aqui.