Livro graúdo

Nota Sobre Ricardo Lísias + Eterna Criança Do Mato

O escritor Ricardo Lísias é uma das minhas obsessões literárias dos últimos anos. O Livro dos Mandarins, pra mim, é um marco desse novo século que vivemos. Romance graúdo em volume e intenções, pouco condescendente com modas literárias e menos ainda com aquela arte bunda-mole e auto-celebratória e indulgente que se desenvolve e prospera em São Paulo – a tal geração “Mercearia São Pedro” (um amigo criou o termo “Poetas Torturados” pra designar essa claque, e um tumblr famoso da internet sintetizou melhor a coisa).

Primeiro que todos os 3 livros do Lísias que li, parecem profundamente arraigados num fazer literário preocupado com constituição de identidade, de reflexão sobre questões de um lugar específico. A saga um tanto cômica do executivo brasileiro Paulo em uma empresa que se expande rumo à China é uma verdadeira queda de braço com o leitor, no sentido que o força a “enfrentar” o livro. Seja você um apocalíptico ou um integrado que acredita no mito do self made man, as questões que são colocadas ali vão contemplando horizontes de ambições coletivas e os minando ou problematizando-os. E a virtude primeira da boa ficção – contar uma boa história – tão relegada por uma claque de escritores ególatras e vaidosos está ali. Sempre me lembro de Graciliano Ramos ou do cineasta Lars Von Trier em momentos específicos desta obra do escritor – mesmo que no cômputo geral se distancie de ambos. E com força!

“A cultura brasileira detesta o radicalismo. Pessoas simpáticas demais são falsas.”*

Talvez porque, como anotada nesta ótima matéria do Zé Kley na revista Vice em sua primeira frase, “Ricardo Lísias não gosta de quem se omite, de quem não diz nada“. É o anti autor paulistano por excelência, ainda que a dicção do escritor nesta entrevista (curta e emblemática) e seu rol de predileções temáticas não o furtem do odor da pauliceia.

Não cuidei de você direito, mas eu não sabia o que fazer”.

Não foi sem espanto, dito tudo isto, que li, na edição de fevereiro da revista piauí, o texto de Lísias onde trata de como o hábito de caminhar e correr o tiraram de uma depressão violenta e acabaram por levá-lo, não sem uma ponta tragicômica, a disputar uma São Silvestre. Tendo em vista seu outro texto publicado anteriormente na mesma revista, ficara a questão: caíra no canto de sirena de seus pares? O talento com a escrita está todo ali, e esse seu desavisado e desbragado “se expor” pro mundo me causou estranheza e, por fim, não sem corar o rosto, sentimento de cumplicidade. Já me expus da mesma forma que o autor e senti o tal peso de estar no mundo – e uma depressão profunda – tal qual o autor. E enfrentei me desafiando e com exercícios. E pílulas, porque sou covarde e hipocondríaco. O “beautiful frenzy” nos persegue e pra cair de joelhos é um, dois. Viver é desafio, versou um mano muito mais sabido, pedra 90 mesmo (nota de realidade: nem sou preto, pra mim só ser UMA vez melhor já tá de bom tamanho e eu quase sucumbi).

Meio da primeira década do século 21. tava em uma sinuca de bico, enfrentando um adversário que atacava tabelando com desilusão amorosa, fim de ilusões e perrengue financeiro macabro. A solução foi dar um passo pra trás e voltar correndo para o único lugar que traz de volta o que tenho de melhor: Pouso Alegre, sul de Minas Gerais, seu cotidiano canhestro que te agiganta a fórceps, a família que te apoia (e como apoiou!) e os amigos, daqueles que o Bituca foi acusado de ser cafona por carregar no peito.

“Meu mundo estava voltando a se organizar”.

Primeiro que passei a cuidar da saúde. Sentia o peso da pouca idade já me maltratando e eu com descaso total com essa carcaça frágil que chamam de máquina perfeita. Passei a aproveitar o dia e maneirar nas noitadas. E me descobri mudando de profissão. Saí da indústria de consciência e virei professor. E foi uma redescoberta e um sentimento muito bom poder alterar vidas que realmente me importavam de forma direta e menos cínica. E se é pra não ser cínico MESMO, vale lembrar que “trabalhar-com-o-que-realmente-importa” não enche barriga, e, depois de baterias recompostas, voltei pra floresta de concreta e aço pra matar uns leões brabos. E sujos. E sórdidos. Foi um período de chegar a trabalhar de manhã (acordando 5 da manhã), à tarde e a noite (chegando em casa muitas vezes onze quase encerrando a volta completa do ponteiro do relógio). A disciplina eu recuperei fazendo academia quase diariamente, nas brechas que sobravam dessa rotina maluca, e tentando ver um filme por dia em um segundo período desta jornada de sobrevivência, quando abrandei a rotina de trabalho e passei a interferir de alguma forma nos arranjos culturais locais. Foi nessa época que passei a convidar o pessoal pra ver filmes em casa e discutir, que conheci o Psilosamples e passei a fazer lobby dele na dita “cidade grande”. Boa essa época de aprender a lidar com chegadas e partidas, com traumas e esperança reacendida. Pessimismo da inteligência queimando tal qual os furúnculos do Nietszche e recobrei a vontade otimista que me faltava. Bonança (sempre curta) ou estiagem, encaro com um copo sempre meio cheio de algum líquido de esperança.

“O casamento não foi para sempre, como a gente tinha combinado (e eu acreditado), mas a minha próxima morte vai ser”.

* Todas as citações foram tiradas do artigo do lísias que acompanhou minha espreguiçada na areia dominical.

 

Vi aqui esse curso que o Lísias ministrou e acho que dá pra sentir o drama do nível de leituras que o fera encara pra resolver começar a escrever (a lápis, segundo o próprio).

Aqui pode-se comprar um livro tão bom quanto O Livro dos Mandarins mas mais indicado para os iniciantes. Uma amostra do mesmo livro está disponível, além de uma boa entrevista.

Legal também é esse texto sobre as consonâncias entre obra de Lísias e de André Sant’Anna. Vale a leitura. E AQUI o que realmente importa: caminho suave para comprar baratinho os livros do fera.

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Ao escrever esse texto, o líquido de esperança foi uma Heineken gelada (cerveja boa mas que provoca uma devastação na minha flora intestinal que nem é tão exuberante), pós uma estada na praia do Leme de sol tímido e cheio de moças bonitas.

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O livro da vez é Brooklin Sem Pai Nem Mãe, de Jonatham Lethem, autor apresentado pelo querido Lauro Mesquita, do paradão porém BOLADO Blog do Guaciara. Lethem tornou-se hit parade na minha vida e inspiração para projetos futuros.

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Não sou fã do Zizek em particular, mas essa argumentação dele usada neste vídeo é legal, e clicando no vídeo no iú tubiú, vale pesquisar nos videozinhos relacionados à direita na página.

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O som da vez, é o hit maroto do Emicida, um cara que hoje eu chamo de amigo e é cavaleiro zica da esperança.Viva pá noiz!