Quem ama é doente do pé!

Grindcore + Homenagem Tardia

Faz um tempinho, meu truta André Maleronka, editor da revista Vice – de resto a revista mais curtição do Brasil e 100% contra caretismo e os “boy no movimento”(ra!), encomendou uma matéria pra “mostrar por A + B, pela primeira vez no mundo, que o grindcore foi inventado no Brasil em 85 e não em 87 na Inglaterra”. Pelo menos, foi isso que eu anotei de orientação na época. A matéria saiu bonitona na revista e está aqui.

É legal anotar que a matéria só foi possível em razão da colaboração do Marcelo “Rot”, o ex-vocalista da melhor banda grind do Brasil e uma enciclopédia viva sobre o assunto. Conheço o Marcelo “por carta” desde 94 e, quando me mudei para São Paulo em 1997, fui em muitos shows do Rot e minha admiração pela fera só aumentou. Hoje ele tem uma loja muito legal em SP chamada Extreme Noise Discos e lançou um fanzine muito foda no ano passado.

A matéria vinha muito motivada pela leitura do livro Choosing Death, que conta a história do surgimento dos gêneros extremos de metal etc, de uma perspectiva inglesa. Aí, o Napalm Death pela enésima vez aparece como os criadores do grindcore. A saber, segundo a tradição anglófona,

 

O inventor do termo grindcore foi o então baterista do Napalm, Mick Harris. A palavra “grind” veio à sua cabeça como sendo a única capaz de descrever a música do primeiro LP do Swans. E o Napalm Death foi o primeiro grupo a usar o termo para se auto-descrever. E desde então, grupos como o Unseen Terror, Electro Hippies, Fear Of God (aliás, o Marcelo do Rot pelo seu selo lançou um definitivo LP duplo do Fear of God FUNDAMENTAL para amantes do gênero), Terrorizer e o Carcass dos primeiros álbuns. Podreira linda de meu deus pra fritar os ouvidos.

Mas se é a verdade que nos interessa, o primeiro registro de gravação grind/noise (sim, é duplamente vanguardista) foi do Brigada do Ódio, grupo punk do ABC. Leiam a matéria citada lá em cima pra entender. Sim, era uma provocação bem a moda da Vice, mas que deu um prazer danado de fazer, deu.

Muita coisa ficou de fora, mas o que mais doeu foi usar apenas uma aspas do Ruy Fernando, um dos precursores do straight edge no Brasil e vocalista do No Violence, que nos primórdios – afase que mais curto – era uma tremenda porradaria com elementos distintivos de grindcore, meio ao estilo do hardcore europeu de um Heresy. Não bastasse isso, ele foi desde sempre uma referência de bom letrista brasileiro, uma das figuras mais amáveis e inteligentes desse meio tão árido dessas virtudes, e um dos caras mais engraçados da cena paulista. Se ele não sabia, que saiba agora: sou fã dele!

Hoje parece bobagem, mas o fato dele ser um cara inserido no hardcore/punk e ter feito faculdade (estudou Direito), me serviu de inspiração pra seguir o mundo do ensino universitário – mais precisamente, fui o primeiro cabra da minha família a ir para universidade pública. E isso mudou minha vida – citando o falecido MC Speedy, “pra melhor e pra pior”.

Abaixo, anos depois, vai o papo cheio de insights legais, com o Ruy Fernando – minha homenagem tardia ao No Violence. NEVER GIVE IT UP!

Quando foi teu primeiro contato com a palavra GRIND como gênero musical?

Com a música, sem o nome, foi em finzinho de 1988 comecinho de 1989. Eu já era punk desde 1987 e o Fred Mosh, que tocava no Megaforce – banda de thrash paulistana dos anos 80 onde depois o Carlinhos ex-Againe tocou. O Fred me dava umas dicas de sons de hardcore que ele ouvia, pois eu não tinha nem com quem me informar. Naquela época o pessoal do metal curtia muito hardcore, e ele estava nessas também, e me disse que eu tinha que ouvir Napalm Death, que era a coisa mais rápida e brutal do universo. Logo depois eu vi que tinha saído aqui no Brasil o “Scum”, do Napalm Death, pela Rainbow Records, catei a minha cópia e pirei totalmente. Não chamávamos ainda de grind no começo, era hardcore mesmo, mas com o lançamento do disco e com mais coisa saindo na Inglaterra o termo pegou aqui. Engraçado que em 89 o Fernando Naporano, que era jornalista musical e cantava naquela banda “Maria Angélica Não Mora Mais Aqui” fez uma reportagem no Caderno 2 do Estado de São Paulo sobre as novas tendências musicais da Inglaterra e dentre os gêneros que ele relacionou estava o grindcore com seus expoentes de então, Napalm Death, Carcass, Bolt Thrower. Foi a primeira vez que vi a palavra escrita fora dos discos.


Quando você começou o No Violence? No início a banda tinha muita influência de grind né? Qual eram os canais pra pegar informação? O Napalm Death que teve disco lançado aqui pesou de alguma forma?

Eu comecei o No Violence em abril de 1989 com o Fábio Cursio, o Luis e o Jefferson. Eles curtiam mais death metal, mas estavam naquela transição pro hardcore pela violência que o grind estava trazendo pra música naquele momento. Quando começamos a banda, queríamos fazer uma parada numa pegada de hardcore muito rápido que não era só grind, era aquele som mais americanizado do Heresy, era o crust metálico do Concrete Sox e as barulheiras do Cryptic Slaughter, dos EUA e Slaughter, do Canadá. A bateria já era rapidaça, pré-blastbeat. Vocal gutural mesmo só comecei a fazer em 1990, quando mudou a formação da banda com o André, o Scud e o Edu, que lançava uma batera blastbeat mesmo. Nós conhecíamos som pelas fitinhas cassete que vendiam na Galeria do Rock, tipo na loja do Nunes, e na Woodstock Discos, que gravava os discos importados que eles tinham pra vender. E quando um de nós catava uma fita acabava copiando pros outros. O apego pelo grind durou ao longo de toda a existência da banda, até o fim no comecinho de 2005, mas foi temperado com as outras influências que foram vindo.


No seu imaginário o grind era mais ligado ao metal ou ao punk?

Ao punk, apesar das referências ao metal pelas camisetas e apesar do cabelo comprido dos integrantes das bandas. O pessoal do meu rolê, que escutava hardcore, não estava ligado ao movimento punk de SP da época, que estava profundamente envolvido em brigas e ganguismo mesmo, de intimadas com faquinha, tiros e tal. Então nós andávamos com o pessoal do metal e muita gente, eu inclusive, deixou o cabelo crescer. Pra nós, o cabelo comprido dos caras do grind e do hardcore mais metalizado que escutávamos, como Napalm Death, The Accused, Filthy Christians, Cryptic Slaughter, era um sinal de que dava pra ser punk sem ter que usar visual de punk inglês de coturno e moicano.


Quando você conheceu o Brigada do Ódio? Você os via como uma banda grind? Há a possibilidade de ser o primeiro registro do gênero no mundo? Porque havia bandas que tocavam um ou dois sons rápidos com bateria britadeira (blast beat, só que nos termos que o povo do Sarcófago usava, rá!), mas nenhuma fez um disco inteiro até então só grind, Estou certo?

Está em termos, nas duas afirmações. Quanto ao Brigada do Ódio, conheci em 1990 quando catei o split LP com o Olho Seco. Eles são uma coisa doida, deram uma acelerada nas músicas e as desconstruíram totalmente buscando um caos musical. Não sei se é necessariamente uma banda que gerou o grind, pois a estrutura do que veio a se chamar de grind é diferente da estrutura do que eles tocam, que é meio minimalista. A mesma coisa com o Sarcófago, que tinha uma estrutura do death-black metal dos anos 1980 que não tinha nada de hardcore. Mesmo assim, sendo o grind um estilo desenvolvido por gente profundamente ligada a troca internacional de fitas e discos nos anos 1980, gente que misturou hardcore escandinavo com Celtic Frost, com Siege e com hardcore japonês, é bem provável que os caras do Napalm Death e do Fear of God tenham conhecido as duas bandas e elas acabaram contribuindo nessa mistura de influências que gerou o grind.


Porque você se interessou por grind? O que via nesse estilo que não encontrava em outros estilos?

Quando comecei a me interessar por punk foi a agressividade e a velocidade das músicas que me chamou a atenção. A ideia veio depois, com o tempo. Só que essa piração na velocidade e agressividade foi me levando pra coisas cada vez mais rápidas e agressivas. Fui do Rattus pro Inferno, pro Cryptic Slaughter e DRI, e acabei encontrando o Napalm Death, que chutou o pau da barraca por ser totalmente ogro, com os blastbeats que soavam como uma britadeira, o baixo distorcidaço e incompreensível, que gerava uma parede de ruído, e o vocal gutural. Porra, é uma receita perfeita pra quem gosta de música agressiva, de catarse musical. Botou no chinelo tudo que eu escutava. Até hoje o grind é o tipo de som ideal pra dar um pique e fazer a catarse, especialmente quando consegue misturar o melhor do punk – os ganchos musicais facinhos e a velocidade – com o melhor do metal – o peso e as paradinhas/marcações.


Poderia falar que o grind acabava aglutinando os rejeitados de outros estilos, como metal, punk, death etc? Pelas fotos do Marcelo e pela minha memória visual, era uma galera bem diversa, uns até tinham elementos visuais de um ou outro estilo, mas na real era meio que o recanto dos nerds, dos caras que achavam que música não era moda e o caralho, não é?

Quem se interessava por esses gêneros tinha algo de nerd mesmo, de fã, de aficcionado, de pesquisar profundamente as bandas e as referências delas, e as bandas semelhantes, e buscar contatos com outras pessoas por carta, trocar fitas e tal. Isso é uma característica nerd mesmo, o punk ganguista de rua, de moicano levantado, ou o metaleiro thrasher dos anos 80 de bermuda e camiseta do Anthrax não faziam isso, não trocavam carta, não ficavam pesquisando lista de agradecimentos de disco de banda pra descobrir banda nova. Quem fazia era o nerd do som, tipo eu e o Marcelo Rot, dentre outros. Disco do Exploited ou do Slayer tinha em qualquer lugar, agora catar um Sore Throat, um Massacre, um G-Anx, porra, isso era coisa de quem tava indo pesquisar mesmo, tava estudando a parada, não estava à mão. A descoberta de algo difícil de ser gostado, mas prazeiroso, que requer um gosto apurado, como o grindcore, faz com que você participe de um círculo fechado de conhecedores e apreciadores. Isso dava e dá segurança, te faz sentir aceito e te faz se sentir realmente conectado com quem é semelhante a você. Não era ruim, só era ruim quando criava uma elite de “reais” de um lado e de “boys” do outro, separando ou antagonizando as paradas.

Como você acha que se desenvolveu a cena de grind (e as outras podreiras correlatas como o noise) por aqui? O Marcelo acha que o auge da coisa toda foi entre 93 e 96, muitos zines, muitas bandas no interior, e foi quando o grind tirou toda aquela coisa de metal (satanismo, etc etc) e caiu em um lance mais político pra valer. Não que antes não houvessem bandas políticas ou que depois não tivessem bandas grind com ideias metaleiras, por exemplo…

Poxa, eu tenho uma visão diferente. No fim dos 1980 eu recebia uma porrada de flyer de bandas do Nordeste e tinha uma pá de banda de Noise e grindcore lá, uma das que me lembro era o Putrefação Humana. Do interior de São Paulo, não lembro agora a cidade, tinha nessa época o Exthrema Aflição Cruel. De Santa Catarina, o Necrobutcher. De Santos, o No Sense e o Bones Erosion. Mas essas bandas eram politizadas, tavam na cartilha da política punk da época. Não só eles, mas muita gente do hardcore brasileiro do fim dos anos 80 e começo dos 90 vinha do metal mesmo, acho que eu e uns poucos caras mais éramos a minoria de gente que veio do punk, então a estética metal e parte do pensamento metal estava ainda presente nessas bandas de grindcore seminal brasileiras.

Nos anos 90 passou a ter mais gente que já veio direto pro punk e hardcore ou que veio do skate, do grunge e pegou uma cena de hardcore e grindcore estrangeira com bandas muito politizadas, como Crossed Out, Assuck, Agathocles, mesmo nacionais como o Rot, e seguiu por essa linha. Mas ao mesmo tempo começou a surgir o grindcore de terror, que virou o splattercore, e o grindcore metal mesmo, sem nada de relevante nem nas letras nem na postura. Na minha visão, essa época conviveu com essas duas vertentes do grindcore que ficaram presentes desde então. O auge acho que é o começo dos anos 90.

Mas a visão do Marcelo pode estar mais correta, pois de 92 em diante fiquei mais próximo ao straight-edge e ao pessoal do melódico de quem éramos amigos, apesar de ainda tocar e escutar grind, então acho que o testemunho ocular do Marcelo pode ser mais correto historicamente pela proximidade da parada.


Você lembra de alguma dessas histórias pitorescas que a gente acaba vivendo no meio punk/hc relacionado ao grind em específico?

Em 1990 tocamos num skate park na Zona Norte, em São Paulo, e foi a primeira vez que vimos uma banda que se dizia grindcore. E o vocalista apresentava as músicas em vocal gutural direto, o que fazia com que ninguém entendesse nada do que ele dizia, parecia que era uma música só com diversas paradinhas dos instrumentos e um solo de vocal gutural, só depois de uns cinco sons é que fomos entender que a paradinha era o fim da música e o gutural solo era o nome da próxima.

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