Boom+Boom+Kid

Nekro, Veneno Remédio + Extras

O que me levou a propor a pauta com o Nekro, hoje autodenominado Boom Boom Kid, para a revista +Soma? Admiração, pura e simples! Existem diversos personagens do punk da América do Sul que eu admiro muito: Mozine (Mukeka di Rato), Daniel Villaverde (ex-Ornitorrincos), Nenê Altro (Dance Of Days), Rodrigo Rosa (Ordinária Hit), Elisa (Dominatrix)… a lista é infinita, o que, de certa forma, mostra muito do meu perene interesse pela cultura punk rock. Nekro pra mim une muitas virtudes que fazem dele definitivamente especial: baita performer, ótimo letrista, grande vocalista e por aí vai. Não entrou na matéria original, mas havia pego alguns depoimentos, como do Marcelo Fusco, ex-Againe, Auto e um monte de outras bandas: “Ele levou a risca o estilo punk; estilo não, filosofia de um certo modo. Ele é um showman. E o Nekro canta bem e tem referências fudidas, desde Mercedes Sosa à Tracy Chapman”. Ou do Cesinha Lost, capo da Highlight Discos e hoje tocando no Fire Driven: “Eu acho que na real ele tem muito carisma. Isso que faz as pessoas gostem dele – daí o que ele fizer, nego gosta”.

Não sei porque, mas no arquivo original do texto para a revista, havia separado a letra de “Smell It Rot”, do J. Church (“Rock and roll é como História, é como a leitura em uma biblioteca, e pouco ou nada tem diz pra mim, nada a ver comigo. Rock roll não significa nada para mim, é só a poesia de um outro garoto. Mantenha a arte para os estudantes e a burguesia. Rock and roll é uma mentira simples, eu posso vê-la quando esfrego meus olhos, a repetição é simples mas convincente, um disfarce barato ainda convincente. Tá tudo bem. Tá tudo bem”) e uma frase dos Wu Ming sobre o lendário crítico de rock Lester Bangs (“Em vez de entrar no clube ‘exclusivo’, ele se une aos excluídos na calçada, fraterniza com os rejeitados pelo dress code”). Sei lá, coloco agora a entrevista tal qual publicada (que contou com fotos do Daigo Oliva na revista), mais o IMENSO material que ficou de fora. MINTO: coloco o texto conforme o enviado ao editor, meu chapa Mateus Potumati, o que significa que provavelmente não saiu bem assim na revista, hehe. Espero que curtam a volta ao blog – que prometo atualizar com maior frequência daqui em diante, direto da cidade maravilhosa.

Nekro – Veneno Remédio (publicado na +Soma 11 +Soma 17)

“Quanto ao artista em si, ele carrega aquela dor que lhe espeta o coração, mas existe ao mesmo tempo um forte elemento inconsciente em sua arte, que é uma das principais razões de sua beleza e intensidade”. Este trecho do mítico crítico de rock Lester Bangs sobre o início da carreira solo de Iggy Pop, define exemplarmente Carlos Rodriguez, mais conhecido como Nekro, o maior vocalista/frontman do punk rock/hardcore latino. Onde Iggy Pop se mostrava patético, flagelado, o antirockstar por excelência, Nekro, com a mesma intensidade também se fragiliza em frente a seu público, expondo emoções íntimas, chegando no limiar da vergonha, do cafona, e mistura tudo isso à temas políticos radicais, o que confunde ainda mais a audiência. E a entrega de ambos no palco é a mesma, uma entrega que parece definitiva, como se o mundo estivesse por acabar assim que as luzes se apagassem.

Sua música, seus livros, desenhos e fanzines transpiram felicidade e bem estar, ao mesmo tempo que não deixam a realidade de lado. Não há escapismo em suas letras a frente do cultuado Fun People (o grupo que lhe deu reconhecimento mundial no mundo punk) e em seu atual grupo, Boom Boom Kid (em realidade um projeto pessoal que só na Argentina conta com uma banda fixa), mas o artista argentino que diz, ironicamente, ter “mais de 30 anos” é um eterno adolescente e prefere ver o copo sempre meio cheio e nunca meio vazio.

Com o álbum do Fun People, Art Of Romance, de 1999, a obra-prima do punk latino, 19 canções gravadas com Steve Albini [o mais peculiar dos produtores/engenheiros de som do rock], o grupo esteve prestes a romper com o círculo punk rock e alcançar sucesso massivo. Turnês pelos EUA, México, Europa, Japão e toda América Latina, muitos discos vendidos, uma legião de fãs fanáticos e um álbum invejável recém-lançado. No auge, com 10 anos de Fun People, o grupo se desfaz. “Fun People no final era algo muito difícil, teve muita mudança de formação, decisões a tomar e opiniões diferentes… Preferi começar uma banda nova, porque não queria continuar com algo até virar uma merda, preferi deixar as coisas bem feitas e começar outro projeto. Não era só uma coisa de vender discos, fazer turnês mundiais, fazer muitos shows. Não é assim”, explicou o carismático vocalista baixinho de longos dreads loiros em uma pizzaria na Rua Augusta, em São Paulo, próximo ao Outs, onde aconteceria o último show do Boom Boom Kid na capital paulistana.

Só que tudo o que foi dito até aqui é pouco para explicar o quão distinto é o trabalho de Nekro. Sua versatilidade, cantando de raivosos hardcores à boleros, de punk rocks a la New York Dolls (uma de suas paixões) à baladas românticas, Nekro consegue amealhar canções/militâncias sobre questões de gênero, ação direta não-violenta, direitos dos animais, desarmamento, direitos gays e o direto de aborto legalizado, ao lado de nostálgicas canções amorosas, músicas sobre a história esquecida de uma Argentina rebelde e temas sobre prazeres mundanos como beber água, fazer amigos, surfar, andar de skate ou jogar frisbee – que nomeia seu último trabalho e que vem junto ao CD. Tudo embalado numa coerente ética faça-você-mesmo.

No Fun People era você e mais outras pessoas. Agora no Boom Boom Kid é um projeto seu, certo?

Sim, mas eu tenho uma banda fixa na Argentina, quando vou a outros países eu chamo outros músicos. Fun People no final era muito difícil, teve muita mudança de formação, decisões a tomar e opiniões diferentes. Daí preferi começar uma banda nova, porque não queria continuar com algo até ficar uma merda, preferi deixar as coisas bem feitas e começar outro projeto. Não era só uma coisa de vender discos, fazer turnês mundiais, fazer muitos shows. Não é assim.

 

Eu acho que o melhor álbum que você fez foi o Art Of Romance. Acho que todos seus interesses, sua maneira de fazer música e pensar o mundo estão da melhor forma ali. Hardcore é uma música que não me agrada tanto hoje em dia – não vejo nada mais que possa enxergar a eletricidade no ar, um vigor, uma urgência. Não sei o que você pensa sobre o assunto…

Antes de começar o show na Pacolli me sentia mal, garganta inflamada, febre. Quando comecei a tocar, já no segundo tema, parecia recém-nascido (risos). Música é medicina para mim, é puro amor. Me faz sentir bem e traz felicidade. Sempre quis fazer isso desde pequeno, nunca pensei o que teria que fazer na outra semana, nunca fui um adulto normal mas também nunca quis ser o mais radical. Sempre quis fazer fanzines, escrever, andar de skate, fazer minhas músicas. É a música que me leva pra outro mundo, um lugar mais caloroso, multicolorido, onde todo mundo está bem. É meu jeito de falar “ei, man, porque você está assim, o mundo pode ser mais divertido, colorido, não precisa ver tudo cinza. Se não puder caminhar, vou a cantar, se não puder cantar vou escrever. É ver o lado bom das coisas,[citando uma letra sua] angustia não, não.

 

 

Você se expressa de uma forma punk rock: tem energia, tem uma agressão, uma forma rápida e direta de se comunicar, trata de política… Só que você trata das coisas de um jeito muito terno, como se estivesse conversando intimamente com o ouvinte. E você transforma sua própria forma de existir em uma coisa política e compartilha isso com os outros…

Eu tenho muitos problemas pessoais… Como posso dizer… eu vivo na beira do caos todo dia. Por mais difícil que esteja faço da música uma pílula. Quando a tomo, tudo melhora. É assim que penso música. Na Argentina está muito estranho politicamente, muita inseguridade, muito caos, muita violência. E tudo isso existe porque há muita fome, e tudo isso existe porque tem um erro na repartição de riqueza e poder, sabe?

 

Sim, claro.

Assim as pessoas precisam de mais polícia, mais exército, Argentina é um país muito estúpido, parece que as pessoas não se lembram que faz pouco tempo que morreu mais de 30 mil pessoas (na ditadura militar), uma geração inteira morta. As estrelas do rock vão aos mass media falar de insegurança, que precisa de mais polícia, parece muito com o pré-ditadura. Eu uso minha música para me comunicar, para falar que você pode cuidar das pessoas, fazer as coisas de outro jeito.

 

Em todos seus trabalhos sempre tem um conteúdo emocional e positivo muito evidente, cheguei a pensar “será que Nekro é um cara deprimido ou tem muitas pessoas deprimidas a seu lado?”(risos) Porque as músicas sempre tem aquele espírito “ei, se levanta, tudo vai melhorar”...

A música muitas vezes é um espelho. Eu escrevo uma música com a guitarra etc, e fico feliz. Tirei toda minha merda pra fora. Não preciso que alguém me venha com comprimidos ou eletrochoques para me sentir bem. Ensaiar, subir, dançar e cantar é o suficiente para mim.

 

Como uma catarse?

Exatamente. É isso, man! Há gente que fala que minha geração é apática. Não acredito nessas coisas. Eu me sinto jovem, tenho alegria de viver, não me canso de conhecer as coisas, isso é ser jovem. Essas pessoas que tudo sabem, porque já viveram tudo não me interessam. Para viver é necessário morrer e nascer várias vezes. Boom Boom Kid é como uma colagem, um crossover desde a primeira música, o primeiro fanzine. O último disco, Frisbee, muda de canção para canção o estilo, não tem 5 músicas parecidas ali. Gosto de desconstruir as coisas. É punk rock? É e não é. É rockabilly? É e não é. É hardcore? É e não é.

 

Teve propostas de grandes gravadoras? Lembro do Fun People no período do Art Of Romance, era uma banda muito grande na Argentina.

Sempre tem. As coisas que experimentei, grandes festivais etc, não gostei. Quando assina um contrato, você tem que fazer coisas que não quer. Eu tenho grana pra viver minha vida, se quiser passar um dia sem tocar, eu posso. Não gosto de trabalhar em fábrica. Tem gente que fala de do it yourself, mas chega na segunda e vai para um trabalho qualquer – então a música é um hobbie. Minha vida real é só esta, não quero ser duas pessoas. Sim, eu fiz muitas entrevistas, mas nunca dei preferência para coisas grandes, teve muita gente do rock que me deram conselhos, como o povo do Los Fabulosos Cadillacs, amigos que trabalhavam em estúdios bons e nos ajudavam. Quando fomos gravar com Steve Albini, no dia anterior tinha saído o Robert Plant e o Jimmy Page de lá. Quando saímos, entrou o Cheap Trick, sabe? E cobrou o mesmo valor que gastaríamos em Buenos Aires.

 

E como vocês acabaram gravando com o Steve Albini?

Tenho um amigo em Chicago, o Martin (ex-vocalista da lendária banda de hardcore latina Los Crudos), que falou do Fun People pra ele, que era uma banda independente etc, começou a instigá-lo e ele falou “ok, quero conhecer esses caras”. Quando fomos gravar com Steve Albini, no dia anterior tinha saído o Robert Plant e o Jimmy Page de lá. Quando saímos, entrou o Cheap Trick, sabe? E cobrou o mesmo valor que gastaríamos em Buenos Aires. Eu gostava do Steve Albini, do Big Black, ele gravou o Big Boys, que são coisas diferentes, e nós nunca copiamos timbre de ninguém, nunca ficamos nessa de querer entrar em alguma onda. Ele foi muito legal no estúdio, quando tudo ficava confuso ele falava “ok, dois minutos de descanso, vão comer uma pipoca, assistam Spinal Tap [comédia sobre uma banda de metal fictícia](risos). Ele foi tocar na Argentina e queria que o Boom Boom Kid abrisse para eles, mas não estávamos lá.

 

Boom Boom Kid fala muito de infância e inocência como algo para se defender do mundo – já no Fun People não havia muito esta ideia. Porque usar deste tipo de imagens agora?

Eu defendo a liberdade e o livre pensamento. Não quero voltar a ser criança, é como falar de julgar: eu nunca julgo nada. As crianças nascem, correm, brincam e ficam peladas… porque nós com mais de 30 anos não podemos fazer o mesmo, man? Que importa o que os outros pensam? Tudo mundo sempre fala “não, não, não”e eu “sim, sim, vai, vai”.

 

 

Vergonha é uma palavra que não está em seu vocabulário?

Às vezes, lamentavelmente (muitos risos).

 

E como sua família enxerga teu trabalho?

Meu avô fica muito feliz, já foi em meus shows. O pai dele tinha um armazém, e quando os anarquistas italianos chegaram na Argentina nos anos 1930, ele os ajudava. Então ele teve contato com ideias anarquistas desde muito cedo. Depois virou socialista, mas um socialista libertário e sempre gostou das coisas que escrevia. Ele já foi em shows e cantou canções anarquistas dos anos 30 no microfone em alguns shows. É muito louco isso.

 

Eu conheci a história de anarquismo porque fui anarquista muitos anos, lia muito, os livros de Osvaldo Bayer (historiador que fala das lutas rebeldes na história da Argentina).

Sim, sim.

 

E sempre gostei muito do que você fazia porque quando me falavam “ah, ele só fala de amor” eu dizia, “claro que não, ele fala de política também”. Você colocou uma foto de um anarquista na capa do Art Of Romance

Eu falo dessas coisas porque é uma parte da história que ninguém conta e temos que contar. Ninguém fala dessas coisas na escola. Muita pouca gente lê… tem muito Playstation, muito Guitar Hero por aí (risos).

 

 

EXTRAS! EXTRAS! EXTRAS! TUDO INÉDITO!

Muito jovem você teve uma banda com Tomas Spicolli [artista plástico, tocou no 7 Magnificoz] né? Foi sua primeira banda?

Não, eu comecei com o Anesthesia que logo virou Fun People.

 

 

Quantos anos tinha nessa época?

Não sei, eu ainda estava na escola, 17, 18 anos.

 

Quantos anos tem agora?

Mais de trinta (risos).

 

Como foi seu envolvimento com música?

Meu pai escutava muito rock anos 50, Bill Haley, Jerry Lee e muito jazz e trova cubana. Minha mãe escutava muita jovem guarda argentina. Era esse tipo de música que cresci ouvindo. E de Menudo passei radicalmente a Iron Maiden, em 82/83, com o disco Piece Of Mind – foi o primeiro disco que peguei. Meus pais foram muito abertos a isso. Em casa não havia muitas brigas em relação à música. Só havia um centro de batalha que era disputar o toca-disco: minhas irmãs queriam escutar pop 80 de rádio,meu pai escutava jazz e eu heavy metal. Sempre gostei muito de música, desde pequeno, gostava de cantar, me fazia muito bem.

 

Você é de Buenos Aires?

Não, de Campana, uns 80 quilômetros de Buenos Aires, vivia no campo, um lugar muito bonito, cresci em um pequeno bairro, tinha um campo de lírios, água que podia beber, animais selvagens.

 

Seus pais vivem ainda lá?

Não, tá todo mudado o bairro, fizeram quadras, meus pais se separaram muito cedo e morei com minha mãe. Eu era muito selvagem, ela não tinha muito controle sobre mim: odiava ficar em casa e quando comecei a me conectar com as coisas da música, como fanzines etc, logo fiz um também e comecei a me corresponder com pessoas de todo o mundo. Conheci o [lendário zine estadunidense] Maximum Rocknroll muito cedo, graças a uma amiga chamada Patricia que fazia um zine chamado Resistencia.

 

 

Que escreveu o texto de apresentação do disco Art Of Romance?

Sim, ela mesmo. Me passou muitas entrevistas que saíam na Maximum Rocknroll e me dava endereços para corresponder, comecei a me envolver com a música underground.

 

E nessa época já andava com Tomas?

Eu comecei a ter contato com ele um tempo depois – na época que o trash que eu gostava passou para o crossover: do Kreator, Possessed, Exodus, Venom para coisas como DRI, Corrosion Of Conformity sabe? E comecei a escutar Suicidal Tendencies, andar de skate porque escutei a música Possessed to Skate. E eu mudei pra cidade dele e ele gostava das mesmas coisas e começamos a ouvir hardcore e coletâneas da revista Trasher. Fiz um fanzine com Tomas, chamado Insane Vivir, viramos straight edges e fizemos um grupo de ação direta chamado Green Violence. Um dia vi um vídeo do Greenpeace e fiquei muito mal. E o Greenpeace na Argentina era muito estranho, eu cheguei lá e falei: “estou aqui para fazer ação direta” e eles “podem escrever cartas” e eu queria agir. Nesse momento eu escutava uma banda chamada Amebix, que tinha um som meio Motorhead, Venom e vi algo escrito deles na Maximum Rocknroll falando sobre Liberação Animal, Veganismo, Crass, Conflict e minha amiga Patricia me fez uma coletânea em K7 com músicas e letras do Crass e Conflict e aquilo pegou direto no meu coração. Eu nunca gostei muito de carne, entào foi um pontapé inicial quando escutei a música Animal Liberation Front do Amebix.E fazíamos coisas como colocar cola nos cadeados das lojas de armas, jogávamos coco e xixi que guardavamos em saquinhos em lojas de animais, esse tipo de coisa. Por isso Green Violence. E nessa época comecei a tocar com o pessoal do Anesthesia e com o baterista da banda começamos a escrever coisas contra o McDonalds etc. Mas o anesthesia tocava pouco e acabei fazendo uma banda com tomas chamada Electro Muppetts, que era algo como Heresy, Concrete Sox, bem grind, com letras sobre liberação animal etc. Chegamos a tocar como bandas como Cadaveres, primeira banda do killer rock de lá. Porque Patricia tocava com eles e tínhamos mais ligação com esse pessoal do que com o povo do hardcore e me agradava mais as coisas peacepunks, como Sentimiento Incontrolable, Detenidos Desaparecidos, Porque no estan? …

 

 

Havia uma cena anarco punk?

Claro, man. Eles não participavam da cena de 88 que apareceu na coletânea porque tinha muitos carecas em outras bandas na Argentina, não gostavam do pessoal.

 

E desde cedo você também teve interesse por desenho, arte?

Meu pai desenhava e eu também. Desde cedo fazia minhas camisetas, porque não tinha camisetas das bandas que eu gostava. Ele desenhava muito bem camisetas do Iron Maiden.

 

[Eu pergunto sobre sua breve passagem como straight edge, ele explica que fez parte de um grupo de ação direta chamado Green Violence e desembesta a falar]

“Vi um vídeo do Greenpeace onde eles se colocavam em um barquinho entre um navio e as baleias e aquilo mudou minha vida. Fui até a sede do Greenpeace na Argentina e falei “meu corpo é de vocês” mas eles só queriam que eu respondesse cartas. Nessa época eu li uma entrevista do Amebix que falavam de Crass e Conflict, veganismo, liberação animal. Patricia lançou uma fita com músicas do Conflict e do Crass. Quando conheci o Animal Liberation Front pensei: “isso é pra mim”. No Anesthesia, tinha o baterista que também participava dessas ações. Electro Muppets (como Heresy, Concrete Sox) – só falava de vegetarianismo etc. Comecei a querer a fazer minhas próprias coisas, muitas letras.

 

[Começamos a divagar sobre o livro Buenos Aires Hardcore, de Julian Vadala, que conta a história da cena portenha a partir do fim dos 80]

Fun People não fazia parte do Buenos Aires Hardcore – aquilo foi só uma de tantas cenas que haviam em Buenos Aires – eles tiveram mais sucesso, era uma cena grande, influenciada por GBH, Exploited, hardcore Nova Iorque, garotos mais da cidade de Buenos Aires…. gostava mais de outras coisas. Tinha uma cena mais próxima do rock basco, falavam mais de do it yourself, eram cenas menores mas muito ativas. Eu não participei desse livro porque não fiz parte dessa cena. Eu toquei com algumas na época do Fun People e tenho bons amigos que eram parte dessa cena porque eram legais e gostavam do que eu escrevia.

 

[Pergunto sobre a Patricia, que escreveu um texto bonito para o encarte do Art Of Romance, do Fun People]

Patricia (que toca em She Devils e Kumbia Queers), foi uma espécie de monitora para mim. Fazia um zine chamado Resistencia muito conhecido, tocou no meio dos anos 80 em uma das primeiras bandas punks de lá, Los Baraja, que depois apareceu na coletânea Invasion 88 [com Flema, Ataque 77, Comando Suicida e outras].

 

Tinha um corte de classe social nessas cenas?

Não sei, porque conhecia os caras só de concertos. Fiquei amigo do Luke do D.A.J e Adrian do No Demuestra Interes. Era engraçado porque eu fazia shows em Campana que eu misturava skate rock, peace punk e Buenos Aires Hardcore. Com o Fun People eu tentava isso [misturar todos os tipos de banda]: tocávamos com bandas muito diferentes, nunca fui muito purista, gosto de me mover, sou curioso. Com Fun People eu tentei começar as coisas sob minhas próprias bases.

 
Pra mim, punk rock sempre teve a ver com liberdade. Eu escutava Crass e Chumbawamba, mas também Sex Pistols, Garotos Podres…

Ou Mutantes! Ou Roberto [Carlos] (risos).

 

Sim, exato. Eu vim de uma cidade pequena, tudo rolava junto, andava de skate, ouvia rap também.

Sim, música é música. Não me interessa estar em um gênero só, mesmo no Boom Boom Kid, porque escutamos muitas coisas.

 
Me chamou a atenção a canção que você fala dos rockabillies nazistas

Muita gente que tinha visual de careca, porque eram burros e acham que Cock Sparrer eram nazi no início dos anos 90 e iam nos shows só para incomodar os outros, não queriam fazer nada de bom, bonito, hoje andam nesse visual rockabilly. E rockabilly é coisa de negros – eles sempre estão errados. Tem uns caras desse meio que vão nos meus shows, porque lá tem sempre gente bonita – em todos os sentidos – e fiz essa canção para que eles não venham mais nos meus shows, porque a mentalidade deles é de direita. São nazis encobertos em uma coisa tão bonita como o rockabilly. Na noite de Buenos Aires tem muitos nazi skinheads. Rock é um lance universal, não tem idioma, não tem bandeira – a primeira frase do rock é “bop bop a loo boop a loo”, é um lance primitivo. Música é uma forma de espantar demônios também.

 

 

Tem pessoas como o Ian Mackaye, Steve Albini, como [descanse em paz!] Rédson do Cólera… tem um tipo de gente que não imagino fazendo nada além daquilo que fazem. Eu acho que você nasceu para o faça você mesmo, porque você canta muito bem, poderia cantar outras coisas. O que você seria se não fosse um punk rocker?

Eu não sei o que sou, não gosto de me definir. Eu só quero ver o sol todas as manhãs, brincar com meus gatos, estar com meus amigos e se tiver febre, que minha amada cuide de mim (risos). É isso, man. Sempre escrevo, faço músicas o tempo todo, tenho umas 500 canções em casa. Muita coisa que escrevi nas músicas foi uma dor que passei, já superei, que posso mostrar. Eu tenho um mundo muito próprio que só as pessoas muito próximas podem entrar. E eu cuido muito bem disso. Porque sou pequeno, estou crescendo, preciso me defender e meus dentes são pequenos também (risos).
Depois de Argentina, onde está seu maior público?

Uruguai, Chile, Peru, México. Nos Estados Unidos em um ano vão 200 pessoas e no outro, no mesmo lugar, 25 pessoas, é diferente. Dessa última vez o primeiro show tinha 3 pessoas e no último 250 em São Francisco.

 

 

Tem preferência de lugar para tocar?

Não, só não toco de dia porque sou um vampiro. Talvez perto da praia eu toque cedo, não sei o porque. Claro que prefiro pequenos concertos, mas estou perdendo o medo de lugares grandes. No lançamento do nosso último disco, em Buenos Aires, foram 4 mil pessoas. E era no mesmo dia do Depeche Mode (risos). E foi muito legal. Você sabe que gosto de surf crowd, então quanto maior o público, maior a onda (risos).

 

Eu acredito que você deve ter sido o primeiro cantor de punk/hardcore a cantar com nítida influência de cantores populares/românticos dos anos 60/70.

Talvez. Sempre gostei muito de bolero, de música romântica, dos crooners. Eu não tenho vergonha de nada, isso é algo muito pequeno para mim. Vivia em um bairro pequeno, usava dreads, roupas esquisitas e coisas que falavam que eram de mulherzinhas. Nunca me importei, que se foda (risos). Eu sou um indíviduo, errado estão os outros de me julgarem, eu estou bem.

 
O que te levou a fazer o álbum Gori & Nekro – Golden Hits (álbum voz & violão, gravado junto ao ex-guitarrista do Fun People)?

Essa foto [aponta a capa do disco] foi feita no Brasil. Gori estava gravando coisas em sua casa nessa época. E a gente gravou coisas de Black Flag, The Smiths e Anthax. Nessa época, os outros caras da banda não estavam muito a fim de tocar e a gente queria. E sempre gostei muito Woodie Guthrie, Peete Seeger, a trova cubana, sempre gostei quando canta o autor. E foi ótimo gravar esse disco porque rompemos uma parede: não é porque somos roqueiros que só iremos fazer rock. Você pode fazer tudo, o que sua mente pensar, pode se tornar real.