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Endurecer Sem Perder a Ternura

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Por Arthur Dantas . Foto Fernando Martins (texto levemente alterado e publicado inicialmente na +Soma 8)

Em um ano de poucos grandes lançamentos (o texto refere-se ao ano de 2008) no rap brasileiro, no segundo semestre houve dois grandes álbuns lançados: Non Ducor Duco, do rapper Kamau, com quem conversamos na edição #7, e o esperado álbum solo de Sombra, Sem Sombra de Dúvidas, que chegou às lojas em novembro e surpreende pela variedade de possíveis hits dentre as onze faixas.

Jorge Antonio Andrade de Jesus Santos, 33 anos, o Sombra, tornara-se conhecido ainda no fim da década de 90 com o grupo SNJ (Somos Nós a Justiça), um dos nomes fortes em um dos momentos mais fortes do rap nacional – tempo de Racionais MCs e Sobrevivendo no Inferno, de Sabotage e Rap é Compromisso e RZO e seu clássico Todos São Manos, de hits de Xis, Thaíde e De Menos Crime. O rap conquistara a periferia e entrara nos meios de comunicação pela porta da frente. Sombra resume a história do SNJ naquele momento.“Tudo começou em Guarulhos, man. Pela rádio Costa Norte FM, um som do SNJ do primeiro single, chamado ‘Mundo da Lua’, tocou bastante. Essa música fez com que o grupo ficasse reconhecido nacionalmente, e assim gravamos um álbum com outras músicas que fizeram sucesso, como ‘Se tu Lutas tu Conquistas’ e ‘Viajando na Balada’, que teve clipe também.”

A divulgação inicial pela rádio fez com que o show chegasse a todo o Brasil, e o grupo passou a participar de eventos beneficentes, em bairros mais carentes. O rapper nasceu na Zona Norte da capital paulista e cresceu em bairros da periferia de Guarulhos, cidade da Grande São Paulo. “Sou do Jardim Bonança, próximo ao Jardim Lenize. O meu trabalho por lá é o de resgatar a auto-estima dos manos por meio da música politizada e participar de eventos voltados pra nossa comunidade quando possível. O rap é a minha ideologia e sempre tive influências de pessoas próximas a mim também.” O MC chegou inclusive a se candidatar a vereador em sua cidade. Pergunto sobre esta experiência. “Senti a necessidade de fazer algo pelas pessoas e sei que a política também é um caminho para podermos de fato desempenhar o papel de agente comunitário. Fiz uma campanha baseada no hip-hop e na comunidade.” Pergunto se o partido ao qual se filiou, notadamente conservador, tem interesse pela periferia. “Bom, todos têm a periferia como prioridade nas campanhas, nas palestras etc. Todos os partidos têm como slogan ajudar as comunidades carentes.”

Para Sombra, “o hip-hop é mudança de comportamento, estilo de vida baseado nas batidas rap”.

Quem te fez querer cantar rap? Quem eram os MCs de que você gostava dez anos atrás?
Os caras que me inspiraram a cantar rap são os mesmo que me inspiram hoje em dia. Esses caras continuam fazendo o rap e o hip-hop acontecer, como o Edi Rock e KL Jay, sem falar do SNJ – os caras foram muito importante na minha vida, man. Tem ainda Racionais, DMN, Potencial 3, RPW, Doctor MCs, sem falar na inspiração que tive do RZO e Sabotagem. Até mesmo o NDee Naldinho me inspirou.

Teve alguém, um MC, um amigo ou algum fato que tenha feito você pegar um microfone e se tornar um MC?
Teve, sim. Bob Marley, Luiz Gonzaga, Racionais, Louis Armstrong, Wu-Tang Clan, Roberto Carlos, entre outros. Sem falar do meu pai, que sempre pediu pra eu ser um cara de responsa.

Quando você saiu do SNJ?
Eu saí do SNJ em 2004, e a saída foi numa boa. Não valeria nada oito anos de caminhada juntos se não fosse assim.

De 2004 a 2008 o que você fez?
Enquanto eu fazia o meu trabalho solo, o Sem Sombra de Dúvida, participei de vários “corre” paralelos. Shows pelo Brasil com o Sandrão, do RZO, e Tio Fresh, do SP Funk. Um outro projeto paralelo com o KL Jay e o Edi Rock, dos Racionais MCs, e alguns shows solo pelo Brasil afora.

Você viveu com o SNJ uma das melhores fases do rap no Brasil. Fale um pouco sobre aquele período.
No tempo em que estive no SNJ, o rap era bem mais divulgado na mídia. Porém o momento é você quem faz. Continuo fazendo shows do meu projeto solo e dos projetos paralelos nesse meio-tempo, pois trabalho mediante o momento e o que está acontecendo – a tendência somos nós que fazemos.

Recentemente, surgiu uma leva de grupos na Zona Norte que parecem compactuar com a visão de rap que o SNJ e Sombra em carreira solo têm sobre o assunto. Teriam grupos como Cagebê e Relatos da Invasão alguma influência de seus pares mais velhos? Em alguma medida, sim. Mas os caras dessa nova geração também têm suas características próprias. O pessoal ainda tá desenvolvendo o trampo, o estilo de cantar, a produção dos beats e até mesmo a performance de palco, acredito.”

O álbum Sem Sombra de Dúvidas mantém o que diferenciou o MC desde sempre: a levada e o timbre vocal muito particulares, a variedade de temas com espaço para tramas fantasiosas, divertidas e sem perder os pés completamente da realidade. Não há espaço para marasmo no álbum, e dentro de um mesmo som, Sombra muda a métrica dos versos, o estilo de cantar, estiliza expressões e gírias que encontra nas ruas, operando o que de melhor um Mano Brown ou Sabotage fizeram: transformar o que alguns chamam de gíria em dialeto próprio, inconfundível. E sem deixar de lado o espaço para comentários críticos sobre o mundo, o que casa com a visão que Sombra tem sobre o rap, mesmo numa época em que o rap fetichista e materialista tenha roubado a cena nos Estados Unidos. “O rap é político em todo lugar onde surja – ele sempre vai ter o seu lado político e crítico. Mas não podemos esquecer que rap é entretenimento também. Procuro me inspirar em coisas boas pra poder fazer um rap bem-humorado e crítico ao mesmo tempo.” A produção do álbum é esmerada, e Sombra nunca cantou tão bem quanto agora. Resta saber se, nesta fase de vacas magras para o rap brasileiro, a mídia vai dar o destaque devido ao trabalho.

Você levou um tempo para terminar o disco depois que lançou a música “Razante Louco”. Porque demorou tanto para finalizar o disco?
Quando o trabalho executivo de um disco é feito de maneira independente, é mais difícil de ser realizado. Porém, juntando forças com outros produtores e algumas pessoas do nosso meio, conseguimos finalizar o disco esse ano e colocá-lo nas ruas. Foi trabalhoso, mas conseguimos.

Há poucos MCs com uma levada tão diversificada como a sua. Você sempre cantou assim ou foi mudando com o tempo?
Quando comecei a fazer rap, senti necessidade de ser diferenciado dos outros MCs, senão seria apenas mais um entre eles. A mudança, dar uma diferenciada na levada, veio com o tempo e com certeza não terá limites. Vou tentar sempre fazer o máximo para poder me diferenciar em cada música. Ouço muita coisa de MPB e os sons mais alternativos possíveis. Tudo o que ouço tem a ver com o rap, porque acaba me influenciando de alguma forma… música erudita, regional, até mesmo o som dos pássaros (risos). Chico César, Luiz Gonzaga, Zé Ramalho etc.

Quem participa do novo álbum? Como foi a produção da faixa “Razante Louco”, que já tem clipe e a maior cara de hit?
Quem produziu foi o DJ QAP (produtor dos melhores grupos da Zona Norte de São Paulo). O sampler e as batidas são de uma cantora japonesa que nem dá pra saber o nome, porque está tudo escrito em japonês na capa do disco dela (risos). A produção ficou muito louca, e o som teve participação de Alex Tio Nenê, que infelizmente faleceu. O disco conta com a participação de Sandrão RZO, Tio Fresh, do SP Funk, Luana, do grupo Atal, os fraceses do UL’ Team Atom, Gilmar de Andrade, que é meu irmão, o MC Leco, do Projeto Manada, os caras do grupo Imortais e o mano Rael, do grupo Pentágono. As produções foram do DJ QAP, Gilmar de Andrade, DJ KL Jay, Bomba do SP Funk, Richard, DJ Sonar da França e o mano Sóbrio, do grupo Imortais.

Como surge a temática de suas letras? Faixas como “Sombra e o Encantador de Ratos e “Computador” são muito interessantes na temática, fogem ao que se espera do rap.
Baseado na situação que o tema pede, eu estudo e vou escrevendo. Depois resumo tudo e saio cantando. Para cada tema procuro saber do que estou falando pra ser coerente o máximo possível em relação ao assunto.

A última música do disco, “Litera Rua”, brinca com o fato do rap desenvolver um vocabulário próprio, usando elementos da fala das ruas e jogando para um público maior através da música. Fale um pouco sobre isso.
Temos que desenvolver o canto, porém sempre devemos ler as coisas comuns do dia-a-dia mesmo, ter atenção às palavras, porque isso faz com que acrescentemos algo a mais nas letras, nas levadas, prestar atenção nas situações do cotidiano. Eu acredito que isso ajuda a valorizar a música e a entreter as pessoas. Sem entreter as pessoas, podemos cair na mesmice, entende?

Você está contente com o resultado do disco?
Sim, estou muito feliz com o resultado, man. As pessoas estão comentando, as músicas estão sendo executadas nas FMs e nas rádios comunitárias, e a rapaziada tem ido aos shows também. Estou ali trabalhando na “bola de meia” a “Mano Eu Vou Ali Comprar 1 Chá” e “Razante Louco”. Nas comunitárias e na internet, o pessoal toca os sons com os quais mais se identifica.

Saiba Mais: www.myspace.com/semsombradeduvida

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