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O Ser e o Tempo de Gilvan Samico

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(texto publicado na +Soma 9 – aqui, levemente alterado)

Por Arthur Dantas . Imagens de trabalhos de Gilvan Samico

O tempo escorre, lento, na província afetiva do artista. Gravar pede paciência e muito ofício. Samico não é virtuose – “não sou um habilidoso”, costuma dizer – por isso age empiricamente, na base do erro e do acerto. Mas, concluída a obra, teremos com certeza, diante de nós, uma obra de arte irretocável e de uma beleza arrebatadora. (…) Samico equilibra, em doses certas, imaginação e despojamento, fantasia e técnica”. – Frederico Morais, em Gilvan Samico: obras de 1980 – 1994.

Diz-se, a larga, que o artista pernambucano Gilvan Samico, 81 anos, não gosta de falar. De sua casa-ateliê em Olinda, a poucos passos do Mosteiro de São Bento e com vista para a cidade de Recife, o artista conversa comigo pelo telefone. Gilvan é direto, sem rodeios, tal qual sua arte. Peço 30 minutos de conversa no dia seguinte. O artista muda o tom de voz, para algo sentencioso e dolorido “é muito tempo, é muito…” No outro dia, ligo às três da tarde como combinado mas me esqueço do fuso horário. Começo mal. A conversa avança, Gilvan pede para que esqueça o “senhor” que precede todas minhas perguntas. O papo rende e lá se vão mais de uma hora de conversa. Peço insistentes desculpas por tomar o seu tempo. Saio transformado e transtornado: poucas vezes tive a oportunidade de levar uma conversa tão franca com alguém que poderia ser definido como um mestre em seu ofício.

Samico gosta de atribuir à sorte todas as conquistas artísticas de sua carreira e o destino realmente tem sido um parceiro fiel e generoso. “Lá em Afogados, morava uma tia com dois filhos. Um dia, encontrei na casa dela um caderno com uma cabeça de mulher, uma artista de cinema, desenhada. Eu olhei e pensei: como alguém copiava tão bem a ponto de eu reconhecer que era uma artista de cinema?”

Dali em diante, o garoto descobrira um mundo todo que se descortinava a sua frente. Sua família, sem veleidades intelectuais ou artísticas (“não havia um livro sequer em casa”), um tanto a contragosto, passou a incentivar o talento do filho. Um dia seu pai o levou a casa do artista Hélio Feijó, que olhou seus desenhos iniciais, ainda reproduzindo o que achava em revistas, que lhe disse: “Em vez de copiar capa de revista, copie o que você vê, o que passa na sua frente!” E foi lá Samico desenhar as árvores e bichos como cabras, passarinhos, cobras, sapos. Surgia o artista interessado fundamentalmente nas coisas de seu tempo e sua terra.

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O artista plástico e ex-marchand Guiseppe Baccaro diz que o caminho da gravura é difícil, quase ascético. Os gravadores seriam tipos esquivos, sem efeitos especiais, nem na vida nem na arte – essa tese teria comprovação através da trajetória de artistas do gênero no país, como Goeldi, Abramo, Gruber, Roberto Magalhães e Gilvan Samico, para ficar em apenas alguns nomes. Samico não é “qualquer um” no meio artístico brasileiro: tem obras no MoMA de Nova Iorque e participação em duas Bienais de Veneza, sendo que recebeu premiação em uma delas (veja box adiante). Premiações não são novidade na carreira do artista, inicialmente voltado para a pintura e que se notabilizaria como gravador. Sua primeira gravura foi realizada em 1953. Ou melhor: gessogravura. “Não foi minha escolha. Abelardo da Hora achou que era fácil fazer um contorno em madeira e encher de gesso em cima de um vidro. Quando secava, já estava polido. Mas o gesso é quebradiço, um material horrível pra se gravar. Em casa, fiz umas duas gravuras em pedacinhos de Madeira e era essa minha experiência até chegar em São Paulo”.

Os mestres Goeldi e Lívio Abramo

Em 1957 o artista resolveu dar novos rumos em sua vida e veio tentar a sorte em São Paulo. “Lá era um meio mais buliçoso, tinha museu de arte, era uma cidade grande, com outros atrativos do ponto de vista artístico. Com indicações de amigos artistas mais experientes, como Aloísio Magalhães e Francisco Brennand, conseguiu indicações para estudar com Lívio Abramo em São Paulo que, por sua vez, iria indicá-lo para estudar com Oswaldo Goeldi no Rio de Janeiro, em 1958. A primeira fase do trabalho do artista encontra grande consonância com o trabalho de seus mestres, apresentando gravuras de caráter expressionista e com talhos na Madeira que muitas vezes simulam linhas de um desenho a lápis, como fica evidente na obra “Três Mulheres e a Lua”, de 1959.

Como Samico era muito tímido, acabou por aprender mais escutando do que produzindo nas aulas de ambos. O artista apresentou pouquíssimas gravuras ao mestre e concentrava-se mais no que ambos diziam, os julgamentos sobre os trabalhos de colegas de curso. Certa vez, Lívio Abramo ficara intrigado do porquê Samico produzir sempre na penumbra, nos cantos. “Quando estava de frente para um cavalete, se chegava um por trás, eu parava.”

O mais curioso, no entanto, foi uma limitação física que fez com que Samico optasse definitivamente pela gravura. Como seu apartamento na cidade era muito pequeno e havia uma filha recém-nascida, o artista optara definitivamente pela gravura – eis que o destino age de forma decisiva em sua vida. Sua ida para o Rio de Janeiro deve-se mais a uma facilidade do que por uma opção, por assim dizer: um dos filhos de sua tia de Afogados, viera morar no Rio de Janeiro e o convidou par ir para o Rio.

A gravura, ontem como hoje, não alcança o preço de uma pintura tão fácil. Samico começa a desenhar comercialmente para o escritório de comunicação visual de Aloísio Magalhães. A rotina diária não atrapalhou sua disciplina artística, pelo contrário; passara a trabalhar diariamente em suas gravuras e logo começou o reconhecimento a seu trabalho em salões de arte.

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Como um Conto de Cordel

Depois de sete anos fora de Recife, o bom filho resolveu voltou a sua terra natal. Digo, ao seu estado natal, já que Samico trocara Recife por Olinda na sua volta. Em 1965 se estabeleceria em Olinda, de onde nunca mais saiu, mesmo odiando o tão aclamado carnaval da cidade, venerado por turistas de todos os cantos (“se um sujeito te fizer ouvir música clássica alta todo dia, até Beethoven fica ruim” explica o artista ironicamente). E não seria a única mudança na vida do artista: uma conversa com o escritor e ferrenho defensor da cultura popular nordestina, Ariano Suassuna, mudaria sua vida. “Eu não estava satisfeito com a gravura que fazia. Era muito noturna e não tinha sinalização de que eu estava fazendo uma arte no Brasil. Eu disse isso a Ariano. Foi quando ele me disse: ‘Samico, por que você não dá uma mergulhada no mundo do cordel, dos gravadores populares?’ Isso aí foi o mesmo que um coice de mula.”

Samico passou a pesquisar sobretudo as capas dos tradicionais cordéis do Nordeste. Assim, se debruçou sobre aquele universo e chegou a uma conclusão lógica: mais do que as gravuras em si, a solução seria pensar no texto, em uma forma de confabular graficamente as imagens recorrentes no imaginário cordelista. Em uma revista Senhor (revista mensal de informação do Brasil e do mundo) da década de 1960, pouco depois de ser premiado na Bienal de Veneza, Samico definira com clareza a mudança de rumo em sua gravura: “despojei minha gravura do supérfluo. A preocupação de enriquecê-la com texturas diversas foi substituída pela preocupação de enriquecer o seu aspecto inventivo”. Dessa forma, ao invés de criar uma linguagem concorrente a dos gravuristas populares, acabou por definir um caminho único e original.

Era tempo de veleidades intelectuais nacionalistas, dos movimentos artísticos e seus manifestos, da mobilização em prol da cultura popular no país, dando continuidade às políticas públicas da era Vargas que agiam nesta direção. Em Pernambuco, Suassuna começa o recrutamento em torno de idéias que dariam origem ao Movimento Armorial que revalorizava a cultura popular nordestina, realizando uma arte brasileira erudita a partir das raízes populares. Além do próprio Suassuna, participaram Francisco Brennand, Raimundo Carrero, o Balé Armorial do Nordeste, a Orquestra Armorial de Câmara, a Orquestra Romançal e o Quinteto Armorial. Samico, obviamente, por encontrar suas idéias artísticas em acordo com as ambições do grupo, participara da movimentação. Porém, explica que era um armorial avant la lettre. “Eu não aderi ao Movimento Armorial: eu já era armorial antes, sem saber!”

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A valorização da linha preta ilumina sua xilogravura, que nem o uso circunscrito de cores obscurece. Quanto à iconografia, esta se liga à narração, no que Samico também se situa nas proximidades do cordel, enquanto função historiante. Embora narre, fá-lo com recurso à disposição solene de figuras emblematizadas; recusando a interpretação que a tem como faraônica, afirma seu sentido de cordel: o afrontamento, a axialidade, a justaposição, a repetição, que operam o estático, têm história em outro campo, feito, aliás, de atalhos e desvios que levam da antigüidade ao presente. – Leon Kossovitch e Mayra Laudanna em GRAVURA: arte brasileira do século XX.

Muito Além da Razão

Sua produção desde então se tornou mais “brasileira” – ao contrário de espiar o que se passava do outro lado do oceano, observando o expressionismo europeu, Samico se voltou ao figurativismo dos gravadores populares e realizou um processo de depuração através da síntese, da economia de traços, perspectivas e cores. Virou sua gravura do avesso, revelando o claro aonde havia o escuro, cavando o volume das imagens e criando linhas pretas mais decididas. Abandonou qualquer pretensão à perspectiva, enxugou o excesso de detalhes e passou a trabalhar com planos que carregavam, no máximo três personagens ou assuntos. O procedimento transformou tudo e surgiu a estética do plano único, sem senso de profundidade e perspectiva e mantendo o mínimo de detalhes possíveis. “Reduzi a gravura a uma figuração toda em linha, alguns chapados pretos, e um ligeiro traçado pra animar. Não tinha mais sugestão de céu, de nuvem, de nada que lembrasse um espaço naturalista.

Com obras MoMA de Nova Iorque e participação em duas Bienais de Veneza, além de uma infinidade de exposições coletivas e individuais em todo o mundo, e premiações das mais diversas, o artista diz ter uma única frustração, que faz com que coloque, ainda que minimamente, cor em suas obras: não ser reconhecido como pintor. “É um pouco o que acontece com alguns artistas que, abordando mais de uma técnica, são mais reconhecidos em uma, em detrimento das outras. Eu gostaria de ter o prestígio que tenho, não só como gravador, mas também como pintor. Se não tenho como mostrar minha pintura, boto cor na minha gravura.”

Apesar de todas estas características recorrentes na poética visual de seu trabalho como gravador, Samico acredita que não houve uma sistematização de todos os processos descritos pelos estudiosos. “Não foi um trajeto racional. Até hoje, tenho um processo de criação que escapa ao raciocínio.”

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O Mítico e o Religioso

Samico é um amigo muito leal, ele exagera um pouco a importância dessa nossa conversa. Acho que, de uma maneira ou de outra, ele terminaria achando o caminho dele. E mesmo que ele não tivesse se inspirado no universo do folheto de cordel, seria uma gravura muito forte como é. (…) A ligação de samico não é tanto com a gravura do folheto popular, mas com o universo poético do folheto popular. – Ariano Suassuna, em depoimento à revista BRAVO!

Conforme o processo de imersão na cultura popular foi se completando, começou a formar-se uma releitura do universo mítico e religioso do povo nordestino. Inclusive, sua premiação na Bienal de Veneza no início da década de 1960 se deu em função de uma série de gravuras com temas litúrgicos. Me surpreendo ao saber que Gilvan Samico é um cético convicto, sem nenhuma ligação íntima com qualquer tipo de religiosidade. “Não tinha intenção de fazer arte religiosa, mas os temas litúrgicos me atraíam. Santo é de todo mundo, e eu gravei as interpretações caboclas de todos eles”. A obra “Criação – Homem e Mulher”, de 1993, sugere que a temática de origem religiosa continua a permear seu vocabulário temático-visual.

O trabalho de Gilvan é de um rigor extremado. O catálogo da exposição Samico – Do Desenho à Gravura, que aconteceu entre agosto e setembro de 2004 na Pinacoteca do estado (e de onde foi retirado boa parte dos depoimentos desta matéria), é a prova cabal do zelo absoluto com o qual trata suas criações – há algumas obras no catálogo que vem acompanhadas de reproduções de diversas etapas do “estudo” para a obra final. Samico me conta que o processo é um tanto quanto angustiante. E por isso, ultrapassada a casa dos 80 anos, Samico diz, não sem uma dose de seu humor peculiar, preferir produzir menos obras, “Eu não posso errar, é uma gravura que me tortura”. Assim, faz mais de dez anos que Samico produz somente uma gravura por ano com tiragem limitada em 120 cópias que fazem a alegria de seus admiradores/colecionadores.

As particularidades e possibilidades de leituras de seu trabalho são fruto dessa paixão e entrega a seu ofício de gravador. Nos trabalhos recentes, Samico busca simplificar ainda mais a estrutura e a própria trama linear das cenas retratadas, cercando o trabalho de motivos arquitetônicos: arcos, rosáceas e molduras.

Passado alguns dias após a entrevista, meu apreço pelo artista e seu trabalho aumenta, penso inclusive em viajar até Olinda para abraçar o artista e agradecê-lo por dedicar uma vida inteira a recriar o mundo tal qual conhecemos. Ligo para resolver algumas pequenas burocracias e aproveito para agradecê-lo mais uma vez pelo prazer de compartilhar algumas palavras comigo. Digo que estava receoso, devido a sua fama de homem de poucas palavras. “Pois é, eu inventei uma lenda que eu estava andando na rua distraído e bati a cabeça no poste, daí desandei a falar”, diverte-se o artista. Talvez o poste de sua ficção particular seja o mesmo que nossa cabeça tromba ao nos confrontarmos com suas gravuras.

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Gilvan Samico nasceu no dia 15 de junho de 1928, na cidade do Recife. Inicia a carreira artística como pintor autodidata e, a partir de 1948, freqüenta a Sociedade de Arte Moderna do Recife. Em 1952, funda com outros artistas, o Ateliê Coletivo da Sociedade de Arte Moderna do Recife, idealizado por Abelardo da Hora. Vai para São Paulo e, em 1957 , estuda xilogravura com Lívio Abramo na Escola de Artesanato do MAM/SP. No ano seguinte, vai ao Rio de Janeiro RJ estudar com Oswaldo Goeldi na Enba e trabalha no escritório de comunicação de Aloísio Magalhães. É gravador, pintor, desenhista e professor. Retorna a Olinda em 1965 e, neste mesmo ano, leciona xilogravura na Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa. De 1968 a 1970, viaja a Europa com o prêmio viagem obtido no 17º Salão Nacional de Arte Moderna, no Rio de Janeiro. Na volta, participa da exposição de lançamento do Movimento Armorial, idealizado por Ariano Suassuna, juntamente com Francisco Brennand. Em 96, recebe o Prêmio Nacional de Cultura do Ministério da Cultura e em 98 a Comenda da Ordem do Mérito Capibaribe da Cidade do Recife. No Rio de Janeiro realiza a exposição O Outro Lado do Rio e, no ano seguinte, em São Paulo, a exposição Samico: do desenho à gravura, na Pinacoteca do Estado.

Saiba Mais:

www.mamam.art.br/mam_exposicoes/samico.htm

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