Um olha no olho do outro e acabam por ver um pouco do futuro do rap nacional

Rappin Hood e Parteum – Experimentos e Inovações

O underground e o mainstrean odo junto e misturado?

O underground e o mainstrean ou tudo junto e misturado?

Por Arthur Dantas . Fotos Fernando Martins

 

Esse rolê, lá na área do Rappin Hood, na Zona Sul foi demais. Além de ser igualmente fã do Hood e de seu irmão menos famoso – porém não menos talentoso – ParteUm, foi muito prazeroso gastar algumas horas de uma tarde nublada com duas figuras inteligentes, talentosas e cientes de seu papel no “jogo”- como o pessoal do rap se refere globalmente ao mundo e a indústria do entretenimento. Logo após a entrevista, o ParteUm teve uma filha e o Hood saiu da apresentação do Manos e Minas, programa da TV Cultura de SP e único espaço na Tv para o universo hip hop. Hood disse que seus planos imediatos eram lançar o álbum “Sujeito Homem 3 e depois um ao vivo, com DVD. Tudo lançado pelo meu selo, Raízes, e distribuído pela Trama. Vão ser 17 faixas inéditas”- até agora nada, infelizmente. ParteUm, agora pai de família, deve lançar algo logo. Afinal, sai ano entra ano e o rapaz sempre põe algo na roda. Segue material tal qual saiu na +Soma 9, sem o especialíssimo comentário sobre o Hood do Pedro Alexandre Sanches (meu crítico de música predileto da grande imprensa) que agigantou a matéria na revista. Sente o drama e chora cavaco!!

“Meu avô, quando foi registrar meu pai, não botou sobrenome nele, porque a maioria dos negros no Brasil carregava sobrenome do senhor de terras. Por causa do meu avô, já nascemos livres.”

Fabio Luiz, 33 anos, e Antonio Luis Júnior, 37 anos, personagens cruciais do rap sob os nomes de Parteum, o curioso e irriquieto MC e produtor que nos contou o porquê da ausência de sobrenomes em sua família, e Rappin Hood, apresentador de rádio e TV (programa Manos e Minas na TV Cultura) e um dos mais destacados MCs do país, pioneiro e entusiasta na fusão do rap com ritmos locais.

 

Parteum: curioso por natureza, é um explorador implacável de beats, conhecedor da história do skate (foi profissional no esporte por anos), aficionado pela ciência da produção musical. “Sempre tive o lance de olhar nos encartes dos LPs quem produzia cada som, que samples eram usados etc.” Hood, o irmão mais velho, foi o que encontrou mais resistência e peitou seus pais, aos 14 anos, quando compôs seu primeiro rap. Criado e morador da Vila Arapuá, na região de Heliopólis, se jogou no mundão, nos bailes black que aconteciam por toda a cidade e adquirindo o traquejo e a malandragem das ruas. Em comum, uma sólida formação cultural de berço (que fez, por exemplo, que ambos estudassem música), a sensatez na forma como conduzem a carreira e uma vontade imensa de quebrar paradigmas estabelecidos sobre o que é ser rapper no Brasil. “Eu sou um cara da experimentação, e meu irmão, um cara da inovação”, define Rappin Hood.

Se ainda paira dúvidas sobre o peso desses dois irmãos na história da música negra recente do país, o local onde começamos a entrevista é sintomático da importância do papo com ambos: o banco onde Hood e Parteum se sentam é o mesmo onde, por diversas vezes, Hood conversara sobre o futuro, música e vida com Sabotage, o inigualável poeta da favela do Canão. Se prepare, porque, como disseram os Racionais, “você está entrando no mundo da informação, autoconhecimento, denúncia e diversão”.

Quem foi o MC que fez vocês cantarem rap?

Hood . No Brasil foi o Thaíde, sou fã mesmo. Conheci o Thaíde e DJ Hum em um evento aqui perto e eles que me chamaram pra ir na São Bento (estação de Metrô onde se encontrava a nata do rap paulistano). Internacional, com certeza, é o Chuck D, do Public Enemy.

Parteum . O meu é mais complicado explicar. Eu gostava muito do grupo Hyerogliphics, que eu vi em um vídeo da Plan B. Ali descobri esse lance de vários MCs de lugares diferentes cantarem juntos. Nesse som, tinha o Dell, o Casual, o Souls of Mischief. Em 94, quando escutei o primeiro single do Nas, fiquei louco! Comprei em Los Angeles, em fita k7, junto com o primeiro single do Jay-Z, o Dead Presidents, que tinha outra base. Naquela época, era difícil ter informação, eu colava no centro, numa loja onde (o rapper) Xis trabalhava pra comprar os discos. Muitas vezes, nos vídeos de skate, eu ficava voltando a fita e não era por causa da manobra, mas sim do som que estava tocando naquela parte. Antes do Nas, lembro muito do Slick Rick, do LL Cool J, do Chuck D, e muito do som “My Philosophy”, do Boogie Down Production. Essa música passava em um programa de clipe da (extinta) TV Manchete. E a gente tem um tio mais velho que curtia um som, sempre estivemos rodeados de música. Eu ia a uma feira livre com meu pai e escutava Tião Carrero e Pardinho, chegava em casa e meu irmão me apresentava um Funkadelic. Aprendi a ter esse lance de comprar discos com ele. Muitas vezes ele saía para ir aos bailes e eu ia escutar os discos dele.

Vocês começaram a fazer rap quando?

Parteum . Bem antes dele (Hood) imaginar que eu estava fazendo. (risos) Eu lembro quando o Hood chegou com uma bateria eletrônica em casa. Porque os mesmos caras que hoje vendem chocolate no centro, vendiam baterias eletrônicas… Em casa tinha um piano da minha irmã mais nova. Às vezes eu vinha a pé com o [ex-skatista] Chaves da pista de São Caetano e acompanhava algumas aulas da minha irmã.

E o que seus pais escutavam em casa?

Parteum . De tudo.

Hood . O primeiro disco que eu tive do James Brown foi minha mãe que me deu. Conheci em casa o George Clinton. Quando veio a fase de Afrika Bambaataa e Grandmaster Flash, foi aí que saquei que queria fazer aquilo.

E eles apoiavam vocês?

Hood . Eles não ligavam, mas tinham aquela desconfiança, achavam que aquilo não era sério, não era profissão.

Parteum . Comigo foi assim… Quando tinha uns 14 anos meu pai falou: “Legal que você anda de skate, você tem um patrocinador que não te paga nada, sou seu pai e vou sempre te ajudar. Mas você tem que ganhar dinheiro pra saber como é a vida”. Aos sábados, ele falava que eu podia andar de skate o dia todo, só que em algum momento eu tinha que ir até o trabalho dele passar algumas horas ajudando.

Hood . Quando comecei a trabalhar, era algo que eu queria, com 14 anos. Sempre passei férias no interior, na casa dos meus avôs. Meu avô tinha um escritório, e às vezes me pedia pra fazer algum serviço de banco, e assim tomei gosto por trabalhar. Quando voltei, uns amigos estavam trabalhando em uma confecção e arrumei trabalho lá. Foi meu primeiro emprego registrado e nem falei pra minha família.

Parteum . Lembro que no fim do mês ele chegou com um monte de disco em casa, e minha mãe perguntou de onde ele tirou dinheiro. Daí contou que estava trabalhando.

Você viveu a época da estação São Bento (local onde se reunia a nata do hip hop na década de 80 em SP)? É verdade que você quase esteve na primeira formação do Racionais?

Hood. É verdade. Eu ia à estação São Bento desde os 14 anos. Tinha várias equipes de baile e muitos concursos de rap. E tinha um baile da Zimbabwe no Viola de Ouro, onde teve um concurso para escolher quem iria gravar o Consciência Black Vol. 1, de onde saíram os primeiros fonogramas do Racionais. Naquela época, o KL Jay chegou e falou que ia tocar comigo, porque eu não tinha DJ. E ele tocava com o Edi Rock, formavam uma dupla, e tocava com os B.B. Boys, que eram o Mano Brown e o Ice Blue. Se eu tivesse gravado com ele naquele disco, talvez fosse o quinto elemento do Racionais. Mas ficou uma puta amizade entre nós e já matei a vontade de gravar com eles etc.

O pai de vocês era bem rígido, né?

Hood . Pra caramba!

Parteum . É até hoje. Ele tem o “poder da sugestão” [título de uma música do Parteum]. Nunca fala a mesma coisa duas vezes. Lembro que teve um campeonato e eu teria que trabalhar no outro dia cedo. Ele foi me buscar, era bem tarde, em São Caetano. Ficou quieto o tempo todo e só falou: “Amanhã você pega carona comigo pro trabalho”. Beleza. Seis da manhã, entrou no quarto e falou, vou contar até três… três. Tá bom, levantei! (risos)

Hood . Era tão rígido que, se você tirasse 9,5 em uma prova, teria que tirar 10. Se tirasse 10, ele falava: “Mas você é negro, tem que tirar 11”. Esse é meu pai. Tive uma fase conflitante com ele, hoje em dia é um diálogo mais tranquilo.

E na escola?

Hood . Ele (Parteum) era bom aluno.

Parteum . E ele não queria saber de escola. É estranho que eu não me sentia bem na escola. Tinha mais de mil alunos e só dois negros – meu irmão já tinha saído de lá.

Hood . Fui convidado a me retirar. (risos)

Parteum . No skate comecei a me encontrar, aquele era o meu lugar. Andava com o Tarobinha, o Chupeta, o Mancha, o Alê Vianna, o Digo, o Bob; cada um tinha uma história diferente, vinha de um lugar diferente, mas no skate era todo mundo igual.

Eu li em algum lugar que seu pai era um cara politizado.

Hood . Na verdade é o meu avô, pai da minha mãe. Ele foi perseguido pela ditadura do Vargas, teve o nome no DOPS, chegou a ser candidato a vereador em Araraquara, participava do Movimento Negro, então sempre fomos criados na mesma disciplina. Como sou neto mais velho, é quase uma sequência dos próprios filhos. Mas era uma cobrança boa, porque cresci em um ambiente militante.

No campão da Vila Arapuá, berço de ambos na Zona Sul paulistana

No campão da Vila Arapuá, berço de ambos na Zona Sul paulistana


Vocês quebram paradigmas e a expectativa alheia em relação ao que esperar de um rapper. Porque o Hood é um rapper identificado também com o cânone do rap nacional, mais sisudo, aquele lance gangsta, e tem um som diferente. O Parteum é muito admirado pela turma do rap underground, mais do centro da cidade. O que levou cada um para cada lado?

Parteum . Eu chamo isso de rap alternativo. Porque rap underground é um lance que todo mundo gosta e ninguém compra. Quando vejo ele (Hood) conversar com o Kleber (KL Jay), com o Brown – e eu já vi isso diversas vezes na minha vida –, tem um negócio que é verdadeiro… Quando ganhei o Hutus (premiação do rap nacional), o prêmio veio das mãos da dona Ivone Lara e fiquei lembrando do disco Pirinpimpim, que tinha uma música dela, e eu: “Caramba, acabei de ganhar um prêmio da Ivone Lara!” Depois ganhei os parabéns do meu irmão, do Bill, do Brown e do Smoke, do Doctor’s MCs, que chegou e falou: “Ó, você pode não dar atenção para o prêmio que tá ganhando, mas eu passei da lata B para a lata A na São Bento junto com seu irmão, parabéns”.

Hood [explicando o que eram as latas A e as latas B] . Era a divisão entre os rimadores mais conhecidos, o MC Jack, Thaíde e os que estavam começando. Tinha o JR Brown, que era um líder lá e nos avisou da nossa promoção. Foi aquele “puta, vamos cantar agora com os caras de lá?” Foi louco.

Parteum . Sabendo de toda essa história do rap, não posso fazer as coisas de qualquer jeito, com qualquer um. Foi bom ouvir do Smoke aquilo, não peguei mal. O rap novo não tem mais isso, esse amor, esse carinho um com o outro. Não tem mais. O fato de trabalhar com estilos diferentes tem a ver com a minha criação, com o fato de ter estudado em escola de padres jesuítas, onde eu era um dos únicos negros na escola, e, mais ainda, tem a ver com o skate. Descobri quem eu era no skate.

Hood . Eu acho que o rap perdeu um elo, porque cresceu muito o movimento. Tive a oportunidade de bater lata com o MC Jack, com o Thaíde, trocar ideia com o [figuras históricas do hip-hop] Nataniel Valêncio, JR Brown, Grandmaster Ney, Nelson Triunfo e eu era só um garoto da quebrada. Tive uma ligação direta com esses mestres, esses professores. Era um time só. O rap cresceu tanto que a motivação é diferente, o mundo é mais difícil. Mas gosto do momento de hoje, porque hoje as pessoas sabem o que é um MC, o que faz um DJ, já tem um respeito. Teve gente que morreu só por cantar rap.

Parteum . Do meu jeito eu falo disso. Tem uma letra em que falo: “A única polícia que eu respeito tem o Sting no vocal”. Eu não escutei rap nacional da mesma forma que as outras pessoas. Eu ouvia o Thaíde, depois ele estava na porta de casa. O pessoal falava do MRN e o DJ deles é meu primo. O mesmo com o SP Funk: o (MC) Preto Bomba andava de skate comigo.

Hood . Eu sei um grupo que você curtia, que te fez olhar o rap diferente (Parteum fica com cara de intrigado). Vítima Fatal!

Parteum . (risos) Nem A nem B nem C, só se for D… Eu tava vendo tudo aquilo acontecer. Talvez eu seja a parte errada disso tudo. Pra mim, eu participava de tudo aquilo do meu jeito. Eu falei uma vez pra ele: “Tem um monte de coisa que os caras do rap não falam”. E ele disse: “Então porque você não faz?” Eu fiquei quieto. Ele descobriu dois anos depois que eu tava fazendo bases porque o [MC] Espião apareceu com uma demo do grupo Rua de Baixo, que tinha uma base que ele curtiu. “Pô, meu irmão tá fazendo base? É mentira!” (risos)

E porque você não mostrou pra ele?

Parteum . Se seu irmão é o Rappin Hood, o que você vai mostrar de rap pra ele?

Hood . Eu achei legal, mas só fui levar a sério que ele tava fazendo rap quando chegou com uma groovebox em casa. Aí vi que o bagulho era sério. (risos) Daí a gente sentou e teve uma conversa séria, expliquei várias coisas do meio do rap pra ele.

Parteum . Qualquer base que eu faça, por mais despretensiosa que seja, eu sempre penso “meu irmão é o Hood, não posso fazer qualquer coisa”, sabe? Tem sempre um controle de qualidade na minha cabeça.

Hood . (fala orgulhoso) Mas é legal quando ele chega e fala: “Ó, essa base eu fiz pra você!” (risos) Ele sabe bem do que gosto.

Parteum . É um trabalho sob medida. Por isso que é difícil sair por aí fazendo produção em série. Gosto de quem faz isso, como os Neptunes, o Timbaland, o J.Dilla – que poderia ter ficado bem maior. Produtor de rap que eu sigo é o DJ Rafa (DJ do MV Bill), porque é uma escola de produção, Consciência Humana, Baseado nas Ruas… Às vezes tô no estúdio e tá sentado ali do lado o DJ Rafa e o Vander Carneiro. O Vander fez a plástica do rap nacional.

Eu vejo que a galera do tal rap alternativo assim como o do rap nacional não se ligam muito, há uma cisão. Vocês não tem isso?

Hood . Eu sou um cara que gosta de experimentar e gosto de coisas variadas. Se eu estiver com o pessoal do Mzuri Sana, o povo do Pentágono, eu tô muito bem; com minha madrinha Leci Brandão e meu padrinho Almir Guineto, eu tô bem também. Eu quero poder fazer rap mais conservador, bumbo e caixa e voz bem na cara, mas também quero fazer um lance doidão. Eu gosto disso. Quero mostrar propostas diferentes para cada público diferente. Essa virada de página que tentei fazer com meu trabalho, de dar uma cara mais brasileira pro rap, eu acho que fui vitorioso. Mas é legal fazer o rap puro também. Cada música tem uma vida diferente. Eu sou um cara da experimentação, e meu irmão, um cara da inovação.

Parteum . Nunca imaginei colocar ele e o Iggor Cavalera no mesmo som (“Definição”, do último CD do Mzuri Sana).

Quando você lançou o primeiro single, com o PosseMente Zulu, pegou o auge do rap nacional, de inserção na mídia, de vendas (o LP vendeu 18 mil cópias). O Parteum já pegou outra época, onde as coisas estão por se definir.

Hood . Eu acredito que o rap brasileiro, como falou o Nelson Sargento em relação ao samba, agoniza mas não morre. O rap ainda tem muito pra gerar, vão surgir novos grupos, novas propostas que vão alcançar ainda mais pessoas que nós alcançamos hoje. Mas não vai ter nunca mais a parceria que nós tivemos, o engajamento que tivemos, o compromisso e a luta. E eles não têm que carregar essa carga, têm mais que fazer música desencanados. Cada um tem um peso e um tamanho dentro do rap. O que eu não posso fazer não é necessariamente o que outro não pode também. Uma vez perguntei para a Leci Brandão o que ela achava dos grupos de samba romântico, essas coisas aí. Ela me surpreendeu, porque falou que gostava, que achava importante, porque muita gente que começa a escutar samba ali ia conhecer ela, um Almir Guineto, um Martinho da Vila, um Jorge Aragão depois. Administrativamente, depois de várias lições, estamos nos preparando para coisas maiores. Quando minha geração começou, éramos todos administrados por outras pessoas, nada era nosso. Éramos de outros selos, por outros empresários, equipes de baile etc. Hoje não: somos pais de família, somos homens, temos selos, somos empresários.

Qual disco de vocês mais vendeu?

Hood . O primeiro Sujeito Homem vendeu 150 mil cópias. E já tava na época da pirataria. Parteum . O que mais vendeu foi meu solo e chegou agora em 5 mil cópias. Tem mixtape minha que já vendeu quase isso. Mas não me preocupo com os números. Cada artista acha suas limitações e não dá pra ser o melhor em uma coisa só, até porque faço várias coisas. O Mzuri Sana já abriu para meu irmão, 7, 8 mil pessoas. Dá tudo certo: “Levanta as mãos para o alto!” e todo mundo levanta. Só que quando ele entra, até a tia do Sarapatel lá no fundo começa a pular. (risos) É o carisma do cara, não adianta. A nova geração acha que vai ser melhor porque rima mais, tem o beat mais louco, a melhor produção… Você ganha até o terceiro, quarto episódio, mas e depois? Já tenho uma estrela na família, então meu caminho é outro.

Não tem uma má vontade da imprensa com o rap? Porque tirando o Rappin Hood, o MV Bill, o Marcelo D2 e o Racionais, dificilmente você vê algo relacionado ao rap. (Os dois, empolgados): Tem!

Hood . E não é só na escrita, é na imprensa em geral. A gente ainda tá estereotipado, tem muita barreira pra quebrar. E tem o lance de que há portas que só abrem para uns e não para outros. Tem lugar que só aceita o MV Bill, tem lugar que só me aceita… Temos que quebrar esse tipo de coisa.

Parteum . Aqui, agora, estamos fazendo um lance muito positivo. Já dei algumas entrevistas por aí em que esperam que eu tenha o comportamento do meu irmão e vice-versa. Minha gerente do banco me viu na TV Cultura. E falou: “Não sabia que você fazia rap… mas nem fala palavrão”. E eu: “Não, rap é rap: ritmo e poesia”. Não vá me dar crédito maior ou menor porque meu rap não tem palavrão. Entendeu? Esse é o problema com a nova geração. Porque eles estão fazendo coisas diferentes, mas fazem a mesma coisa que a geração antiga, a mudança é natural – desde quando o Bambaataaa começou a samplear Kraftwerk.

Hood . Sabe quando o rap nacional foi mais forte? Quando tava todo mundo na merda por igual. Porque ali um vibrava quando alguém vencia.

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Melhor qualidade do seu irmão?

Hood . A organização.

Parteum . Poder de síntese.


Pior defeito do seu irmão?

Hood . Ele é tão dedicado que ele cobra todo mundo pra ser igual a ele. É muito perfeccionista.

Parteum . Impaciência. (risos)


Melhor som que teu irmão te apresentou?

Parteum . “Rebel Without A Pause”, Public Enemy.

Hood . O melhor som foi o álbum Illmatic, do NAS.

Melhor som do seu irmão.

Parteum: Gosto muito da primeira versão de “É Tudo no Meu Nome”, com sample do Herbie Hancock.

Hood . “Dragão Mimado”, no primeiro disco do Mzuri Sana.

Um disco, livro ou filme que é a cara do seu irmão.

Hood (animado) . Putz, um filme com a cara do meu irmão é Ao Mestre Com Carinho, com o Sidney Poitier.

Parteum . O Alienista, do Machado de Assis. Fica procurando a loucura nas pessoas, mas a loucura tá nele. (muitos risos)

Como você definiria seu irmão?

Hood . Um cara muito dedicado.

Parteum . É um mágico, por tudo o que a gente passou, pelo que ele faz. Você vê isso com as pessoas que conversam com ele. Tem gente que chama de carisma. Eu chamo de magia.

Vocês já gravaram com vários músicos. Com quem gostariam de gravar?

Hood . Hoje em dia gostaria de gravar com o Raul de Souza.

Parteum . Vários. Um cara que eu gostaria que produzisse algo, mas já faleceu, era o J. Dilla. Outro com quem queria trabalhar, mas é quase impossível, é o Herbie Hancock.

Um disco de rock.

Hood . Tem dois discos que escutei muito de rock nacional: Titãs, Cabeça Dinossauro e o primeiro do Legião Urbana. Internacional, um que escutei muito mesmo, é o The Wall, do Pink Floyd. Deixa uma menção honrosa para o Living Colour também.

Parteum . O The Reality of My Surroundings, do Fishbone. Rock nacional vou ficar devendo.

Um disco de samba.

Parteum . O Samba de Roda, do Candeia, e o Coisas da Vida,do Roberto Ribeiro.

Hood . Memórias de um Sargento de Milícias, do Martinho da Vila.

Disco de música brasileira.

Hood . Eu sou muito fã do Djavan.

Parteum . Pô, ia falar ele. (risos)

Hood . Um é o Extra, do Gilberto Gil, e o Luz, do Djavan.

Parteum . É o Luz, do Djavan também. Esse não tem jeito, é o disco que nossa mãe gostava. (risos)

Saiba Mais:

No site da +Soma, a entrevista na íntegra.

Um olha no olho do outro e acabam por ver um pouco do futuro do rap nacional

3 pensamentos sobre “Rappin Hood e Parteum – Experimentos e Inovações

  1. sensacional! reli mesmo… e acho q foi a terceira vez… essa é daquelas entrevistas que vc se pega rindo… q se pega emocionada… e que pega de novo pra ler outro dia. outro ano. vai saber… parabens.

    • É Gi, a sensação é essa. Poder trabalhar pra conhecer gente assim é uma maravilha mesmo! E o seu site tá uma beleza. O rap – e a música como um todo – tá precisando de imprensa assim. Parabéns para todos nós!

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