ativismo que preste sempre une, criatividade, irreverência e um naco de agressão

De ceticismo e ativismo

curtição para todo mundo, e isso é o mínimo!

curtição para todo mundo, e isso é o mínimo!

Considerações prosaicas,  pedestres e rasteiras sobre ações como o Dia Mundial Sem Carro e o Praia no Tietê.

Eu realmente não acredito no efetivo sucesso de ações como o Dia Mundial Sem Carro ou a Praia no Tietê – ambas ações ocorrem amanhã, 22 de Setembro, na cidade de São Paulo*. Mas, ao contrário do que pode-se levar a supor, isso não quer dizer que não participo ou endosso tais atividades. Diz-se que antes de alcançar um determinado objetivo, uns soquinhos em ponta de faca e ensaios gerais são necessários – eu estou do lado dos que pensam assim.

O melhor de participar de tais ações é descobrir que tem mais gente por aí preocupada com questões que vão além de seu umbigo e de sua própria vaidade, já caíram no deserto do real e sabem que passarinho sozinho não apaga incêndio não, só se fode. E, normalmente, no meio desses pequenos exércitos de Brancaleone, acaba-se por descobrir gente descontraída, de bom coração e fazendo amigos para toda uma vida. A Bicicletada na Paulista, que costuma acontecer toda última sexta-feira do mês, é exemplo cabal disso. Fui na última e me diverti um monte. É quando você descobre gente assim (com um pouco de culhão e um tantinho de sangue no corpo) que a vida fica mais saborosa, o pessimismo da razão dá lugar ao otimismo da vontade, e o niilismo tão fake e voraz tão presente em nossos dias – envolto na embalagem reluzente e atraente de um cinismo supostamente charmoso –, vai pras cucuias. Do frenesi corrente de espetáculos vazios chega-se à vitalidade da vida realmente vivida. Isso acaba por ser tema da maioria da teoria política radical que me interessa desde sempre. Trocando em miúdos: ativismo pode e deve ser um grande barato também. E há também o tal do Do The Right Thing que ficou pop e tangível pós o filme do Spike Lee. Se não posso dançar, definitivamente, não me chame para sua revolução!

Uso uma pequena história para ilustrar: uma grande amiga diz não largar o carro e andar de ônibus porque se sente “desprotegidas em transportes públicos”. A lógica é simples e poderosa para esta bem característica mentalidade: quanto mais contato humano, maiores as chances de ser agredida, humilhada, roubada. Essa é uma máxima que expõe bem certa fratura de nosso tempo onde a vida diária parece ser um acúmulo e consumo de humilhações. Dentro desse ideario, o contato humano não gera empatia e sim o medo, a repulsa, o afastamento, o recolhimento. Me afastar é garantir minha liberdade, minha essência (para lembrar da nova religiosidade tão em voga na classe média). Falar disso é desenrolar toda uma tese sobre o atual estado das coisas e da sociedade brasileira, da confusão entre público e privado e, acima de tudo, como a cultura do medo, muito benquista pelos donos da ordem, só gera conservadorismo e agressão. E tudo permanece na mais perfeita ordem. É a tal da sociedade patológica.

Com tudo isso em vista, me parece claro que, a imensa maioria das pessoas que adirão ao Dia Mundial Sem Carro e ao dia de Praia no Tietê são pessoas já “convertidas” à causa, por assim dizer. Por maior que fosse a propaganda e os motivos (muito bons, nos dois casos) para tais ações, a sociedade civil faz vista grossa para ambas por motivos mal delineados acima. Por outro lado, há de se ter em vista o simbolismo dessas ações e seu poder futuro que acaba por ser só um: mostrar que há alternativas, dar vazão, motivos para quem pensa diferente continuar acreditando em “outro mundo”. É aquela história de sair do armário da inação, de ganhar ânimo para agir, sair da letargia do pensamento e ir um pouco para a prática.

Não vou criar uma epopéia em torno do ativismo individual ou do real peso de tais ações. Não engrosso o eleitorado medroso e bondoso (rá) da Soninha. Eu acredito que esse tipo de ativismo é apenas a fagulha de algo maior, mais efetivo. É quase uma questão existencial: se não concordo, tento não compactuar. Tô mais para um tipo de pensamento autonomista radical mal ajambrado do que para o discurso da servidão voluntária, seja o corrente ou o do bom mocismo inócuo. Cada um sabe bem o que lhe cabe no mundo. Pra mim, parece que é sempre saudável ir aonde há silêncio e fazer um pouco de barulho. No site da revista Época, a Fundação S.O.S Mata Atlântica, que chama o Dia de Praia no Tietê, diz que o objetivo é aproximar a população do rio e pressionar o governo para a continuidade da despoluição da Bacia do Tietê”. E, realmente, é uma boa ação midiática para levantar a sociedade civil, pela enésima vez, no sentido de recuperar o Tietê. Pode parecer utópico ou até desnecessário aos olhos do pragmatismo motorístico da grande população amedrontada paulistana. Acho que as próximas gerações não vão pensar assim, é um palpite. O manifesto e os motivos do Dia Mundial Sem Carro podem ser lidos aqui. Neste outro link é possível saber mais sobre a despoluição do rio Tietê.

Na sequência, a matéria que escrevi sobre o Rappin Hood e o ParteUm, irmãos e bons artistas do rap nacional.

*O Dia Mundial Sem Carros acontece em outras cidades brasileiras. Saiba no site da bicicletada onde acontecerão outras manifestações.

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