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A Música Livre do Grupo Um

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(originalmente publicado na +Soma 10)

Uma breve história do grupo que marcou a música instrumental de invenção no país e um dos pioneiros do cenário do jazz-rock brasileiro pelos depoimentos dos irmãos Zé Eduardo Nazário e Lelo Nazário.

A última década coroou um formato dentro da música independente onde músicos de formação roqueira passaram a namorar outros estilos (como o free jazz) e se aprofundaram cada vez mais em temas instrumentais – ainda que mantivessem em alguns casos a voz. O mesmo se deu um pouco antes no exterior e ganhou o nome de pós-rock – uma tendência musical que retomava de um lado a experiência de parcela do kraut rock alemão e se espelhavam na sonoridade propagada por um grupo fundamental dos anos 1990 chamado Slint. Hurtmold, Fóssil, Constantina, M.Takara, Porto, M.Armani, Guizado… a lista é longa e ganha cada vez mais atenção entre crítica e público.

Na década de 1970/80 aconteceu algo semelhante, só que dessa vez, motivado de um lado pela experiência da bossa nova e do samba jazz, e de outro pela música de Hermeto Paschoal – sem dúvida alguma, um dos maiores instrumentistas do planeta na atualidade. Nesse cenário, houve um componente que chama a atenção também por ser o primeiro grupo instrumental a lançar disco independente no país: o Grupo Um, formado em 1976, dos irmãos Lelo Nazario (piano) e Zé Eduardo Nazario (bateria e percussão). Pelo grupo, passaram também Rodolfo Stroeter (baixo), Mauro Senise (sax), Felix Wagner (clarineta), Carlinhos Gonçalves (percussão), Zeca Assumpção (baixo) e Roberto Sion (sax soprano).

O álbum de estréia do grupo, Marcha Sobre a Cidade, de 1979, foi lançado em pequena tiragem pelos próprios músicos e posteriormente reeditados pelo selo Lira Paulistana, que funcionava também como produtora e distribuidora e mantinha um pequeno teatro que se tornou lendário ao aglutinar a produção mais vanguardista da capital paulista dos anos 1970 e 80. Este trabalho, assim como os dois posteriores, Reflexões Sobre a Crise do Desejo (1981) e A Flor de Plástico Incinerada (1983), são marcos da música de invenção nacional. Porém, os irmãos Nazario, com quem conversei por e-mail, tem uma longa trajetória (tanto antes quanto depois) a ser comentada.

Lelo e Zé Eduardo, ainda na adolescência, criaram o grupo Malika – uma fusão de música afro-brasileira, sul-americana e jazz contemporâneo –, que contava com a participação do saxofonista Hector Costita, músico em grupos de Sergio Mendes e Gato Barbieri. “Comecei tocando profissionalmente aos treze anos nos principais shows musicais da televisão, em 1965. Ouvia muita música brasileira, jazz de todos os tipos e música erudita, e a experiência de tocar com grandes músicos também foi muito importante como aprendizado” explica Zé. Lelo fala da formação dos outros músicos e da proposta do Grupo Um. “O Zeca Assumpção se formou na Berklee School of Music, em Boston (EUA), e o Mauro Senise havia estudado com o Paulo Moura e Odette Ernest Dias. Todos nós sempre gostamos de jazz, que é uma música muito rica e complexa, que permite a criação de estruturas formais, escritas, mas que admite elementos criativos que dependem do momento em que são tocados. Anthony Braxton, Cecil Taylor e John Coltrane (ícones do free jazz) trilharam este caminho, bem como diversos outros artistas que admirávamos. Tínhamos o cuidado de nunca copiar e o resultado do trabalho mostra isso”.

A rebordosa de toda a efervescência cultural brasileira dos anos 1960 provocado pela ditadura causou um baque na cena de então. “As perspectivas musicais e artísticas foram alteradas, ninguém escapou a essa readaptação. Foram necessários vários anos para que o meio musical brasileiro voltasse a produzir uma música instrumental de qualidade”, sentencia Zé Eduardo. Porém, no início dos anos 1970 Hermeto vivia a recrutar novos jovens dispostos a acompanhá-lo em suas originalíssimas criações. Estas formações eram os principais núcleos de criação musical da época, disseminando uma maneira de pensar a música de uma forma mais livre, sem barreiras e com resultados singularíssimos. Foi natural que chegasse a vez de Zé Eduardo, Lelo, Zeca Assumpção, Mauro Senise e Roberto Sion caírem nas graças do músico albino de Alagoas. Lelo pondera que houve uma via de mão dupla na relação com os futuros membros do Grupo Um: “Hermeto é uma pessoa muito calorosa e gentil, sempre nos tratamos mutuamente com muito respeito e admiração. Acho que a nossa passagem pelo seu grupo trouxe novos elementos à música que ele fazia, da mesma forma que a sua experiência e conhecimento nos enriqueceram bastante”.

Durante a passagem pelo grupo de Hermeto, Zé Eduardo criou a Barraca de Percussão, fruto da necessidade prática durante as apresentações. “Os primeiros percussionistas brasileiros que ficaram conhecidos por usar esse tipo de instrumentação mais abrangente e misturando instrumentos brasileiros no jazz, foram o Airto Moreira e o Dom Um Romão (com Miles Davis e Weather Report, respectivamente), lá por volta de 1970. O Guilherme Franco (que anos antes formara o primeiro grupo de percussão contemporânea não-clássico do país com o próprio Zé Eduardo), também foi para os Estados Unidos em 1972 e usou essa parafernália com o McCoy Tyner e o Keith Jarrett, mas até aí ninguém tinha montado (que eu saiba) uma barraca do modo que eu fiz no grupo do Hermeto em 1973. Era uma barraca igual às das feiras livres, e isso ocorreu devido à necessidade de ter no lugar certo determinado instrumento para ser usado em um arranjo numa determinada hora, misturada aos instrumentos brasileiros e à bateria, o que a caracterizava como um “set” original. (…) Sucata industrial, tachos e leiteiras de ferro e outras coisas que “viravam” instrumentos, em volta da bateria. Depois de alguns anos usando e aperfeiçoando meu equipamento, muita gente passou a usar, virou moda, em todo lugar tinha um percussionista ou baterista com a barraquinha brasileira de percussão do lado. Se tivesse patenteado, teria ficado rico (risos)”.

Assim como os outros integrantes do Um, os irmãos Nazario não ficaram parados após a passagem no grupo de Hermeto e tocaram também com Egberto Gismonti, Marlui Miranda, Taiguara, Patife Band, além de músicos estrangeiros. O Grupo Um, sintetiza Zé Eduardo, nasce em 1976 da necessidade que ele, seu irmão e Zeca Assumpção após o trabalho com Hermeto, tiveram de “pensar numa estética diferente, que embora possa ser relacionada ao ‘free jazz’, tinha aspectos particulares, tanto na parte melódico/harmônica, quanto na rítmica, que determinaram primeiro a surpresa com que fomos recebidos no meio musical e depois o sucesso e o reconhecimento que obtivemos”. Pergunto sobre a relação com outros artistas de vanguarda na cidade de São Paulo daquele período. Lelo: “Com relação à vanguarda paulista de 1980, sou amigo de vários artistas como o Arrigo e a Ná Ozzetti, mas todos eles estavam trabalhando para criar, principalmente, canções de vanguarda. Nós nos dedicávamos a criar música instrumental”.

Fato é que os três discos do grupo, relançados em CD recheado de textos e fotos pela etiqueta Editio Princeps – responsável também por colocar novamente no mercado o trabalho de outros nomes da música instrumental do período, como Divina Increnca e Pé Ante Pé –, mostram um vigor gritante no trabalho do grupo. Pergunto a Lelo se ele conhece a nova geração de músicos instrumentais/experimentais vindos do rock no país. “Tenho observado em muitos músicos jovens um comportamento padrão de tentar repetir o que já foi tocado (e muito bem tocado) no passado. É como a discussão entre Miles Davis e Wynton Marsalis, o primeiro um criador incansável e o segundo um repetidor incansável. Eu gostaria que os músicos cada vez mais tivessem o espírito do Miles – estudar todo o passado e absorvê-lo, para depois apresentar um trabalho que traz algo de novo à cena musical.”

Zé Eduardo, tido desde sempre como um dos maiores bateristas do país, vive hoje no Sul de Minas e lançou no ano passado o álbum Encounterpoint, com o guitarrista americano John Stein e prepara um novo CD, Poema da Gôta Serena e Outros Poemas, que será lançado em breve pelo selo Editio Princeps, cobrindo um período que vai de 1977 a 2004. Já Lelo passou a realizar trabalhos voltados à música eletrônica acústica e tomou gosto pelo trabalho de engenheiro de som e para 2009, está “gravando as composições de um novo CD, com uma infinidade de sons eletrônicos e alguns solistas convidados”. O Grupo Um se dissolveu pela necessidade de seus integrantes desenvolverem trabalhos solos, o que me leva a especular sobre uma volta do grupo. Afinal, hoje há toda uma cena voltada para a música instrumental e um público aparentemente receptivo aos ventos mais inovadores na música. Pergunto se existe a possibilidade de uma volta do grupo: “creio que a possibilidade de uma volta sempre existe, já que estamos todos vivos, com saúde, continuamos amigos e tocando cada vez melhor”, sentencia Lelo.

Saiba Mais . www.editioprinceps.com/index.htm

Veja as entrevistas completas com Zé Eduardo Nazario e Lelo Nazario em www.maissoma.com

6 pensamentos sobre “A Música Livre do Grupo Um

  1. Legal demais Arthur, os irmãos Nazário foram os primeiros a me apresentarem pro jazz e pra música de improvisação. Foi no comecinho da década de 90 quando eles – já com o nome de Grupo Pau Brasil – baixaram em Pouso Alegre pra uma série de oficinas. Eu nem lembro direito como eram as aulas. Só me lembro que boiei demais na aula de guitarra. Não entendia nada mesmo.
    Em compensação, o show deles com a Marlui Miranda foi uma das coisas mais impactantes que eu assisti. Misturavam os aparatos eletrônicos do Lelo Nazário com a pesquisa indígena da Marlui Miranda. Foi bem impressionante.

    Tá fervendo nos posts em FERA!

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