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As Sete Faces do Dr. MZK

MZK em sua casa. O ratinho tava escondido por ali...

MZK em sua casa. O ratinho tava escondido por ali...

Foto por Fernando Martins

MZK Um dos caras mais classe A que eu conheci em São Paulo. Sem contar que, pra mim, fanzineiro do interior, fãzaço de HQ, ele era quase um mito. Aquela coisa de geração revista Animal etc etc. E o trabalho, por si só, é bem classe! Aqui coloquei poucas imagens, infelizmente. Ele tá com expo nova (como dito no post anterior) e publica pouco – coisas de um país que não sabe o que fazer com o quadrinho enquanto gênero. Ah, a entrevista foi feita no fim do ano passado e saiu na +Soma 9 (aqui sem revisão, levemente alterada e com extras não-publicados), com capa lindaça do próprio MZK.

HQ é com ele mesmo!

Estamos em uma região bem arborizada e amigável do bairro do Butantã, zona oeste da cidade de São Paulo. Eu e o fotógrafo Fernando Martins descemos do táxi em frente a casa de Maurício Zuffo Kuhlman, mais conhecido no (sub)mundo das artes gráficas como MZK. Este nome pode dizer pouco para a maior parte das pessoas, mas o figura que completaria 40 anos um dia após a entrevista, é um dos heróis da minha adolescência, mestre dos fanzines de quadrinhos nos anos 90, DJ sacado e atirado nos grooves e pancadões do mundão. Além disso, tem uma das paletas mais vibrantes e sintéticas escondidas nas mangas. Recentemente, tornou-se “pesquisador” responsável pela descoberta da civilização mesomalaca do Butantã, um povo que habitou a região antes da chegada do homem branco e da destruição perpetrada pelo capitalismo. E MZK, neo malaco, transformou estes achados em arte

Antecedentes criminais

O que chama a atenção em MZK são seus interesses múltiplos, frutos de sua curiosidade natural e do ambiente que a cultura jovem pré-grunge propiciava. Havia também a influência da arte que acabou por se tornar o traço distintivo em seu trabalho. “Em 1986, eu era colecionador de quadrinhos. Tinha uma galera da minha escola, em Santos, que fazia histórias em quadrinhos no caderno e daí veio minha vontade de fazer também. Eu lia Chiclete com Banana, Geraldão, Frank Miller, Tintin, Asterix, Mad, um pouco de Conan, Maurício de Souza quando era mais novo”, explica MZK.

Houve um tempo que todos queriam ser MZK. Por “todos”, entenda-se uma micro multidão de fanzineiros com culhão, afeito a inovações e com predileção por arte underground espalhados pelo país. Seu zine Tatto Comix, era moderno, arrojado e com quadrinhos de fazer inveja a muito marmanjo. Saber que nosso lendário antropólogo urbano da Zona Oeste paulistana é um “semi” autodidata só torna seus zines mais fantásticos aos meus olhos. “Eu fiz seis meses de Carlos de Campos, o Cacá [colégio técnico voltado para Artes, por onde passaram OSGEMEOS, inclusive], mas não terminei. Trampava próximo da ponte João Dias (Zona Sul), o Cacá era na Tiradentes (Zona Norte) e eu morava no Jabaquara [Sul também, porém distante das duas outras áreas]. Daí não durei muito (risos). Como desenhista não me importava muito essa formação”. Como atesta texto sobre MZK no site das Edições Tontos (editora de Fábio Zimbres que publicou livrinhos finos de vários mestres outsiders), “seus zines e quadrinhos foram inspiração para um monte de gente. Ao mesmo tempo obscuro e claríssimo, seu estilo continua confundindo o mundo.”

Obra a venda na Galeria Choque Cultural, em SP

Obra a venda na Galeria Choque Cultural, em SP

O mito fundador: zines são sérios!

Fruto de inocência ou respeito profundo pelos quadrinhos (com o gravador já desligado, MZK vaticinou: “[o artista gráfico] Jaca é meu pai, mas o Laerte é o cara!”), o aniversariante quarentão, explica seu contato inicial com o meio que o tornaria reverenciado por seus pares. “Conheci fanzines através da seção de cartas dos quadrinhos de terror, como a Cripta do Terror (clássica revista da última fase “áurea” da HQ de terror no país). Com uns 14 anos eu achava que fazer fanzine era um lance muito profissional – não tinha contato direto mas imaginava uma coisa muito profissional. Nessa época eu fui para Araxá (MG) – acho que em 1986 –, em um encontro de quadrinhos e conheci o Marcatti, o Gualberto, o Bira, o Fernando Gonzales, o Watson Portela (importantes nomes da HQ brasileira do período). Mas eu fui como apreciador de quadrinhos, ainda não fazia fanzines, só tinha vontade. Tinha comprado umas revistas do Marcatti, a Lôdo, a Mijo (lendárias publicações do autor mais identificado com o underground no país). Ele tinha comprado uma máquina de off set na época e imprimia as próprias revistas, com a sua editora, a Pro-C”.

Inspirado nos colegas em Santos e suas amadoras HQs em cadernos, surge seu primeiro zine em 1989. MZK queria colaboradores, mas fora um de seus irmãos, seu pai (escrevendo poemas) e dois colegas de colégio, a recepção foi um tanto tímida na verdade, dada a natureza de seu trabalho, inicialmente notadamente influenciado pelo pouco de Robert Crumb que chegava ao país de então. “A galera que eu andava em Santos não se interessava muito por quadrinhos underground. Quando fiz meu primeiro fanzine, achei que todo mundo ia se interessar e querer fazer algo mas quase ninguém quis (risos)”.

A mitologia criada a respeito da importância dos zines, fez com que MZK lambesse bem a cria – quem passou pelo eixo dedicado aos “Mauditos” na mega exposição Transfer em Porto Alegre [n. A maior expo de arte urbana do país, em 2008] pôde atestar o esmero e beleza de suas publicações. “Eu curtia movimento punk etc, tinha uma vontade de fazer um fanzine. Nem sabia se ia ser de quadrinhos – queria fazer uma revista. E eu via a coisa com uma certa seriedade. Quando fui fazer o primeiro, o Tattoo Comix, tinha até a paranóia de registrar o nome (risos). Mas a responsável mesmo por querer fazer um fanzine foi a revista Animal. Nessa época várias pessoas ficaram empolgadas de fazer fanzine.”

Os comparsas da Animal

Contextualizemos: a virada dos 1980 foi um período fértil para as HQs no país. Foi um raro momento onde esta mídia exerceu influência e participação frontal na vida cultural brasileira. Angeli, Laerte, Luís Gê, Fernando Gonzales, Glauco e tantos outros deram a cara do país da reabertura democrática, da vida urbana de então, de suas neuras, impasses e tipos peculiares. Revistas como Porrada, Chiclete com Banana, Circo, Piratas do Tietê e Animal eram alguns dos órgãos oficiais deste Exército de Brancaleone. Porém, o funesto Plano Collor destruiu a economia do país e empatou a foda da classe média, sujeito social por detrás destas publicações. O sonho acabou.

Antes da Queda do Muro de Berlim dos quadrinistas, houve tempo para que uma revista que durou apenas dois anos marcasse toda uma geração de artistas gráficos e formar uma posterior: a revista Animal, editada por Rogério de Campos (hoje editor da Conrad Editora) e pelos artistas gráficos Fábio Zimbres, Newton Foot e Priscila Farias, com suas HQs gringas insanas, uma pequena legião de autores nacionais vanguardistas, colunismo social do underground paulistano e espaço para comportamentos divergentes e publicações independentes. “A Animal dava muita repercussão. Sair uma notinha sobre seu fanzine ou um desenhinho dava muito destaque pro seu trabalho. A revista pegava um público mais underground. Era uma época boa para os quadrinhos, o Angeli e o Laerte eram muito conhecidos. Teve uma última Animal, finalizada, que não foi pra gráfica por causa do Plano Collor, a galera da revista ficou mal pra cacete”.

Nos tempos da Animal, nasceu a relação com um dos maiores entusiastas de seu trabalho, Fábio Zimbres. “Eu levei o número zero do zine no Madame Satã, pra distribuir para a galera e lá estavam o Newton Foot e o Fábio Zimbres. Eu dei o fanzine pra eles e depois disso passei a ir na redação da Animal encher o saco do pessoal (risos)” Foi aí que, empolgado com sua produtividade, MZK saiu do trabalho. “Com 16 anos virei office boy em uma empresa de mineração. Viram que eu desenhava e me colocaram de auxiliar de desenhista de mapas e depois em um lance de comunicação visual. Mas nessa época entrei numa crise de artista, meio ‘vou viver de desenho e foda-se’. E foda-se mesmo, porque não arrumei nada e ainda perdi o esquema do xerox no meu trabalho onde fazia meus fanzines (risos)”. Nesse momento de desolação, conheceu o falecido artista gráfico mineiro Macarrão, um dos artistas com produção mais radical e inovadora a passar pela Animal. “Ele morava com o Fábio Zimbres e em algum lançamento de quadrinhos o conheci. Acabei dormindo na casa deles porque não tinha busão para voltar. Eles moravam em uma edícula na empresa onde trabalhavam. Comecei a colar lá depois da balada pra ir direto pro trabalho. Quando o Fábio mudou, acabei morando um pouco no lugar dele”. Macarrão recentemente foi imortalizado com um pequeno espaço para exposições no Clube Jive em São Paulo que leva seu nome. Obra de MZK, obviamente.

Schiavon, o mais incompreendido e mirabolante artista dos quadrinhos nacionais, mestre dos traços e situações absurdas e insolentes, também é um amigo dessa época. “Ele escrevia muito na Animal. Foi engraçado; achava que ele era mais velho. O conheci numa entrevista sobre fanzines na livraria Belas Artes. Nos identificamos de cara, ficamos meio inconformados com as perguntas ruins e começamos a zuar, o humor era meio parecido e ficamos amigos”. Pergunto como conheceu Allan Sieber, hoje conhecido autor de histórias politicamente incorretas, que publicou algumas histórias de MZK em seu zine Glória Glória Aleluia. “Foi pelo Schiavon, mas pra explicar como conheci ele teria que falar da ADM, mas não posso tocar nesse assunto (risos)”. ADM: sigla para Agentes do Mal, conluio secreto formado por ele, Sieber e Schiavon, que se não legou nada concreto ao mundo, deu uma zica danada para o trio, segundo diz MZK. Coincidência ou não, surge em sua casa um pequeno Mickey, avistado por sua companheira de vida, discotecagens e artes, Prila Paiva [N. de atualidade: atualmente,, separados]. Fico “noiado” instantaneamente: minha fobia de ratos é quase tão grande quanto minha vontade de terminar a matéria.

relíquia meso malaca na Choque Cultural, pra vender!

relíquia meso malaca na Choque Cultural, pra vender!

Riscando folhas e LPs

O pequeno roedor dá o ar de sua graça – MZK como caçador é um ótimo quadrinista – flanando por entre a vasta coleção de LPs que se espalha por um dos ambientes de sua simpática e espaçosa casa. Penso em correr; a vergonha me impede. Desencanar da pauta? Jamais. Meu pequeno algoz, escondido entre LPs, me lembra da ocupação pela qual MZK é mais lembrado pelas novas gerações: sagaz e versátil domador de grooves e latinidades, selecionando as pedradas que sacolejam os notívagos mais animados nas pistas de São Paulo.

“Foi meio que na época do Los Sea Dux (grupo de surf music grooveado onde MZK tocou maraca). Ir do rock pro rap foi meio natural. Eu achei por muito tempo que o rap tinha tomado o lugar do rock, pela atitute etc. E por causa dessa coisa do sampler, de querer saber de onde vinha aquilo, comecei a descobrir música latina, funk, fiquei interessado em tocar coisas dos anos 60 e 70. Comecei a andar pra trás (risos). Rolava umas festinhas na Estação Manda (produtora idealizada por Macarrão) e comecei a tocar lá. É tradição DJ começar tocando em festas de amigos”. Na mesma Estação Manda, aconteceu a primeira exposição de Jaca em São Paulo e foi onde surgiu a festa Jive, famosa por botar o samba rock na ordem do dia no fim dos anos 90, voltou a acontecer recentemente, após dois anos de férias.

Quem começou ouvindo Kiss e se apaixonou pela música indie dos anos 1990, puxa pela memória os sinais de sua conversão à música negra americana. “Eu pirava no Malcolm McLaren, concurso de break do [programa do] Barros de Alencar, do Thriller do Michael Jackson”. A paixão por música se manifesta de formas e intensidades diferentes. Sua exposição individual Enquanto isso… na galeria Choque Cultural em 2006, mostrava que além da linguagem das HQs, a música é crucial em sua estética. Capas de disco, que vão da coletânea No Major Babies até a capa do recém lançado álbum de Guizado, Punx, são outros momentos dessa relação. Mas o caldo engrossou graças ao seu interesse pelo rock do Sul do país. “Eu tinha uma viagem de fazer histórias das músicas do De Falla. Foi uma das bandas que mais curti nessa época e ainda curto. Fiz desenhos pro De Falla, pro Replicantes, pra fita K7 do Sangue Sujo – uma banda do Wander Wildner. Fiz a arte do álbum We Give a Shit (De Falla, 1990) etc. O legal do De Falla era que eles não se enquadravam em nada, gostavam de hard rock, rap, colocavam umas batidas eletrônicas e samples”.

Profissão desenhista

Quadrinhos, ilustração, DJ, músico; diante de tantas faces, qual seria a “verdadeira” face do mais famoso dos 7 irmãos Kuhlmann? “Sou desenhista. Porque acaba abrangendo tudo que eu faço. Tem uma coisa artística no meu trabalho, interpretação etc, mas não me vejo muito como artista em um modelo mais formal. Mas se quiserem achar, tá valendo (risos)”. Artista ou não, MZK expôs no Sul do país, em Londres e em Moscou e é representado pela galleria Choque Cultural.

Seu trabalho nas artes plásticas se nutre, obviamente, da estética das HQs, mas inclui também pesquisa de moais, máscaras africanas e escultura tiki – multiculturalismo pop. E há também evidente inspiração no grafitti. “Ainda criança, vi as coisas do [artista Alex] Vallauri, acompanhei a segunda geração do fim dos anos 80, John Howards, Jaime Prades etc, era muito classe. Fiz um evento chamado Energetic Zines em 93, convidei fanzines do mundo todo e, na segunda edição, onde hoje é o prédio da Polícia na Rua da Consolação (São Paulo) e antes era a Secretaria de Cultura, rolou um evento de grafitti, e eu e o Schiavon participamos também. E participaram o Tinho, OSGEMEOS e o Binho – eu nem conhecia eles direito”.

Se hoje MZK faz quadros em tela, usando tinta acrílica e algumas vezes spray, suas primeiras experiências foram em materiais menos nobres. “Comecei pintando em papelão, em moldura de poster que achava no lixo. Pintei em papelão por muito tempo, mas tem o lance de estragar rápido e fácil. Daí fui para a tela, usando tinta acrílica. Gostaria de tentar outras coisas, mas curto tinta sem água. Eu penso bem prático, uso materiais bem simples”.

Inspirado nas mesmas máscaras africanas que inspiraram Picasso, MZK se aventurou na confecção de máscaras que foram expostas na Choque Cultural. Porém, pra alguém afeito à tramas elípticas e misteriosas, entremeadas por um mistiscismo pop, fez-se necessário uma mitologia completa, que colocasse tais experimentos em um contexto maior. Surge então as máscaras e totens mesomalacos, espalhadas no corte de galhos das árvores de seu bairro ou escondidos em terrenos baldios, resquícios da civilização “pré-butu do Butantã”. “A ‘viagem’ seria a de um período butu, onde tudo estaria ruindo. Tinha uma coisa de eu e meus amigos chamarmos tudo que era ruim de butu. E era uma brincadeira com uma saudação havaiana, o “taboo tu” e o “ta bootu”. O pré-butu seria essas coisas que ficariam para as futuras gerações, uma espécie de arqueologia urbana. O pré-butu seria a civilização antes da merda que vivemos hoje. Me inspirei nessas coisas de lendas ancestrais – não sei especificar, mas tenho ascendência indígena. A gente é meio desenraizado, então é uma brincadeira com essa coisa de uma geração passada que deixou alguns artefatos”. Toda essa mitologia vem sendo desenvolvida no micro zine Ritual (duas edições, onde relata suas “descobertas” pré-butu) e terá seu ápice em uma exposição a acontecer em algum mês de 2009 [a expo está rolando agora, na Choque Cultural, como colocado no post abaixo]. “Não tem data certa. É uma história que estou desenvolvendo melhor”.

MZK lembra de uma futura edição argentina de suas tiras do Banzo e Benito, publicados no suplemento infantil da Folha de S. Paulo. Andando pelo bairro para fotografar os resquícios de tão engenhosa civilização, sorrio ao imaginar o possível efeito dessas máscaras e totens para o imaginário da molecada do bairro. O ciclo se completa: os fanzines que influenciaram MZK, a minha admiração posterior por suas obras, e a molecada, seja lendo jornal ou desbravando o bairro, fantasiando a partir de seu trabalho. Assim como o filme do Dr Lao e seu circo místico, top of mind de toda uma garotada dos anos 1980, MZK não se importa com as contigências da vida, seja um rato ou a dificuldade para publicar quadrinhos no país, e segue nos presenteando com seu ideário fantástico e hermético.

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EXTRA – Essa parte não entrou na revista +Soma

Você sempre teve relação com música né?

Quando eu era moleque gostava mesmo era de Kiss, mas eu sempre ouvi de tudo. Eu até ficava incomodado com punk na época porque me sentia meio fora, por ouvir coisas mais pop. Em São Paulo sempre rolava uma cobrança, tinha a pergunta clássica: “Você é punk?”(risos). E você tinha que saber qual era a de quem perguntava pra dar a resposta certa e não apanhar (risos).

Eu vi que você tinha uma banda chamada The Kulhmans na revista Animal…

É, era uma banda com meus irmãos. Tenho 5 irmãos e uma irmã por parte de pai. Por parte de mãe sou filho único. O Kuhlmans era muito louco porque gravávamos uma demo e mandávamos a original para alguém (risos). A gente gravava e compunha o tempo todo. Era eu e meus irmãos Ubiratan e Uirá. Mas a gente colocava meu pai tocando serra elétrica, colocava meus irmãos menores para participar, minha irmã com 5 anos. A gente afinava um violão pra ficar com um riff e ficava tocando aquele bordão, meio punk meio guitar bands. No início dos meus fanzines eu vivia bem o underground de São Paulo – Retrô, Madame Satã etc. Tudo isso depois que saí de Santos. Porque em Santos só tinha um lugar chamado 415  onde rolava punk, gótico, skatista, careca tudo junto.

Lá tinha o Garage Fuzz, por exemplo.

Eu conheci o Farofa – ele tinha uns 14 anos. Ele morava umas duas quadras da casa da minha vó. Eu conheci ele nessa época que escutava Iron Maiden e Kiss. Aquela época de pasta de banda, colecionar matéria etc. Eu lembro do Vírus 27, que era de São Vicente. O engraçado era que o apelido do baterista deles era Kiss porque era dono do fã-clube da banda, tinha até uma rosa do Paul Stanley tatuada (risos). Eles viraram depois uma banda punk.

Você pegou uma época louca de música underground em São Paulo, tinha o Mickey Junkies, o IML, Pin Ups, Tube Screamers…

Pois é, essa geração podia ter dado mais certo. Mas acho que era uma época de pouca grana, sei lá. Se tivesse a tecnologia de hoje, teria muito mais material dessas bandas. mesmo o Sea Dux que eu toquei, teve só um compacto.

Como você foi parar no Sea Dux tocando maracas?

Grosseiramente, foi culpa do Macarrão. A gente tava numa fase meio lisérgica da vida, com vários ideais a realizar, querendo revolucionar as coisas etc. Ele resolveu juntar uma galera que ele era amigo, o Don KB, o Magrão, o Tony (todos do Sea Dux), o Luigi e queria fazer uma produtora. Eu tava naquela época de querer enfrentar minha vida como desenhista mas tava mofando na casa do meu pai porque não arrumava trabalho. Eu fui fumar unzinho com a galera numa casa e rolou a idéia de fazer a produtora, eu tinha sido assistente dele no clipe “Brasil, Banana e Samba” do Yo Ho Delic (clipe pioneiro em computação gráfica no Brasil) e ele me colocou na jogada. O Sea Dux já existia, era formado pelo Don KB e Avenal, dos K-Billies, e o Magrão que era do S.A.R, que tinha o Tony e o Luigi também. Eles ensaiavam na Estação Manda, o espaço que o Macarrão concebeu para ser essa produtora e a gente abraçou. Infelizmente ele faleceu na sequência. A gente não fez mais animação mas fez clipe do Little Quail, do Ratos do Porão, que nem era muito bom (risos). Foi entrando muita gente no Sea Dux, chegou a ter 7 pessoas.

Causou impacto esse vídeo na época né?

Foi, mas devia ter sido mais, porque foi um lance bem artesanal. O clipe foi gravado em Pouso Alegre, na periferia da cidade, fomos em baile black etc. Passamos quase um mês lá, hospedados na casa dos pais dele. Capturamos as imagens e fizemos tudo em rotoscopia. A gente aprendeu muita coisa fazendo essa parada. Ele quis fazer esse clipe nessa piração de revolucionar as coisas.

Teve essa piração toda de arte urbana e acabaram te colocando nesse meio também, né? Por exemplo, quando você começou a fazer coisa na rua? Teve contato com o povo do grafite.

Foi no fim dos anos 1990, acho que em 98. Eu trombava OSGEMEOS, mas os primeiros com quem tive contato mesmo foram o Onesto e o Boleta. Eu tinha medo de usar spray – só agora uso bastante. Eu ficava incomodado de ser rotulado como grafiteiro, porque não é a minha, mas sempre tive influência de grafite. O quadrinho urbano tem influência de hip hop, de grafiti.