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A Orquestra Invisível de DJ Nuts

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Fotos por Fernando Martins

Essa foi uma das entrevistas mais legais que a gente fez na revista. Essa foi uma das poucas matérias que fiz em parceria com o Tiago Moraes, infelizmente. Ao contrário do que dizem por aí, o Nuts foi super atencioso, bacana mesmo – contrariou toda a fama de ser arrogante etc. A casa do cara é o sonho de 10 em cada 10 aficcionados por música brasileira, é muito cabulosa. O texto aqui apresentado é uma versão maior e um pouco mais bruta do que foi publicado na revista.

“Latest news, consegui uma das 32 cópias do LP Paraibô, de Hugo Filho, agora já ERA!”

Essa frase, enviada dias após a entrevista diretamente de Los Angeles – onde Rodrigo Teixeira, 31, mundialmente conhecido como DJ Nuts, acompanha o MC Marcelo D2 – sintetiza um universo. O que ele chama de psicopatia – sua busca infinita por discos raros e preciosos – se traduz no ambiente de seu apartamento: os discos são onipresentes, se espalham pelos corredores, por debaixo da mesa e chegam a seu estúdio, onde são devidamente organizados e reverenciados pelo paulistano, que se iniciou na arte de manipular toca-discos em 1991.

Em quase duas horas de conversa com a +Soma, Nuts falou sobre suas influências, seu interesse por música brasileira, que já rendeu 4 Mix Cds – e vem mais pela frente –, o trabalho tantas vezes ingrato de ser DJ, rap gospel, OMB, música psicodélica nacional, Hermeto Pascoal e sua ambição atual: se tornar maestro. E avisa: Marcelo D2 foi à procura da batida perfeita, mas quem criou o samba-rap foi ele.

Qual era teu interesse musical no início?

O primeiro disco que eu comprei foi este (mostra o álbum Diary Of A Madman, de Ozzy Osbourne). Ouvia Kiss também. Mas no final dos anos 80 já comecei a escutar dance music européia. Rap ainda não era bem aceito por aqui.

E como era essa época?

Eu fui nas três primeiras raves no Brasil, no Hell’s. Curtia estilos diferentes. Meu mestre foi um cara chamado Marcelo 2Da Bone, primeiro produtor dos Racionais MCs. Foi ele quem me ensinou a tocar. Ele era do Dynamic Duo. Quando eu ainda não tinha toca-discos, alugava um estúdio e gravava mixtapes para as pessoas na escola. Foi nessa época que surgiu o tape deck duplo. Era a época dos DJs Grego, o Celsinho Double C, Valter Benacca, um pouco depois o Renato Lopes, o Marquinhos MS, que já faleceu, o Mau Mau. Observei muito DJ de outros estilos para chegar aonde cheguei. A coisa de equalização, de comparação de métrica, veio mais do techno, e acabei fazendo isso no rap. Isso foi influência de DJs de outros estilos. Ainda mais em uma época em que o rap não era bem vindo. A classe média não escutava, era coisa de maloqueiro. Fiz uma equipe de som com um amigo de escola, usávamos a vitrola dos nossos pais, mixers e iluminação horríveis, feita com lata de óleo. Logo me especializei em rap, e o meu parceiro, em techno, que foi o começo do jungle.

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(Nuts sai para atender o telefone. Começamos a falar sobre o projeto Keepintime, que uniu bateristas que gravaram clássicos do balanço e DJs, que trabalham a partir dessas gravações, incluindo o próprio Nuts.)

[Para os músicos mais velhos,] foi uma resposta de vida. Existe o sentimento de que no Brasil os músicos são esquecidos, e é verdade. Só os tropicalistas são lembrados, desse período. Mal se fala sobre Flora Purim, Hermeto Pascoal, que é o maior músico contemporâneo do país. Eles sabem que nós, DJs, entendemos os motivos e os propósitos do trabalho deles. Conhecer músicos como Lula Côrtes (com quem Nuts pretende gravar um disco ainda este ano), Arthur Verocai, Wilson das Neves, João Parahyba, Élcio Milito, Mamão, Dom Romão, João Donato… É um prazer encontrar essas pessoas e desenvolver coisas juntos.

No meio dos DJs, só faz esse rolê quem tem profundidade, entendeu? Nossos amigos não se medem por dinheiro, se medem – medem mesmo – conforme o conhecimento e a profundidade. Se você tem algo a oferecer, ou algo pra conversar, algo pra ensinar, é bem vindo.


Você já conheceu o Hermeto?

Cara, é um sonho da minha vida. Mas é o seguinte: eu tenho vergonha na cara! (Risos.) Não tenho cacife pra conversar com ele. Tenho um amigo escocês que em 2006 queria me apresentar para o Hermeto. Mas pra quê? Não tinha o que apresentar para ele. Quero conhecer o Hermeto no dia que eu for alguém, quando for um mestre no meu trabalho. Tô passando por uma fase que eu falo que é a minha faculdade, aprendo as coisas com colecionadores e músicos, comprando discos. Não vou parar de comprar discos, mas quero acabar com essa psicopatia. É muita dedicação, todo o dinheiro vai em disco e, assim que eu pegar a conclusão do meu “curso de discos”, quero tirar a música de dentro de mim. Gente que ouve música boa quer fazer música boa. Eu quero fazer música tão boa quanto os discos [que eu ouço]. Com instrumentos, arranjos, algum maestro. Eu tenho ambição de ser maestro. Não importa que eu tenha 31 anos, quero ser maestro!

Tudo azul para um dos maiores DJs do país

Com o fim da sua “faculdade”, você deixaria de ser turntablist?

Sim. A vida dos DJs é estranha, tem muitos problemas de ego etc. Para mim, fazer uma festa bombar é o mínimo! Eu me acho abençoado por Deus de poder chegar em uma festa e botar todo mundo para dançar. Hoje eu dependo disso, trabalho com estilos musicais que fogem do meu gosto. Eu não ouço rap comercial, mas toco na noite. Quando eu era mais jovem, entrava em conflito com isso. Hoje vejo que faz parte da minha missão. E esse trabalho é melhor do que qualquer outro tipo de trabalho. É graças ao meu trabalho na noite que eu faço a pesquisa, porque são as festas que me permitem comprar discos toda semana. Se não fosse assim, eu estaria com minha bandeira de underground por aí. Já tive posicionamento de underground e hoje eu sou todas essas coisas juntos. Encontrei uma harmonia dentro de mim.

Conhece outro DJ no Brasil que faça pesquisa como você faz?

Se tiver alguém você me fala, porque eu não conheço! Vejo jovens emergindo aí, fazendo o que eu fazia. Quero ver se vão chegar nesse grau de psicopatia que eu cheguei. Porque colecionar por moda não adianta. Se você faz arte, é para colaborar com a própria arte, dar retorno. Artista para mim é isso, não nego que fica inflando o ego igual balão.

Com o mix CD Cultura Cópia e os três volumes do Disco é Cultura, você começou a mostrar uma primeira etapa dessa sua pesquisa em música brasileira, certo?

Em 2004 eu tava em um período ruim da vida. Quando olhei para minha vida eu só tinha os discos e uma tape deck. Não tinha nem um PC para gravar. Olhei meu tape deck e fiz [o Cultura Cópia] em fita K7, depois passei para CD. Encontrei com o Kiko (o artista Nunca, que fez todas as capas de seus Mix CDs), trocando idéia sobre modernismo, antropofagia etc. Eu falei “vamos pegar sua arte e a minha e fazer um lance juntos”. Fiz uma demo de cem cópias e um mês depois tinha uma proposta da revista Wax Poetics. Eles deram o CD para todos os assinantes da revista, que são os maiores produtores e colecionadores de disco do mundo. Foi um bom começo.

As três edições do Disco é Cultura saíram no exterior?

Saíram. Mas o único que foi lançado como CD, em maior escala, foi o Cultura Cópia, e mesmo assim em pequena escala. Com o Disco é Cultura 1 e 2, quis fazer um lance mais profundo, tiragem só para amigos, 500 cópias cada. Ninguém pode me cobrar nada, porque não vendo os CDs, eu dou! Não quero dez reais em um CD, se me pedir eu dou. Sou generoso. Quer música? Toma! Pra mim é difícil fazer, mas é fácil dar. Procurar é difícil, mas para ouvir é só apertar o play e você tem ali o néctar da música. O volume 3 é uma mixtape de sambalanço/samba jazz e aconteceu uma coisa boa também. O Gilles Peterson, um dos DJs da BBC mais influentes em Londres, estava no Brasil. Ele pirou na parada e bancou minha passagem pra lá. “Tô levando o Ed Motta pra Londres e vou levar você também, mesmo que não esteja no orçamento.” Ele fez um especial na BBC e tocou o disco todo. Foi foda, porque ele forma opinião no mundo inteiro, para um público maduro. E lá foi a primeira vez que peguei uma pista cheia e toquei um samba jazz. Quando eu via uma pista cheia, sempre tocava rap ou samba rock. Nunca tinha tido a oportunidade de tocar um som dessa qualidade para uma pista cheia dançar. Em Londres, quando toquei um Tenório Jr., todo mundo dançou. Fiz a turnê toda abrindo os shows do Ed Motta. Tudo isso em 2006. Fiz música, fui respeitado, comprei um monte de disco e quando voltei pintou uma nova perspectiva pra minha vida.

O que você mais se orgulha de ter apresentado nessas quatro mix?

Com certeza é o Krishnanda, do Pedro Santos. Tinha uma época que só eu e o Ed Motta falávamos dele. Já tive 4 cópias disso e passei para frente. (Visivelmente animado.) Ah, vá! Foi o disco que eu descobri e apresentei para os outros! (Risos.) O Pedro Santos é um percussionista super criativo, tocou com a Maria Bethânia, com o Sebastião Tapajós – com quem fez longa parceria. Esse disco é de 1968, produzido pelo Élcio Milito. Quando conheci o Élcio, entendi que o Pedro Santos é um cara super importante para ele. O Pedro criava instrumentos, ele tinha um set de bambu, por exemplo. O Élcio era do Tamba Trio, e o tamba é um instrumento que tem bambus no lugar do chimbal. Foi o Pedro que apresentou a tamba pra eles. O Krishnanda pode ser chamado de afro-brasileiro, mas tem elementos indianos. É um disco importante na minha vida.

Quais são os DJs que você curte, parceiros que te estimulam etc.

Gosto muito do Yellow P, vejo ele como um moleque de bom propósito, que tá fazendo o lance dele direitinho. Eu gosto muito do Renato Lopes, que tem uma postura de DJ que eu admiro. Gosto muito do Mau Mau. Também vi muito o Marky tocar, é um DJ que eu nunca vi errar uma virada. E o único DJ de rap que eu realmente admiro, que posso dizer que é um DJ bom que eu vi cruzar o meu caminho, é o Primo.

E na gringa?

Gosto muito do D-Styles, é o meu DJ predileto. Admiro as direções que ele toma. D-Styles é influência de vida, é um cara que eu entendo, vi ele tocar de pertinho e achei o máximo. E o [Mix Master] Mike também, adoro ele. Admiro o Mike pra caralho, pela capacidade dele de destruir. Pode pular o disco (grita e gesticula, como se o disco pulasse), que ele vai lá e… (faz uma série de ruídos com a voz, como se estivesse rodando o disco com pressa)… volta pro ponto… (mais barulhos), entendeu? Adoro isso. É uma lição.

Você está pesquisando música psicodélica brasileira. Vem alguma coisa daí?

É um trabalho que eu quero concluir agora, pra poder passar a outros estágios da minha vida. Porque eu sou só um moleque que vai atrás de discos, entendeu? Eu preciso crescer. Depois da conclusão dessa minha nova pesquisa, terei permissão seguir em frente. Eu conquistei todas as áreas que precisava: black soul music brasileira, samba rock, bossa nova, samba jazz. Tenho todos os discos que eu conheço, que eu queria. O rock psicodélico, folclórico e progressivo é a área que eu colecionei bastante, e é hora de colocar tudo para fora.

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Esse recorte abrange desde aquelas bandas de garagem, psicodélicas, da década de 70, até esses grupos do Nordeste, Zé Ramalho, etc.?

Só não abrange o que chamam de beat, que é uma onda mais jovem. A praia é música que pessoas normais não conseguem ouvir. Eu quero que uma pessoa normal tente ouvir [esse Mix CD] e não consiga chegar até a terceira música. Tenho 25 minutos prontos. O resultado dessa pesquisa vai ser um catálogo que é uma tiração de sarro com o Hans Pokora, um austríaco que publicou cinco livros sobre os discos de rock mais raros do mundo. [Nos livros dele] tem uma seção sobre o Brasil. Eu quero mostrar os discos que estão no livro do Pokora, mas em áudio. Vou fazer um Mix CD e um livrinho com todas as capinhas e cotações dos discos. Tudo dentro da psicodelia, amarrado dentro da mesma linguagem. Acho que vai se chamar Record Collector Dreams, que são os discos mais procurados no mundo inteiro. Psych Folk Prog from Brazil. Inspirado e tirando um sarro do livro do Pokora. (Risos.)

Sobre a regulamentação da profissão de DJ, a questão de a pick-up ser um instrumento ou não. Conversei com alguns DJs, e eles dizem “foda-se, quem é a OMB pra falar se eu sou um músico ou não?”

Eu tenho um sonho de ir na OMB tirar carteira de músico. Pra mostrar que essa porra (aponta para os toca-discos) é um instrumento. Você pode tocar o “Danúbio Azul”, se quiser. (Cantarola a melodia e depois a cadência, imitando o som do scratch.) A primeira música que eu tirei foi bem difícil: “Eu e a Brisa”, de Johnny Alf. Eu sei tocar “Eu e a Brisa” com toca-discos. Eu pensei “ah, tenho que ir lá na OMB mostrar essa porra!” (Risos.) Porque todos os DJs que tiraram carteira de músico foram lá e sacudiram um pandeiro. Eu tive um impasse com a OMB quando tocava com o Rappa. Tipo, “e o DJ, não tem OMB?”. “Não, o DJ não tem OMB.” Daí teve brigas, tentativa de multa, tudo mais. [O toca-discos] é tanto um instrumento de melodia como de percussão. Eu não tenho carteira assinada, não tenho aposentadoria, não tenho nada que garanta a minha velhice. Ou eu ganho dinheiro agora ou viro um velho sem grana.

A primeira vez que eu descobri que o toca-discos era um instrumento foi vendo o Kid Koala tocando. Não acreditava que o cara tava fazendo aquilo, solo de trompete etc.

Dá pra se mexer com tudo que tá em vinil. Se você tem uma nota livre no disco, pode manipular ela. (Nuts manipula escalas musicais no toca-discos, via scratch. Produz um tom e sua oitava aumentada.) Se você colocar um “iiiiiiin”, pode tocar “Iron Man” se quiser. (Cantarola o riff de “Iron Man”.)

Além do seu trabalho com o Marcelo D2, lembro do grupo Nitro, com o MC Paulo Nápoli. Era bem diferente dentro da cena rap daquela época. Queria saber mais sobre este projeto, e se você tem vontade de fazer outras coisas do gênero.

A gente se conheceu na escola, jogando basquete. Gostávamos de música e fizemos um grupo de rap na igreja. Isso em 94. A gente visitava igrejas e cantava rap. Eu era o DJ do grupo e tinha mais umas quatro pessoas. O Nápoli é de família evangélica e me levou para a igreja para ser DJ. O grupo se chamava Consciência Cristã. Foi um período muito legal, porque me senti útil, falei coisas boas etc. Acho que a gente influenciou muita coisa dentro do rap gospel, que evoluiu muito. Passou um pouco de tempo, lá por 1997, e montamos o Nitro. Lançamos a demo Palavras Cruzadas. Foi o começo da liberdade na cena rap daqui. Surgiu a cena de freestyle, e a primeira batalha daqui eu fui DJ, na feirinha da Pompéia, com o Max B.O e o Nápoli. Tudo que diz respeito a essa coisa do rap underground foi a gente que criou. Com respeito a todo mundo. Até então no rap tinha-se medo de expressar idéias diferentes, muito ganguismo. Aliás, eu comecei a tocar como DJ com uma rapper chamada Rose MC. Ela foi uma das primeiras rappers do Brasil. A Rose me descobriu muito jovem. Eu sou dessa geração, que vivia ali no centro, peguei o fim da era do [Metrô] São Bento, antes da internet. Trocávamos informações através de pastas, recortes de matérias etc.

O Nitro eu vejo como a base de uma linguagem nova no rap daqui. O rap nacional teve uma época muito criativa, em que se falava de várias coisas, no fim da década de 80 até 91, mais ou menos. Depois isso morreu, e [o rap nacional] virou uma coisa mais de periferia, de gangue. Tenho outro mix CD quase pronto para lançar, chamado Máquina de Dança, só com rap nacional antigão. Vai mostrar uns raps que os manos têm vergonha de lembrar. Pepeu, MC Kid, as produções do Marcelo 2daBone, Thaíde & DJ Hum, Ndeee Naldinho, Duck Jam… Amo essa época!

3 LPs de rap nacional:
Dynamic Duo – Don’t You Know (Tim Maia Racional) (Fat Records)
Vários (Thaíde DJ Hum, Código 13, MC Jack e outros) – Hip Hop Cultura de Rua (Eldorado)
Vários (Racionais MCs, Gregori, Sharylaine…) – Consciência Black (Zimbabwe)

3 LPs de black music nacional:
Tribo Massahi – Estrelando o Embaixador (Riversong)
Amado Maita – Amado Maita (Copacabana)
Arthur Verocai – Arthur Verocai (Continental)

3 LPs de psicodelia brasileira:

Banda Espectrum – A Geração Bendita (Todamerica)
Marconi Notaro – No Sub Reino dos Metazoários (Rozenblit)
Pedro Santos – Krishnanda (CBS)

3 LPs de bossa nova:
Werther – Werther (Stylo)
Sérgio Ricardo – Esse Mundo é Meu (Forma)
Moacir Santos – Coisas (Forma)

3 LPs de rap golden era:

Lord Finesse DJ Mike Smooth – The Funky Technician (Wild Pitch)
Chi Ali – The Fabulous (Relativity)
Tim Dog – Penicillin on Wax (Ruff House)

Saiba Mais:
http://www.myspace.com/djnuts