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Momo – Existencialismo e Esperança

Texto publicado na +Soma 9 – aqui, com leves alterações. Eu gosto muito do trabalho do músico carioca, acho um dos bons nomes dessa onda de cantores/compositores que não tem o nome lembrado nas listas de críticos descoladinhos – o mesmo acontecendo com o Kiko Dinucci, por exemplo. Nesse sentido, foi muito bom trabalhar na +Soma: falar de arte sem ter preocupação em agradar panelinhas, afinal, não sou de São Paulo, não devo, não temo e me dá meu copo de cerveja. Praw!

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Retratos por Pedro Arruda

O músico por trás do pseudônimo Momo, Marcelo Frota, 29, é tido como um dos nomes mais importantes de algo que seria uma possível cena folk brasileira. Fato é que seus dois álbuns (parte de uma trilogia), A Estética do Rabisco (2006, Dubas Música) e o recente Buscador (Dubas Música/Trama Virtual), contam histórias simples e bem-acabadas de amores, de fatos prosaicas – uma poética cara a qualquer pessoa. Versos sobre flores, tempestades, nuvens, espinhos e pedras. Amores desesperançados. Redenção. A melancolia do primeiro registro ganhou a companhia “quase” ensolarada do novo álbum (cinco das dez faixas citam o sol). “Não diria alegria, mas sim esperança. É um disco mais esperançoso que o primeiro. Daí as metáforas dos sóis que aparecem nas letras. Estou aprendendo a amar a vida”, explica Marcelo, que integrou também o grupo carioca Fino Coletivo.

Digo ao músico, que aprendeu os primeiros acordes tocando temas da bossa nova, que acho um tanto disparatado enquadrá-lo em um rótulo folk, já que visivelmente dialoga com certa tradição de música brasileira, onde entraria Fagner, Belchior (sim, ele: o “quase”desaparecido) e Clube da Esquina – a música “Espinho Desaguou” entraria pela porta da frente no primeiro álbum de um Lô Borges, por exemplo. “Mesmo? (risos) É que MPB é Maria Rita, Rita Ribeiro, coisa de cantora, Djavan… Escutei muita MPB, mas também escuto muita música americana, Willie Nelson, James Taylor… Tenho um pé nessa música mais pura mesmo, orgânica, sem eletrônicos e modernidades”.

A melancolia em tons pastéis de seu primeiro registro conquistou a crítica nacional e a internacional, com críticas muito positivas de publicações como Down Beat, Chicago Reader e Muziq. Referências a Nick Drake e Devendra Banhart surgiram, e um crítico estadunidense chegou a colocar A Estética do Rabisco ao lado de , de Caetano Veloso, como o melhor disco brasileiro daquele ano. Nem tanto lá, nem tanto cá, covenhamos. Se colocou gregos e troianos diante de seus pés no primeiro trabalho, tudo leva a crer que Buscador dará um passo adiante; o disco o coloca em um meio termo entre um Marcelo Camelo e as predileções setentistas de um Cidadão Instigado. A faixa de abertura de Buscador, “Seu Amor”, é um soft rock que não envergonharia um Robert Wyatt e faria bonito no repertório do compositor do Cidadão Instigado, Fernando Catatau. “Gosto muito do Cidadão e vejo sim um elo entre o nosso som. Com certeza temos em comum uma admiração pelos compositores “malditos” da MPB, a turma que não é da Bahia. Atualmente estou mais pra Jovem Guarda do que pra MPB cabeçuda, com letras sofisticadas e carregadas de enfeites”.

“Tristeza se vá  / não quero mais sofrer / entenda que em mim / não mora mais. / Tristeza de bar não vou te abraçar. / Me espera um amor / Não morra / O sol nascerá”. (Tristeza)

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Em Buscador, MoMo é acompanhado dos músicos Adriano Barros (guitarra), Bruno Braggion (bateria), Caetano Malta (baixo) e Fabio Pizzo (casiotone), e há ainda a oportuna participação do trombonista Max Sette (Orquestra Imperial) e Regis Damasceno (Cidadão Instigado e Mr. Spaceman). O quanto influenciariam estes músicos na construção do Momo? “São músicos com muita personalidade e acrescentam demais. A concepção do som foi uma viagem minha que nasceu no disco anterior. Buscador é uma continuidade mais elaborada”.

Quando começou a tocar violão aos 13 anos, as influências vieram, além da bossa nova, de Chico Buarque, Caetano Veloso, Jorge Ben e da turma do Clube da Esquina. Recentemente, conheceu o trabalho de Devendra Banhart e Antony and the Johnsons. Mas toda essa bagagem não está comprimida em seu trabalho – o artista se destaca por alcançar um grau de profunda depuração que não o torna uma colcha de retalhos. Pergunto sobre o peso da bossa nova em sua música. “Não vejo uma identificação do nosso som com a bossa. Estou mais para as batidas “chacundum” da Jovem Guarda. Mas gosto muito da parceria Vinícius e Tom, é muito visceral”. E sobre música folk, quais são seus artistas prediletos? “Gosto de Nick Drake, Leonard Cohen. Dos novos gosto de Fleet Foxes”.

“Preciso ser pedra. / Sou areia / areia sempre morre / na praia. / Preciso ser mais leve / assim como pena / que se descola do bicho / e voa. / Mas colaram meus pés no chão. / As mãos estão atadas pelo cansaço / aprisionaram meu pensamento / calaram meu vômito /  domesticaram minha felicidade”.  (Preciso Ser Pedra)

Essa miríade de influências encontra um momento inaugural ao se mudar para Angola. “(Foi) uma experiência muito positiva para uma criança. Convivia com estrangeiros, pude pela primeira vez entrar em contato com as diferenças do mundo e pude entrar em contato com aquela cultura fantástica – ficou tudo guardado na memória, como os discos de Waldemar Bastos”. Aliás, seja pela temática quanto pela sonoridade, há fina ligação entre os dois artistas a ser pensada.

Os dois álbuns do Momo fazem parte de uma trilogia a ser completada. O elo entre eles seria a organicidade em torno de uma mesma temática, que reuniria “conflitos, tristezas, a esperança – o amor em um sentido mais amplo.” Buscador seria o momento dessa série da busca espiritual, existencialista. Um momento onde surge a esperança, vista através da imagem solar, é o mantra “Tristeza”, cujo título já indica o movimento pendular do anima do artista. Afinal, Momo é uma estilização de certa faceta do músico Marcelo Frota? “Sim, o Momo é minha verdade, a forma mais direta que encontrei para falar de coisas tão íntimas e pessoais. É minha essência. Verdade = inconsciente, entendeu?”

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Atualização:

Aqui, o link para o novo disco, “Serenade Of A Sailor”, e abaixo uma participação recente do músico em programa da TV Cultura: