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As Fantasias de Rodrigo Bivar

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O Rodrigo Bivar é um dos pintores que eu mais curto. Na Soma 8 fiz uma matéria sobre os novos pintores de São Paulo. Foi um jeito de colocar na pauta do dia, para o público da revista, mais afeito à arte urbana, a arte da rapaziada mais ligada aos cursos universitários de artes plásticas. O Tiago Mesquita, do blog do Guaciara, foi, obviamente, muito importante para que um pateta como eu não cometesse deslizes ao falar de algo que só entendo como fruidor, sem maiores instrumentos para avaliações profundas.

Rodrigo está com uma expo individual na Galeria Milan, aqui em São Paulo, muito bonita. É legal ver que o horizonte dele, sempre calcado nesse interesse pelo lugar fantástico que a realidade suporta, expandiu e muito. As imagens que publico aqui são de trabalhos anteriores a esta exposição. Vale dizer que quem quiser ver o trabalho dele, tem até quinta-feira dessa semana.

O que publico abaixo, são extratos do bate-papo que levei com o artista no fim do ano passado e não a matéria que saiu na +Soma. Espero que curtam!

Eu vi como você trabalha a partir da fotografia. O que te levou para a pintura figurativa?

Na época da faculdade eu cheguei a fazer pintura abstrata, mas não saia nada, não ia para lugar algum. Eu não tinha norte e ficava meio perdido. Eu sempre tive prazer de pintar – ainda que isso não impossibilite de fazer outras coisas. E a dificuldade da pintura me agrada. Tem uma angustia natural a pintura que você tem que resolver. No fim das contas, a coisa se resolve na própria pintura. É aquele lance que o Hitchcock fala “a forma gera conteúdo”. Precisava achar um objeto que se resolvesse na pintura. Por exemplo, essa pintura (trata-se de pernas femininas vistas de baixo para cima), isso é uma perna, mas pode ser um tronco também, mas óbvio que conseguimos reconhecer como uma perna até pela cor. Mas poderia pintar um tronco com esse mesmo tratamento – não é uma questão de ser realista. Figuração funciona como uma estrutura. Essa série das crianças fantasiadas tem essa coisa da criança acreditar de fato que é um pirata, um cavalo. Mas quando escolho a imagem eu penso mais na questão plástica. E pintura figurativa é identificável por qualquer pessoa, não precisa ter uma mediação erudita. Óbvio que quanto maior seu repertório melhor, mas não precisa.

Descoberta da pintura.

Eu sempre gostei, mas não sabia se poderia fazer isso da minha vida. Aí na faculdade eu descobri de fato que queria isso. Antes da faculdade eu desenhava e fiz um curso de aquarela.

Sobre a opção de pintar.

Olha, eu acho que tem muita gente pintando agora. Não quero ficar muito nesse lamento de “ah, ninguém pinta” etc. Acho que o que inibe é que a pintura demora muito.

A pintura fala muita coisa pra você. Você coloca um vermelho aqui e o outro lado pede outra cor. Se você se distancia do ateliê, você não percebe esse tipo de coisa. Essa discussão de a arte sair do ateliê é exigir uma uniformidade que não é saudável. De repente, o cara sentado numa mesa encontra o que  ele precisa saber. Eu preciso do silêncio, de ficar no ateliê pintando. Fica muito uma coisa de ou é no ateliê ou é na rua. Pode ficar muito uma conversa pautada pelo meio e não pelo trabalho em si. Ninguém pergunta se uma banda ensaia em estúdio ou na garagem. O que importa é o resultado final.

Sobre a participação no grupo 2000e8 (nome dado a exposição de um grupo de amigos que teve grande repercussão em São Paulo e tinham como uma espécie de mentor o artista plástico Paulo Pasta).

No início era mais simples mas tomou caráter de grupo. Era um projeto de fazer uma exposição com autonomia, do nosso jeito. Mas foi um processo difícil e demorado, por isso tomou caráter de grupo.

A troca de idéias no grupo.

Rolava depois de ver os trabalhos prontos. O grupo tinha um papel importante nessa parte do processo. Não foi muito planejado: naquele momento eram aqueles oito que estavam por perto.

Foi importante essa participação do Paulo Pasta?

Vendo hoje eu aproveitaria a faculdade de outro jeito. O Paulo Pasta foi, é e continuará sendo importante para mim, porque é um cara que não tem preconceitos, rola conversa fácil, te dá muita liberdade.

Teve um efeito midiático grande…

Teve, rolou um negócio que saiu do controle. O reconhecimento chegou antes do trabalho (risos). Chegou até a encher o saco. A gente tinha meio que um pacote cultural pronto. Por isso que atraiu tanta imprensa. Teve até proposta em agência de publicidade. O trabalho na verdade começa agora. Provar se é mais um desses oba obas ou tem alguma coisa pra dizer mesmo.

Sobre a crítica de arte.

Eu acho fundamental. Você não tá sozinho no mundo. Não dá pra fazer arte só para quem faz arte. Essa interlocução é importante. Tem que ouvir o que os caras falam. E críticos tem outra informação e nesse sentido é bom.

Nas tuas pinturas, ainda que haja um grau de realismo, tem o estranhamento, sobretudo pela tonalidade de seus quadros.

Eu lido com alguns limites. Não conseguiria fazer uma coisa muito colorida. A liberdade só acontece quando você se impõe alguns limites. Faço uma pintura mais rebaixada, mais calma. O tempo que demoro pra fazer a pintura é, de certa forma, o tempo que a pessoa precisa para ver o quadro. Não é uma fuga, mas a pintura é um lugar para fugir para outro lugar, um artifício. Não é algo pretensioso de ir para a galeria para fugir da vida. Não pinto para fazer um reflexo do mundo que eu vivo. Tem o aspecto formal, que eu acho mais legal do que se fosse muito colorido e extravagante e essa coisa da calma.

Pintura x fotografia

Tem o aspecto plástico, de algumas cores não se resolverem na pintura. Tem também a coisa de não precisar reproduzir a fotografia, porque o legal da pintura é essa coisa de você se perder um pouco, não saber onde vai dar.

Eu achava que pintura abstrata era mais fácil. E eu percebi que não tinha interesse naquilo. Eu gosto de uma história na pintura.

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Qual é a grande narrativa de seu trabalho?

Eu tô fazendo essa coisa de criança fantasiada, tô pensando em fazer uma série no zoológico, em fazer um vídeo. A pintura é um artifício – ela não tem profundidade, é plana e você acredita naquilo. Tô interessado na coisa da fantasia, de acreditarmos nas coisas que não são.

O voyeurismo em suas pinturas.

Foi um lance que aconteceu, não tinha pensado nisso. Fui fazendo fotos de coisas que me interessavam e essa característica se revelou. Acho que é isso: se eu já sei o que vou fazer, não faço.

Relação com o gênero retrato.

Tem o ser humano que sempre vai interessar. Pega um quadro do Manet. Você pode não conhecer a pessoa retratada mas aquilo te interessa. Porque cada ser humano tem uma singularidade, ninguém é igual ao outro. O interesse no retrato é a vontade de falar da vida, de coisas prosaicas.

A pintura e a relação com outros gêneros?

Eu vejo muito cinema, gosto de música. Pintura dialoga com tudo. Na pintura eu encontrei coisas que me instigam, problemas que me interessam.

O mercado de arte

Eu escolhi fazer pintura, então tenho que viver disso. Tem que fazer exposição, procurar galeria. Tô conseguindo viver de pintura, o que é bom porque posso me dedicar a isso todo dia.

Esse quadro este numa coletiva no Centro Cultural São Paulo e era em tamanho real, muito bonito mesmo.

Esse quadro este numa coletiva no Centro Cultural São Paulo e era em tamanho real, muito bonito mesmo.