Estilo de Vida Free Jazz Segundo Peter Brötzmann

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Por Arthur Dantas . Tradução das falas de Brotzmann por Luciano Valério

(publicado originalmente na +SOMA 7. Aqui, com alteraçòes significativas)

“Eu não tenho muitas expectativas, na verdade; só espero que as pessoas venham. Nós vamos fazer o que sempre temos feito: dar o melhor de nós mesmos e ver como o público reage, se irão gostar ou não.” Essa declaração de Peter Brötzmann, um dos maiores músicos de free jazz em atividade no planeta, sobre sua apresentação recente no SESC Vila Mariana, em São Paulo, reflete muito de sua postura em relação à música: toca apenas o que lhe interessa no momento, sem preocupação com convenções ou regras específicas. Brötzmann, que tem mais de cem discos gravados em 40 anos de carreira, veio acompanhado dos músicos Marino Pliakas (baixo) e Michael Wertmüller (bateria), divulgando o violentíssimo álbum Full Blast.

A apresentação do trio em São Paulo é inspiradora – para usar um adjetivo que não dá a conta do que foi apresentado. Não à toa, o grupo foi eleito a melhor performance ao vivo de 2007 pelo site All About Jazz. De imediato, o público fica atônito, pasmado. Uns fogem, outros, extasiados. A eletricidade corre pelo teatro quase lotado. Almas de pouca fé saem, evitando o terror sônico vindo do palco. Como se pudéssemos nos safar da violência que nos espera do lado de fora do teatro. Toda alma é fustigada pela improvisação virulenta de Brotzmann. Seja no saxofone, no clarinete ou no tarogato, o ataque é o mesmo. O que quer aquele senhor grisalho no palco, empunhando seus instrumentos como se pudesse responder ao mundo por meio de notas musicais acintosas e frenéticas? Era algo que me vinha à cabeça. O baixo, tão distorcido ressoava permanentemente pelo espaço, preparando o terreno onde se instalaria o caos. A bateria complementava – se é que isso seja possível – o frenesi do experiente músico alemão. Passa-se quase uma hora. Cessa o som. Meu mundo ruiu e repentinamente volta ao lugar. As pessoas se levantam, aplaudem muito e vão embora. Essa movimentação me parece um tanto vulgar após uma sessão de depuração via free jazz violento e expressionista. Fico com a impressão que o artista se nutre intensamente da tensão moderna e nos devolve esse sentimento em forma de cascatas sonoras, alcançando um tipo de catarse muito peculiar. É quase como uma resposta ao mundo, um diálogo tenso, intenso, cuja intervenção é: recebam à agressão e violência cotidiana de volta. Expurgo e depuração.

O músico alemão começou na música como clarinetista, mas logo passou para o saxofone – instrumento que o consagrou mundialmente –, influenciado por músicos europeus vanguardistas como John Cage e Karlheinz Stockhausen. Inicialmente, ligou-se ao baixista Peter Kowald, e logo tocaria com o lendário jazzista estadunidense Don Cherry. Músicos fundamentais da música contemporânea de invenção, como Han Bennink, Evan Parker e Keiji Haino, são alguns de seus parceiros mais constantes. Ainda que seu trabalho encontre variações e fases bem definidas e distintas, há uma característica muito evidente em sua estética: a improvisação intensa e animada, marcada por barulhentos e intempestivos solos de saxofone, expandindo o free jazz mais radical dos Estados Unidos, de artistas como Albert Ayler, Ornette Coleman e John Coltrane (em sua última fase). Esse estilo próprio acabou por caracterizar toda uma cena européia iniciada nos anos 1960, que deitou raízes e se espalhou pelo mundo. Para leigos, uma comparação igualmente leiga: pense nas paredes de ruído e vanguardismo de um Sonic Youth de seus melhores trabalhos e na violência sonora de um Napalm Death. Pois é, Peter Brötzmann e seus companheiros europeus fazem com que tais bandas soem ingênuas, amadoras.

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Vale abrir parênteses para falar de sua aptidão artística inicial: as artes plásticas. Assim como outros artistas do free jazz e da música livre, Peter Brötzmann começou na pintura e estendeu suas atividades para a criação de objetos. Só que encontrava-se no meio de um furacão artístico chamado Fluxus, uma das vanguardas artísticas mais importantes da segunda metade do século XX. No início dos anos 1960, Brötzmann era um jovem assistente em uma oficina de artes plásticas em Wuppertal, na Alemanha. Inicialmente, a Alemanha foi um dos pólos divulgadores do Fluxus – que, mais que um movimento, era “um modo de fazer coisas (…), uma forma de viver e morrer”, nas palavras de Dick Higgins, um dos entusiastas desta vanguarda. Óbvio que isso atraiu o saxofonista, que encara a arte como uma atitude diante do mundo.

“Eu tive grande prazer e honra em trabalhar com Nam June Paik [um dos principais artistas Fluxus]. Ele fazia sua primeira grande exposição na Europa Oriental, justamente na cidade em que eu vivia. Eu trabalhava em uma grande galeria de vanguarda que havia por lá, então estava sempre preparando as coisas, consertando pianos – todas as noites o público tocava, quebrando as teclas do piano, e no dia seguinte eu tinha que consertá-las. Assim conheci integrantes do Fluxus, como George Maciunas, que vivia na Alemanha naquela época. Era um bom lugar para a vanguarda. Acabei vendo várias performances, shows e exibições. Para além da música, foi uma outra maneira de abrir os ouvidos e o os olhos para outras coisas. Depois, acabei encontrando Don Cherry, Steve Lacy e Nam June Paik.” Pergunto se ele ainda tem interesse por pintura, já que quase todas as artes de seus álbuns são de sua lavra. “Sim, e naquela época a pintura era algo que eu realmente gostava de fazer – a música vinha em segundo plano. No meio da década de sessenta a coisa mudou de figura, e aí a pintura acabou ficando em segundo plano. Hoje eu tento equilibrar as coisas, colocar 50% de cada lado.”

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Mas houve ainda outro fator para que Brötzmann escolhesse a música: a paixão por se relacionar com artistas inventivos e igualmente livres, como Carla Bley, Steve Lacy e Cecil Taylor – que no ano passado fez uma comentada apresentação no Tim Festival no Brasil. “Gosto muito de estar na estrada, gosto de trabalhar com essas pessoas. Acho que tocar o que chamam de jazz tem um lado social, que é criar algo junto a outras pessoas. O grupo que montei em Chicago é como um evento social, em que eu divido boa parte da minha vida com essas pessoas para criar algo junto com elas. É uma sensação incrível. É legal trabalhar em estúdio, mas estar com outras pessoas e viajar é realmente o mais importante para mim.” Este trabalho de Brötzmann em Chicago, que chega a reunir de 5 a 12 músicos, é uma das iniciativas mais celebradas dentro da cena de free jazz mundial dos últimos tempos. Ele conta como tudo aconteceu: “Um dia eu estava conversando com o John Corbett (um dos maiores entusiastas e crítico de música contemporânea mais radical e vanguardista) em Chicago, e começamos a falar sobre os outros músicos que também estavam na cidade. Chamamos essas pessoas e logo começamos a fazer vários shows pela a cidade. Já se passou uma década desde então, e espero que isso dure até quando nós agüentarmos (risos)”.

Da mesma forma que artistas vanguardistas como os estadunidenses John Zorn e Ken Vandermark, o holandês Han Bennink e o sueco Mats Gustafsson, o músico alemão criou vínculos com certa fatia da música pop – se é que podemos usar a palavra “pop” para tratar de grupos como Sonic Youth, The Ex ou Napalm Death. Seu filho Caspar Brötzmann, inclusive, foi um dos pioneiros na mistura entre thrash metal e free jazz. “Eu não tenho muito que falar a respeito… Veja só este trio [se referindo aos músicos que o acompanharam no Brasil]. Cada um de nós é de uma geração diferente, e temos passados diferentes. Claro que bandas como o [grupo holandês] The Ex são legais. Quando comecei a perder um certo sentido de busca em minha música, passei a tocar com um monte de músicos de rock, e nunca houve uma discussão sobre o que fazer, era somente ir e tocar. Estou aberto a tocar qualquer coisa, mas também estou aberto a dizer ‘dane-se, eu não gostei disso’.” O músico explica sobre sua concepção de jazz: “O jazz não são os 12 compassos do blues, não são os 32 compassos do jazz tradicional: jazz é um sentimento bem forte e uma maneira de viver. E está ligado às ruas. Você viaja e aprende coisas, porque passa por diferentes estados mentais a cada noite, tem plateias diferentes. Os jovens não aprendem mais isso hoje em dia. A música nunca vai morrer, porque é centrada no ser humano, e é a maior forma de comunicação internacional. Você não precisa saber idiomas – só precisa tocar.”

Pelo menos dois álbuns gravados por Peter Brötzmann são tidos como marcos na música moderna: Machine Gun, de 1968 e Nipples, no ano seguinte, ambos ao lado do plural e dinâmico baterista Han Bennink. Nenhum desses dois trabalhos vendeu milhares de cópias, mas, o estranhamento inicial hoje se tornou objeto de culto: Nipples, em sua primeira reedição em CD nos Estados Unidos, vendeu 3 mil cópias em poucas semanas. Machine Gun tem exatos 40 anos, assim como um acontecimento político-cultural que marcaria nossa época: as revoltas estudantis parisienses em 1968, que inspiraram outros movimentos similares ao redor do planeta. Muito se comenta sobre como a estética improvisada e livre deste disco antecipava esteticamente os ideias de igualdade, autonomia e livre associação dos jovens de Maio. Um crítico português acredita que esse álbum “é um dos mais potentes manifestos [sobre o Maio de 68] que ainda hoje se podem escutar sob a forma de disco. Uma efetiva declaração de guerrilha urbana”. Reduzir a música de Brötzmann e outros jazzistas europeus de então à esfera política parece banal, mas as conexões são evidentes – quando não explícitas, como no álbum Machine Gun – e deitaram raízes profundas, que se estendem até os dias de hoje.

“[Maio de 68] é uma grande história, precisaríamos de muitas noites para falar a respeito. Claro que na Europa e na América foi uma época difícil, e especialmente nós, alemães, tínhamos uma idéia forte de como seria uma sociedade, de como a vida deveria ser, bem diferente de como o governo da época achava que deveria ser. É uma coisa que aprendi depois de ver as fotos de Auschwitz e os filmes sobre os campos de concentração. Vi filmes sobre isso na escola, com 14 ou 15 anos, e foi aí que tive a certeza de que isso não poderia se repetir. Existia um sentimento meio ingênuo na década de 60, achávamos que poderíamos mudar o mundo para melhor. Era uma ideia muito fútil, e aprendi rapidamente que esse tipo de pensamento não estava certo. Hoje em dia se vê a mesma coisa acontecendo no Iraque, na África etc. E ainda não é uma boa hora para se sentar em uma cadeira confortável e relaxar ouvindo boa música. O mundo se afunda em guerras, e isso é algo sobre o qual não podemos fazer muito, mas ao menos podemos ser bem livres e tirar algo dessa situação e dizer algo em nossa música. Eu ainda acredito que não é hora de desistir e sentar diante disso tudo achando que está tudo bem, quando na verdade nada está bem.” Mais uma vez, um músico pensando sua arte como uma resposta política ao mundo.

Saiba Mais:

www.shef.ac.uk/misc/rec/ps/efi/mbrotzm.html

Happy Hour no Espaço +Soma nesta sexta-feira

é muita folia na veia!

é muita folia na veia!

Um dia, estava eu e Alexandre Casatti no Espaço +Soma (e só pra reforçar: o espaço mais classe da cidade), esperando a apresentação do Tommy Guerrero. O som ambiente tava foda de bom, só coisa fina. Quem tava colocando os discos, era a Fernanda Masini. Pagamos um pau!

Corta e chega Outubro. Nosso aniversário, librianos descontraídos em fúria. Me convido pra colocar um som numa sexta na maior caruda. Tiago Moraes, o big boss, topa. Lindo. Coloco o querido Casatti na jogada e, pra rolar a bola no meio de campo conosco, a supracitada Fê Masini. Trio ternurinha! E qual vai ser do som?

Bom, vai ter um The Ex, um Fall, uns rocks aí. Mas o lance tá mais pra uma seleção descontraída e farta de música brasileira e jazz. Sem preconceito, sem fronteiras. Pra ver a rapaziada, os amigos, o baile todo, feliz!

É nessa sexta-feira, 16 de Outubro, a partir das 19 horas. Chamam de happy hour. É de grátis, no Vasco, free. Seria muito bacana ver todos os amigos, receber os cumpleaños e poder compartilhar muita música boa com geral.

Nessa noite, todo mundo é a favor da paz, do amor e da esperança. E tenho dito!!

SERVIÇO:
Espaço +Som
Happy hour com som na vitrola por Alê Casatti, Arthur Dantas e Fernanda Masini
16 de Outubro . Sexta-feira . A partir das 19 horas . Na faixa

Rua Fidalga 98 . Vila Madalena . São Paulo . SP
Informações/Booking – info@maissoma.com / 11 3034.0515

Endurecer Sem Perder a Ternura

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Esse post é só para lembrar que hoje tem show do Sombra com Kiko Dinucci e mais uma rapa firmeza total no Tapas. Eu não perderia se fosse você!

Por Arthur Dantas . Foto Fernando Martins (texto levemente alterado e publicado inicialmente na +Soma 8)

Em um ano de poucos grandes lançamentos (o texto refere-se ao ano de 2008) no rap brasileiro, no segundo semestre houve dois grandes álbuns lançados: Non Ducor Duco, do rapper Kamau, com quem conversamos na edição #7, e o esperado álbum solo de Sombra, Sem Sombra de Dúvidas, que chegou às lojas em novembro e surpreende pela variedade de possíveis hits dentre as onze faixas.

Jorge Antonio Andrade de Jesus Santos, 33 anos, o Sombra, tornara-se conhecido ainda no fim da década de 90 com o grupo SNJ (Somos Nós a Justiça), um dos nomes fortes em um dos momentos mais fortes do rap nacional – tempo de Racionais MCs e Sobrevivendo no Inferno, de Sabotage e Rap é Compromisso e RZO e seu clássico Todos São Manos, de hits de Xis, Thaíde e De Menos Crime. O rap conquistara a periferia e entrara nos meios de comunicação pela porta da frente. Sombra resume a história do SNJ naquele momento.“Tudo começou em Guarulhos, man. Pela rádio Costa Norte FM, um som do SNJ do primeiro single, chamado ‘Mundo da Lua’, tocou bastante. Essa música fez com que o grupo ficasse reconhecido nacionalmente, e assim gravamos um álbum com outras músicas que fizeram sucesso, como ‘Se tu Lutas tu Conquistas’ e ‘Viajando na Balada’, que teve clipe também.”

A divulgação inicial pela rádio fez com que o show chegasse a todo o Brasil, e o grupo passou a participar de eventos beneficentes, em bairros mais carentes. O rapper nasceu na Zona Norte da capital paulista e cresceu em bairros da periferia de Guarulhos, cidade da Grande São Paulo. “Sou do Jardim Bonança, próximo ao Jardim Lenize. O meu trabalho por lá é o de resgatar a auto-estima dos manos por meio da música politizada e participar de eventos voltados pra nossa comunidade quando possível. O rap é a minha ideologia e sempre tive influências de pessoas próximas a mim também.” O MC chegou inclusive a se candidatar a vereador em sua cidade. Pergunto sobre esta experiência. “Senti a necessidade de fazer algo pelas pessoas e sei que a política também é um caminho para podermos de fato desempenhar o papel de agente comunitário. Fiz uma campanha baseada no hip-hop e na comunidade.” Pergunto se o partido ao qual se filiou, notadamente conservador, tem interesse pela periferia. “Bom, todos têm a periferia como prioridade nas campanhas, nas palestras etc. Todos os partidos têm como slogan ajudar as comunidades carentes.”

Para Sombra, “o hip-hop é mudança de comportamento, estilo de vida baseado nas batidas rap”.

Quem te fez querer cantar rap? Quem eram os MCs de que você gostava dez anos atrás?
Os caras que me inspiraram a cantar rap são os mesmo que me inspiram hoje em dia. Esses caras continuam fazendo o rap e o hip-hop acontecer, como o Edi Rock e KL Jay, sem falar do SNJ – os caras foram muito importante na minha vida, man. Tem ainda Racionais, DMN, Potencial 3, RPW, Doctor MCs, sem falar na inspiração que tive do RZO e Sabotagem. Até mesmo o NDee Naldinho me inspirou.

Teve alguém, um MC, um amigo ou algum fato que tenha feito você pegar um microfone e se tornar um MC?
Teve, sim. Bob Marley, Luiz Gonzaga, Racionais, Louis Armstrong, Wu-Tang Clan, Roberto Carlos, entre outros. Sem falar do meu pai, que sempre pediu pra eu ser um cara de responsa.

Quando você saiu do SNJ?
Eu saí do SNJ em 2004, e a saída foi numa boa. Não valeria nada oito anos de caminhada juntos se não fosse assim.

De 2004 a 2008 o que você fez?
Enquanto eu fazia o meu trabalho solo, o Sem Sombra de Dúvida, participei de vários “corre” paralelos. Shows pelo Brasil com o Sandrão, do RZO, e Tio Fresh, do SP Funk. Um outro projeto paralelo com o KL Jay e o Edi Rock, dos Racionais MCs, e alguns shows solo pelo Brasil afora.

Você viveu com o SNJ uma das melhores fases do rap no Brasil. Fale um pouco sobre aquele período.
No tempo em que estive no SNJ, o rap era bem mais divulgado na mídia. Porém o momento é você quem faz. Continuo fazendo shows do meu projeto solo e dos projetos paralelos nesse meio-tempo, pois trabalho mediante o momento e o que está acontecendo – a tendência somos nós que fazemos.

Recentemente, surgiu uma leva de grupos na Zona Norte que parecem compactuar com a visão de rap que o SNJ e Sombra em carreira solo têm sobre o assunto. Teriam grupos como Cagebê e Relatos da Invasão alguma influência de seus pares mais velhos? Em alguma medida, sim. Mas os caras dessa nova geração também têm suas características próprias. O pessoal ainda tá desenvolvendo o trampo, o estilo de cantar, a produção dos beats e até mesmo a performance de palco, acredito.”

O álbum Sem Sombra de Dúvidas mantém o que diferenciou o MC desde sempre: a levada e o timbre vocal muito particulares, a variedade de temas com espaço para tramas fantasiosas, divertidas e sem perder os pés completamente da realidade. Não há espaço para marasmo no álbum, e dentro de um mesmo som, Sombra muda a métrica dos versos, o estilo de cantar, estiliza expressões e gírias que encontra nas ruas, operando o que de melhor um Mano Brown ou Sabotage fizeram: transformar o que alguns chamam de gíria em dialeto próprio, inconfundível. E sem deixar de lado o espaço para comentários críticos sobre o mundo, o que casa com a visão que Sombra tem sobre o rap, mesmo numa época em que o rap fetichista e materialista tenha roubado a cena nos Estados Unidos. “O rap é político em todo lugar onde surja – ele sempre vai ter o seu lado político e crítico. Mas não podemos esquecer que rap é entretenimento também. Procuro me inspirar em coisas boas pra poder fazer um rap bem-humorado e crítico ao mesmo tempo.” A produção do álbum é esmerada, e Sombra nunca cantou tão bem quanto agora. Resta saber se, nesta fase de vacas magras para o rap brasileiro, a mídia vai dar o destaque devido ao trabalho.

Você levou um tempo para terminar o disco depois que lançou a música “Razante Louco”. Porque demorou tanto para finalizar o disco?
Quando o trabalho executivo de um disco é feito de maneira independente, é mais difícil de ser realizado. Porém, juntando forças com outros produtores e algumas pessoas do nosso meio, conseguimos finalizar o disco esse ano e colocá-lo nas ruas. Foi trabalhoso, mas conseguimos.

Há poucos MCs com uma levada tão diversificada como a sua. Você sempre cantou assim ou foi mudando com o tempo?
Quando comecei a fazer rap, senti necessidade de ser diferenciado dos outros MCs, senão seria apenas mais um entre eles. A mudança, dar uma diferenciada na levada, veio com o tempo e com certeza não terá limites. Vou tentar sempre fazer o máximo para poder me diferenciar em cada música. Ouço muita coisa de MPB e os sons mais alternativos possíveis. Tudo o que ouço tem a ver com o rap, porque acaba me influenciando de alguma forma… música erudita, regional, até mesmo o som dos pássaros (risos). Chico César, Luiz Gonzaga, Zé Ramalho etc.

Quem participa do novo álbum? Como foi a produção da faixa “Razante Louco”, que já tem clipe e a maior cara de hit?
Quem produziu foi o DJ QAP (produtor dos melhores grupos da Zona Norte de São Paulo). O sampler e as batidas são de uma cantora japonesa que nem dá pra saber o nome, porque está tudo escrito em japonês na capa do disco dela (risos). A produção ficou muito louca, e o som teve participação de Alex Tio Nenê, que infelizmente faleceu. O disco conta com a participação de Sandrão RZO, Tio Fresh, do SP Funk, Luana, do grupo Atal, os fraceses do UL’ Team Atom, Gilmar de Andrade, que é meu irmão, o MC Leco, do Projeto Manada, os caras do grupo Imortais e o mano Rael, do grupo Pentágono. As produções foram do DJ QAP, Gilmar de Andrade, DJ KL Jay, Bomba do SP Funk, Richard, DJ Sonar da França e o mano Sóbrio, do grupo Imortais.

Como surge a temática de suas letras? Faixas como “Sombra e o Encantador de Ratos e “Computador” são muito interessantes na temática, fogem ao que se espera do rap.
Baseado na situação que o tema pede, eu estudo e vou escrevendo. Depois resumo tudo e saio cantando. Para cada tema procuro saber do que estou falando pra ser coerente o máximo possível em relação ao assunto.

A última música do disco, “Litera Rua”, brinca com o fato do rap desenvolver um vocabulário próprio, usando elementos da fala das ruas e jogando para um público maior através da música. Fale um pouco sobre isso.
Temos que desenvolver o canto, porém sempre devemos ler as coisas comuns do dia-a-dia mesmo, ter atenção às palavras, porque isso faz com que acrescentemos algo a mais nas letras, nas levadas, prestar atenção nas situações do cotidiano. Eu acredito que isso ajuda a valorizar a música e a entreter as pessoas. Sem entreter as pessoas, podemos cair na mesmice, entende?

Você está contente com o resultado do disco?
Sim, estou muito feliz com o resultado, man. As pessoas estão comentando, as músicas estão sendo executadas nas FMs e nas rádios comunitárias, e a rapaziada tem ido aos shows também. Estou ali trabalhando na “bola de meia” a “Mano Eu Vou Ali Comprar 1 Chá” e “Razante Louco”. Nas comunitárias e na internet, o pessoal toca os sons com os quais mais se identifica.

Saiba Mais: www.myspace.com/semsombradeduvida

Sabotage Eterno!!

Ainda precisa falar alguma coisa? Só emoção viu? Sai da frente…

O Ser e o Tempo de Gilvan Samico

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(texto publicado na +Soma 9 – aqui, levemente alterado)

Por Arthur Dantas . Imagens de trabalhos de Gilvan Samico

O tempo escorre, lento, na província afetiva do artista. Gravar pede paciência e muito ofício. Samico não é virtuose – “não sou um habilidoso”, costuma dizer – por isso age empiricamente, na base do erro e do acerto. Mas, concluída a obra, teremos com certeza, diante de nós, uma obra de arte irretocável e de uma beleza arrebatadora. (…) Samico equilibra, em doses certas, imaginação e despojamento, fantasia e técnica”. - Frederico Morais, em Gilvan Samico: obras de 1980 – 1994.

Diz-se, a larga, que o artista pernambucano Gilvan Samico, 81 anos, não gosta de falar. De sua casa-ateliê em Olinda, a poucos passos do Mosteiro de São Bento e com vista para a cidade de Recife, o artista conversa comigo pelo telefone. Gilvan é direto, sem rodeios, tal qual sua arte. Peço 30 minutos de conversa no dia seguinte. O artista muda o tom de voz, para algo sentencioso e dolorido “é muito tempo, é muito…” No outro dia, ligo às três da tarde como combinado mas me esqueço do fuso horário. Começo mal. A conversa avança, Gilvan pede para que esqueça o “senhor” que precede todas minhas perguntas. O papo rende e lá se vão mais de uma hora de conversa. Peço insistentes desculpas por tomar o seu tempo. Saio transformado e transtornado: poucas vezes tive a oportunidade de levar uma conversa tão franca com alguém que poderia ser definido como um mestre em seu ofício.

Samico gosta de atribuir à sorte todas as conquistas artísticas de sua carreira e o destino realmente tem sido um parceiro fiel e generoso. “Lá em Afogados, morava uma tia com dois filhos. Um dia, encontrei na casa dela um caderno com uma cabeça de mulher, uma artista de cinema, desenhada. Eu olhei e pensei: como alguém copiava tão bem a ponto de eu reconhecer que era uma artista de cinema?”

Dali em diante, o garoto descobrira um mundo todo que se descortinava a sua frente. Sua família, sem veleidades intelectuais ou artísticas (“não havia um livro sequer em casa”), um tanto a contragosto, passou a incentivar o talento do filho. Um dia seu pai o levou a casa do artista Hélio Feijó, que olhou seus desenhos iniciais, ainda reproduzindo o que achava em revistas, que lhe disse: “Em vez de copiar capa de revista, copie o que você vê, o que passa na sua frente!” E foi lá Samico desenhar as árvores e bichos como cabras, passarinhos, cobras, sapos. Surgia o artista interessado fundamentalmente nas coisas de seu tempo e sua terra.

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O artista plástico e ex-marchand Guiseppe Baccaro diz que o caminho da gravura é difícil, quase ascético. Os gravadores seriam tipos esquivos, sem efeitos especiais, nem na vida nem na arte – essa tese teria comprovação através da trajetória de artistas do gênero no país, como Goeldi, Abramo, Gruber, Roberto Magalhães e Gilvan Samico, para ficar em apenas alguns nomes. Samico não é “qualquer um” no meio artístico brasileiro: tem obras no MoMA de Nova Iorque e participação em duas Bienais de Veneza, sendo que recebeu premiação em uma delas (veja box adiante). Premiações não são novidade na carreira do artista, inicialmente voltado para a pintura e que se notabilizaria como gravador. Sua primeira gravura foi realizada em 1953. Ou melhor: gessogravura. “Não foi minha escolha. Abelardo da Hora achou que era fácil fazer um contorno em madeira e encher de gesso em cima de um vidro. Quando secava, já estava polido. Mas o gesso é quebradiço, um material horrível pra se gravar. Em casa, fiz umas duas gravuras em pedacinhos de Madeira e era essa minha experiência até chegar em São Paulo”.

Os mestres Goeldi e Lívio Abramo

Em 1957 o artista resolveu dar novos rumos em sua vida e veio tentar a sorte em São Paulo. “Lá era um meio mais buliçoso, tinha museu de arte, era uma cidade grande, com outros atrativos do ponto de vista artístico. Com indicações de amigos artistas mais experientes, como Aloísio Magalhães e Francisco Brennand, conseguiu indicações para estudar com Lívio Abramo em São Paulo que, por sua vez, iria indicá-lo para estudar com Oswaldo Goeldi no Rio de Janeiro, em 1958. A primeira fase do trabalho do artista encontra grande consonância com o trabalho de seus mestres, apresentando gravuras de caráter expressionista e com talhos na Madeira que muitas vezes simulam linhas de um desenho a lápis, como fica evidente na obra “Três Mulheres e a Lua”, de 1959.

Como Samico era muito tímido, acabou por aprender mais escutando do que produzindo nas aulas de ambos. O artista apresentou pouquíssimas gravuras ao mestre e concentrava-se mais no que ambos diziam, os julgamentos sobre os trabalhos de colegas de curso. Certa vez, Lívio Abramo ficara intrigado do porquê Samico produzir sempre na penumbra, nos cantos. “Quando estava de frente para um cavalete, se chegava um por trás, eu parava.”

O mais curioso, no entanto, foi uma limitação física que fez com que Samico optasse definitivamente pela gravura. Como seu apartamento na cidade era muito pequeno e havia uma filha recém-nascida, o artista optara definitivamente pela gravura – eis que o destino age de forma decisiva em sua vida. Sua ida para o Rio de Janeiro deve-se mais a uma facilidade do que por uma opção, por assim dizer: um dos filhos de sua tia de Afogados, viera morar no Rio de Janeiro e o convidou par ir para o Rio.

A gravura, ontem como hoje, não alcança o preço de uma pintura tão fácil. Samico começa a desenhar comercialmente para o escritório de comunicação visual de Aloísio Magalhães. A rotina diária não atrapalhou sua disciplina artística, pelo contrário; passara a trabalhar diariamente em suas gravuras e logo começou o reconhecimento a seu trabalho em salões de arte.

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Como um Conto de Cordel

Depois de sete anos fora de Recife, o bom filho resolveu voltou a sua terra natal. Digo, ao seu estado natal, já que Samico trocara Recife por Olinda na sua volta. Em 1965 se estabeleceria em Olinda, de onde nunca mais saiu, mesmo odiando o tão aclamado carnaval da cidade, venerado por turistas de todos os cantos (“se um sujeito te fizer ouvir música clássica alta todo dia, até Beethoven fica ruim” explica o artista ironicamente). E não seria a única mudança na vida do artista: uma conversa com o escritor e ferrenho defensor da cultura popular nordestina, Ariano Suassuna, mudaria sua vida. “Eu não estava satisfeito com a gravura que fazia. Era muito noturna e não tinha sinalização de que eu estava fazendo uma arte no Brasil. Eu disse isso a Ariano. Foi quando ele me disse: ‘Samico, por que você não dá uma mergulhada no mundo do cordel, dos gravadores populares?’ Isso aí foi o mesmo que um coice de mula.”

Samico passou a pesquisar sobretudo as capas dos tradicionais cordéis do Nordeste. Assim, se debruçou sobre aquele universo e chegou a uma conclusão lógica: mais do que as gravuras em si, a solução seria pensar no texto, em uma forma de confabular graficamente as imagens recorrentes no imaginário cordelista. Em uma revista Senhor (revista mensal de informação do Brasil e do mundo) da década de 1960, pouco depois de ser premiado na Bienal de Veneza, Samico definira com clareza a mudança de rumo em sua gravura: “despojei minha gravura do supérfluo. A preocupação de enriquecê-la com texturas diversas foi substituída pela preocupação de enriquecer o seu aspecto inventivo”. Dessa forma, ao invés de criar uma linguagem concorrente a dos gravuristas populares, acabou por definir um caminho único e original.

Era tempo de veleidades intelectuais nacionalistas, dos movimentos artísticos e seus manifestos, da mobilização em prol da cultura popular no país, dando continuidade às políticas públicas da era Vargas que agiam nesta direção. Em Pernambuco, Suassuna começa o recrutamento em torno de idéias que dariam origem ao Movimento Armorial que revalorizava a cultura popular nordestina, realizando uma arte brasileira erudita a partir das raízes populares. Além do próprio Suassuna, participaram Francisco Brennand, Raimundo Carrero, o Balé Armorial do Nordeste, a Orquestra Armorial de Câmara, a Orquestra Romançal e o Quinteto Armorial. Samico, obviamente, por encontrar suas idéias artísticas em acordo com as ambições do grupo, participara da movimentação. Porém, explica que era um armorial avant la lettre. “Eu não aderi ao Movimento Armorial: eu já era armorial antes, sem saber!”

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A valorização da linha preta ilumina sua xilogravura, que nem o uso circunscrito de cores obscurece. Quanto à iconografia, esta se liga à narração, no que Samico também se situa nas proximidades do cordel, enquanto função historiante. Embora narre, fá-lo com recurso à disposição solene de figuras emblematizadas; recusando a interpretação que a tem como faraônica, afirma seu sentido de cordel: o afrontamento, a axialidade, a justaposição, a repetição, que operam o estático, têm história em outro campo, feito, aliás, de atalhos e desvios que levam da antigüidade ao presente. - Leon Kossovitch e Mayra Laudanna em GRAVURA: arte brasileira do século XX.

Muito Além da Razão

Sua produção desde então se tornou mais “brasileira” – ao contrário de espiar o que se passava do outro lado do oceano, observando o expressionismo europeu, Samico se voltou ao figurativismo dos gravadores populares e realizou um processo de depuração através da síntese, da economia de traços, perspectivas e cores. Virou sua gravura do avesso, revelando o claro aonde havia o escuro, cavando o volume das imagens e criando linhas pretas mais decididas. Abandonou qualquer pretensão à perspectiva, enxugou o excesso de detalhes e passou a trabalhar com planos que carregavam, no máximo três personagens ou assuntos. O procedimento transformou tudo e surgiu a estética do plano único, sem senso de profundidade e perspectiva e mantendo o mínimo de detalhes possíveis. “Reduzi a gravura a uma figuração toda em linha, alguns chapados pretos, e um ligeiro traçado pra animar. Não tinha mais sugestão de céu, de nuvem, de nada que lembrasse um espaço naturalista.

Com obras MoMA de Nova Iorque e participação em duas Bienais de Veneza, além de uma infinidade de exposições coletivas e individuais em todo o mundo, e premiações das mais diversas, o artista diz ter uma única frustração, que faz com que coloque, ainda que minimamente, cor em suas obras: não ser reconhecido como pintor. “É um pouco o que acontece com alguns artistas que, abordando mais de uma técnica, são mais reconhecidos em uma, em detrimento das outras. Eu gostaria de ter o prestígio que tenho, não só como gravador, mas também como pintor. Se não tenho como mostrar minha pintura, boto cor na minha gravura.”

Apesar de todas estas características recorrentes na poética visual de seu trabalho como gravador, Samico acredita que não houve uma sistematização de todos os processos descritos pelos estudiosos. “Não foi um trajeto racional. Até hoje, tenho um processo de criação que escapa ao raciocínio.”

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O Mítico e o Religioso

Samico é um amigo muito leal, ele exagera um pouco a importância dessa nossa conversa. Acho que, de uma maneira ou de outra, ele terminaria achando o caminho dele. E mesmo que ele não tivesse se inspirado no universo do folheto de cordel, seria uma gravura muito forte como é. (…) A ligação de samico não é tanto com a gravura do folheto popular, mas com o universo poético do folheto popular. - Ariano Suassuna, em depoimento à revista BRAVO!

Conforme o processo de imersão na cultura popular foi se completando, começou a formar-se uma releitura do universo mítico e religioso do povo nordestino. Inclusive, sua premiação na Bienal de Veneza no início da década de 1960 se deu em função de uma série de gravuras com temas litúrgicos. Me surpreendo ao saber que Gilvan Samico é um cético convicto, sem nenhuma ligação íntima com qualquer tipo de religiosidade. “Não tinha intenção de fazer arte religiosa, mas os temas litúrgicos me atraíam. Santo é de todo mundo, e eu gravei as interpretações caboclas de todos eles”. A obra “Criação – Homem e Mulher”, de 1993, sugere que a temática de origem religiosa continua a permear seu vocabulário temático-visual.

O trabalho de Gilvan é de um rigor extremado. O catálogo da exposição Samico – Do Desenho à Gravura, que aconteceu entre agosto e setembro de 2004 na Pinacoteca do estado (e de onde foi retirado boa parte dos depoimentos desta matéria), é a prova cabal do zelo absoluto com o qual trata suas criações – há algumas obras no catálogo que vem acompanhadas de reproduções de diversas etapas do “estudo” para a obra final. Samico me conta que o processo é um tanto quanto angustiante. E por isso, ultrapassada a casa dos 80 anos, Samico diz, não sem uma dose de seu humor peculiar, preferir produzir menos obras, “Eu não posso errar, é uma gravura que me tortura”. Assim, faz mais de dez anos que Samico produz somente uma gravura por ano com tiragem limitada em 120 cópias que fazem a alegria de seus admiradores/colecionadores.

As particularidades e possibilidades de leituras de seu trabalho são fruto dessa paixão e entrega a seu ofício de gravador. Nos trabalhos recentes, Samico busca simplificar ainda mais a estrutura e a própria trama linear das cenas retratadas, cercando o trabalho de motivos arquitetônicos: arcos, rosáceas e molduras.

Passado alguns dias após a entrevista, meu apreço pelo artista e seu trabalho aumenta, penso inclusive em viajar até Olinda para abraçar o artista e agradecê-lo por dedicar uma vida inteira a recriar o mundo tal qual conhecemos. Ligo para resolver algumas pequenas burocracias e aproveito para agradecê-lo mais uma vez pelo prazer de compartilhar algumas palavras comigo. Digo que estava receoso, devido a sua fama de homem de poucas palavras. “Pois é, eu inventei uma lenda que eu estava andando na rua distraído e bati a cabeça no poste, daí desandei a falar”, diverte-se o artista. Talvez o poste de sua ficção particular seja o mesmo que nossa cabeça tromba ao nos confrontarmos com suas gravuras.

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Gilvan Samico nasceu no dia 15 de junho de 1928, na cidade do Recife. Inicia a carreira artística como pintor autodidata e, a partir de 1948, freqüenta a Sociedade de Arte Moderna do Recife. Em 1952, funda com outros artistas, o Ateliê Coletivo da Sociedade de Arte Moderna do Recife, idealizado por Abelardo da Hora. Vai para São Paulo e, em 1957 , estuda xilogravura com Lívio Abramo na Escola de Artesanato do MAM/SP. No ano seguinte, vai ao Rio de Janeiro RJ estudar com Oswaldo Goeldi na Enba e trabalha no escritório de comunicação de Aloísio Magalhães. É gravador, pintor, desenhista e professor. Retorna a Olinda em 1965 e, neste mesmo ano, leciona xilogravura na Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa. De 1968 a 1970, viaja a Europa com o prêmio viagem obtido no 17º Salão Nacional de Arte Moderna, no Rio de Janeiro. Na volta, participa da exposição de lançamento do Movimento Armorial, idealizado por Ariano Suassuna, juntamente com Francisco Brennand. Em 96, recebe o Prêmio Nacional de Cultura do Ministério da Cultura e em 98 a Comenda da Ordem do Mérito Capibaribe da Cidade do Recife. No Rio de Janeiro realiza a exposição O Outro Lado do Rio e, no ano seguinte, em São Paulo, a exposição Samico: do desenho à gravura, na Pinacoteca do Estado.

Saiba Mais:

www.mamam.art.br/mam_exposicoes/samico.htm

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Sampalanço!

Festa Engasga Gato especialíssima, pocket show do Mike Ladd na Chaka Hotnightzz, meu parceiro de trampo Carlos Issa + Akin no espaço +Soma e no fim da outra semana, Mike Ladd novamente com SP Underground + uma rapa na disposição. Pra não gastar meu verbo, vai tudo aqui nos textos dos releases. Se tiver muita rasgação de seda, relevem: assessoria é (um pouco) feita pra isso.

Vale acompanhar tudinho! Nos vemos nos eventos!

bem vindo ao pós futurismo de Mike Ladd

bem vindo ao pós futurismo de Mike Ladd

CHAKA HOTNIGHTZ APRESENTA:

INFESTICONS (MIKE LADD)

Sexta 25.09 no Tapas Club

A festa Chaka Hotnightz – pela qual já passaram nomes como Money Mark do Beastie Boys, os produtores Madlib e Prince Paul, o lendário parceiro de Fela Kuti, Tony Allen, o rapper Talib Kweli e o DJ dos Racionais, Kl Jay – recebe nesta sexta-feira (25/09) o projeto Infesticons, do produtor e rapper Mike Ladd.

O norte-americano estará na cidade para apresentações no micro festival Afro-Futurismo, no SESC Santana, que conta com as participações do percussionista Naná Vasconcelos, do quarteto São Paulo Underground e dos MC’s do Mamelo Sound System, além do show de Kiko Dinucci e o dub jamaicano de Yellow-P, ao lado do MC angolano Cota Pitshu.

O pocket show apresentado no Tapas Club traz repertório diferente dos shows do SESC Santana e foca nas faixas dos discos “Gun Hill Road” e “Nostalgialator”, entre outros.

Liderada por Rodrigo Brandão, Marcos Gerez, Akin, Guilherme

TAPAS CLUB . R. AUGUSTA, 1246 . R$10 DE ENTRADA . A PARTIR DE 23H


Carlos Issa e Chico aka Afasia

Carlos Issa e Chico aka Afasia

AFASIA, Sábado, 26 de Setembro


Afasia é um distúrbio de linguagem que, entre outras consequências, faz com que as palavras pareçam não ter sentido.

Carlos Issa (programações e efeitos, ele mesmo, do Objeto Amarelo) e Akin (programações, efeitos e sintetizadores) se uniram sob o nome Afasia em julho deste ano. Fazendo uso de equipamentos eletrônicos, como sintetizadores, baterias eletrônicas, pedais de efeitos, samplers e teclados, eles constroem climas que são manipulados ao vivo, em tempo real. O resultado transita entre a ambiência e o noise, passando pelo industrial e pelo IDM. Mais do que isso, é impossível antecipar – as infinitas possibilidades de intervenção fazem com que cada show seja único.

Afasia no Espaço +Soma . Sábado, 26 de setembro de 2009.  A partir das 20h . R$ 10 (R$ 8 com nome na lista – info@maissoma.com)
Espaço +Soma . Rua Fidalga 98 – Vila Madalena . São Paulo/SP
info@maissoma.com / 11 3034.0515
Não aceita cartões de crédito ou débito

Festa que é a mais pura descontração sangue nos zoi! PRAW

Festa que é a mais pura descontração sangue nos zoi! PRAW

KIKO DINUCCI acompanhado por Thiago França, Sérgio Machado e MC SOMBRA, dia 29.09 (terça-feira)

Kiko Dinucci (Bando Afromacarrônico, Duo Moviola, Metá-Metá) acompanhado por Thiago França no saxofone, Sérgio Machado na bateria e o Mestre de Cerimônias,  SOMBRA (ex- SNJ).

Me digue me explique, me digue me explique direito. Me digue me explique, me digue me explique melhor”. É Guarulhos que chega !!!

Discotecagem: Mauricio Takara, Rogério Martins e Alcione.


Rappin Hood e Parteum – Experimentos e Inovações

O underground e o mainstrean odo junto e misturado?

O underground e o mainstrean ou tudo junto e misturado?

Por Arthur Dantas . Fotos Fernando Martins

Esse rolê, lá na área do Rappin Hood, na Zona Sul foi demais. Além de ser igualmente fã do Hood e de seu irmão menos famoso – porém não menos talentoso – ParteUm, foi muito prazeroso gastar algumas horas de uma tarde nublada com duas figuras inteligentes, talentosas e cientes de seu papel no “jogo”- como o pessoal do rap se refere globalmente ao mundo e a indústria do entretenimento. Logo após a entrevista, o ParteUm teve uma filha e o Hood saiu da apresentação do Manos e Minas, programa da TV Cultura de SP e único espaço na Tv para o universo hip hop. Hood disse que seus planos imediatos eram lançar o álbum “Sujeito Homem 3 e depois um ao vivo, com DVD. Tudo lançado pelo meu selo, Raízes, e distribuído pela Trama. Vão ser 17 faixas inéditas”- até agora nada, infelizmente. ParteUm, agora pai de família, deve lançar algo logo. Afinal, sai ano entra ano e o rapaz sempre põe algo na roda. Segue material tal qual saiu na +Soma 9, sem o especialíssimo comentário sobre o Hood do Pedro Alexandre Sanches (meu crítico de música predileto da grande imprensa) que agigantou a matéria na revista. Sente o drama e chora cavaco!!

“Meu avô, quando foi registrar meu pai, não botou sobrenome nele, porque a maioria dos negros no Brasil carregava sobrenome do senhor de terras. Por causa do meu avô, já nascemos livres.”

Fabio Luiz, 33 anos, e Antonio Luis Júnior, 37 anos, personagens cruciais do rap sob os nomes de Parteum, o curioso e irriquieto MC e produtor que nos contou o porquê da ausência de sobrenomes em sua família, e Rappin Hood, apresentador de rádio e TV (programa Manos e Minas na TV Cultura) e um dos mais destacados MCs do país, pioneiro e entusiasta na fusão do rap com ritmos locais.

Parteum: curioso por natureza, é um explorador implacável de beats, conhecedor da história do skate (foi profissional no esporte por anos), aficionado pela ciência da produção musical. “Sempre tive o lance de olhar nos encartes dos LPs quem produzia cada som, que samples eram usados etc.” Hood, o irmão mais velho, foi o que encontrou mais resistência e peitou seus pais, aos 14 anos, quando compôs seu primeiro rap. Criado e morador da Vila Arapuá, na região de Heliopólis, se jogou no mundão, nos bailes black que aconteciam por toda a cidade e adquirindo o traquejo e a malandragem das ruas. Em comum, uma sólida formação cultural de berço (que fez, por exemplo, que ambos estudassem música), a sensatez na forma como conduzem a carreira e uma vontade imensa de quebrar paradigmas estabelecidos sobre o que é ser rapper no Brasil. “Eu sou um cara da experimentação, e meu irmão, um cara da inovação”, define Rappin Hood.

Se ainda paira dúvidas sobre o peso desses dois irmãos na história da música negra recente do país, o local onde começamos a entrevista é sintomático da importância do papo com ambos: o banco onde Hood e Parteum se sentam é o mesmo onde, por diversas vezes, Hood conversara sobre o futuro, música e vida com Sabotage, o inigualável poeta da favela do Canão. Se prepare, porque, como disseram os Racionais, “você está entrando no mundo da informação, autoconhecimento, denúncia e diversão”.

Quem foi o MC que fez vocês cantarem rap?

Hood . No Brasil foi o Thaíde, sou fã mesmo. Conheci o Thaíde e DJ Hum em um evento aqui perto e eles que me chamaram pra ir na São Bento (estação de Metrô onde se encontrava a nata do rap paulistano). Internacional, com certeza, é o Chuck D, do Public Enemy.

Parteum . O meu é mais complicado explicar. Eu gostava muito do grupo Hyerogliphics, que eu vi em um vídeo da Plan B. Ali descobri esse lance de vários MCs de lugares diferentes cantarem juntos. Nesse som, tinha o Dell, o Casual, o Souls of Mischief. Em 94, quando escutei o primeiro single do Nas, fiquei louco! Comprei em Los Angeles, em fita k7, junto com o primeiro single do Jay-Z, o Dead Presidents, que tinha outra base. Naquela época, era difícil ter informação, eu colava no centro, numa loja onde (o rapper) Xis trabalhava pra comprar os discos. Muitas vezes, nos vídeos de skate, eu ficava voltando a fita e não era por causa da manobra, mas sim do som que estava tocando naquela parte. Antes do Nas, lembro muito do Slick Rick, do LL Cool J, do Chuck D, e muito do som “My Philosophy”, do Boogie Down Production. Essa música passava em um programa de clipe da (extinta) TV Manchete. E a gente tem um tio mais velho que curtia um som, sempre estivemos rodeados de música. Eu ia a uma feira livre com meu pai e escutava Tião Carrero e Pardinho, chegava em casa e meu irmão me apresentava um Funkadelic. Aprendi a ter esse lance de comprar discos com ele. Muitas vezes ele saía para ir aos bailes e eu ia escutar os discos dele.

Vocês começaram a fazer rap quando?

Parteum . Bem antes dele (Hood) imaginar que eu estava fazendo. (risos) Eu lembro quando o Hood chegou com uma bateria eletrônica em casa. Porque os mesmos caras que hoje vendem chocolate no centro, vendiam baterias eletrônicas… Em casa tinha um piano da minha irmã mais nova. Às vezes eu vinha a pé com o [ex-skatista] Chaves da pista de São Caetano e acompanhava algumas aulas da minha irmã.

E o que seus pais escutavam em casa?

Parteum . De tudo.

Hood . O primeiro disco que eu tive do James Brown foi minha mãe que me deu. Conheci em casa o George Clinton. Quando veio a fase de Afrika Bambaataa e Grandmaster Flash, foi aí que saquei que queria fazer aquilo.

E eles apoiavam vocês?

Hood . Eles não ligavam, mas tinham aquela desconfiança, achavam que aquilo não era sério, não era profissão.

Parteum . Comigo foi assim… Quando tinha uns 14 anos meu pai falou: “Legal que você anda de skate, você tem um patrocinador que não te paga nada, sou seu pai e vou sempre te ajudar. Mas você tem que ganhar dinheiro pra saber como é a vida”. Aos sábados, ele falava que eu podia andar de skate o dia todo, só que em algum momento eu tinha que ir até o trabalho dele passar algumas horas ajudando.

Hood . Quando comecei a trabalhar, era algo que eu queria, com 14 anos. Sempre passei férias no interior, na casa dos meus avôs. Meu avô tinha um escritório, e às vezes me pedia pra fazer algum serviço de banco, e assim tomei gosto por trabalhar. Quando voltei, uns amigos estavam trabalhando em uma confecção e arrumei trabalho lá. Foi meu primeiro emprego registrado e nem falei pra minha família.

Parteum . Lembro que no fim do mês ele chegou com um monte de disco em casa, e minha mãe perguntou de onde ele tirou dinheiro. Daí contou que estava trabalhando.

Você viveu a época da estação São Bento (local onde se reunia a nata do hip hop na década de 80 em SP)? É verdade que você quase esteve na primeira formação do Racionais?

Hood. É verdade. Eu ia à estação São Bento desde os 14 anos. Tinha várias equipes de baile e muitos concursos de rap. E tinha um baile da Zimbabwe no Viola de Ouro, onde teve um concurso para escolher quem iria gravar o Consciência Black Vol. 1, de onde saíram os primeiros fonogramas do Racionais. Naquela época, o KL Jay chegou e falou que ia tocar comigo, porque eu não tinha DJ. E ele tocava com o Edi Rock, formavam uma dupla, e tocava com os B.B. Boys, que eram o Mano Brown e o Ice Blue. Se eu tivesse gravado com ele naquele disco, talvez fosse o quinto elemento do Racionais. Mas ficou uma puta amizade entre nós e já matei a vontade de gravar com eles etc.

O pai de vocês era bem rígido, né?

Hood . Pra caramba!

Parteum . É até hoje. Ele tem o “poder da sugestão” [título de uma música do Parteum]. Nunca fala a mesma coisa duas vezes. Lembro que teve um campeonato e eu teria que trabalhar no outro dia cedo. Ele foi me buscar, era bem tarde, em São Caetano. Ficou quieto o tempo todo e só falou: “Amanhã você pega carona comigo pro trabalho”. Beleza. Seis da manhã, entrou no quarto e falou, vou contar até três… três. Tá bom, levantei! (risos)

Hood . Era tão rígido que, se você tirasse 9,5 em uma prova, teria que tirar 10. Se tirasse 10, ele falava: “Mas você é negro, tem que tirar 11”. Esse é meu pai. Tive uma fase conflitante com ele, hoje em dia é um diálogo mais tranquilo.

E na escola?

Hood . Ele (Parteum) era bom aluno.

Parteum . E ele não queria saber de escola. É estranho que eu não me sentia bem na escola. Tinha mais de mil alunos e só dois negros – meu irmão já tinha saído de lá.

Hood . Fui convidado a me retirar. (risos)

Parteum . No skate comecei a me encontrar, aquele era o meu lugar. Andava com o Tarobinha, o Chupeta, o Mancha, o Alê Vianna, o Digo, o Bob; cada um tinha uma história diferente, vinha de um lugar diferente, mas no skate era todo mundo igual.

Eu li em algum lugar que seu pai era um cara politizado.

Hood . Na verdade é o meu avô, pai da minha mãe. Ele foi perseguido pela ditadura do Vargas, teve o nome no DOPS, chegou a ser candidato a vereador em Araraquara, participava do Movimento Negro, então sempre fomos criados na mesma disciplina. Como sou neto mais velho, é quase uma sequência dos próprios filhos. Mas era uma cobrança boa, porque cresci em um ambiente militante.

No campão da Vila Arapuá, berço de ambos na Zona Sul paulistana

No campão da Vila Arapuá, berço de ambos na Zona Sul paulistana

Vocês quebram paradigmas e a expectativa alheia em relação ao que esperar de um rapper. Porque o Hood é um rapper identificado também com o cânone do rap nacional, mais sisudo, aquele lance gangsta, e tem um som diferente. O Parteum é muito admirado pela turma do rap underground, mais do centro da cidade. O que levou cada um para cada lado?

Parteum . Eu chamo isso de rap alternativo. Porque rap underground é um lance que todo mundo gosta e ninguém compra. Quando vejo ele (Hood) conversar com o Kleber (KL Jay), com o Brown – e eu já vi isso diversas vezes na minha vida –, tem um negócio que é verdadeiro… Quando ganhei o Hutus (premiação do rap nacional), o prêmio veio das mãos da dona Ivone Lara e fiquei lembrando do disco Pirinpimpim, que tinha uma música dela, e eu: “Caramba, acabei de ganhar um prêmio da Ivone Lara!” Depois ganhei os parabéns do meu irmão, do Bill, do Brown e do Smoke, do Doctor’s MCs, que chegou e falou: “Ó, você pode não dar atenção para o prêmio que tá ganhando, mas eu passei da lata B para a lata A na São Bento junto com seu irmão, parabéns”.

Hood [explicando o que eram as latas A e as latas B] . Era a divisão entre os rimadores mais conhecidos, o MC Jack, Thaíde e os que estavam começando. Tinha o JR Brown, que era um líder lá e nos avisou da nossa promoção. Foi aquele “puta, vamos cantar agora com os caras de lá?” Foi louco.

Parteum . Sabendo de toda essa história do rap, não posso fazer as coisas de qualquer jeito, com qualquer um. Foi bom ouvir do Smoke aquilo, não peguei mal. O rap novo não tem mais isso, esse amor, esse carinho um com o outro. Não tem mais. O fato de trabalhar com estilos diferentes tem a ver com a minha criação, com o fato de ter estudado em escola de padres jesuítas, onde eu era um dos únicos negros na escola, e, mais ainda, tem a ver com o skate. Descobri quem eu era no skate.

Hood . Eu acho que o rap perdeu um elo, porque cresceu muito o movimento. Tive a oportunidade de bater lata com o MC Jack, com o Thaíde, trocar ideia com o [figuras históricas do hip-hop] Nataniel Valêncio, JR Brown, Grandmaster Ney, Nelson Triunfo e eu era só um garoto da quebrada. Tive uma ligação direta com esses mestres, esses professores. Era um time só. O rap cresceu tanto que a motivação é diferente, o mundo é mais difícil. Mas gosto do momento de hoje, porque hoje as pessoas sabem o que é um MC, o que faz um DJ, já tem um respeito. Teve gente que morreu só por cantar rap.

Parteum . Do meu jeito eu falo disso. Tem uma letra em que falo: “A única polícia que eu respeito tem o Sting no vocal”. Eu não escutei rap nacional da mesma forma que as outras pessoas. Eu ouvia o Thaíde, depois ele estava na porta de casa. O pessoal falava do MRN e o DJ deles é meu primo. O mesmo com o SP Funk: o (MC) Preto Bomba andava de skate comigo.

Hood . Eu sei um grupo que você curtia, que te fez olhar o rap diferente (Parteum fica com cara de intrigado). Vítima Fatal!

Parteum . (risos) Nem A nem B nem C, só se for D… Eu tava vendo tudo aquilo acontecer. Talvez eu seja a parte errada disso tudo. Pra mim, eu participava de tudo aquilo do meu jeito. Eu falei uma vez pra ele: “Tem um monte de coisa que os caras do rap não falam”. E ele disse: “Então porque você não faz?” Eu fiquei quieto. Ele descobriu dois anos depois que eu tava fazendo bases porque o [MC] Espião apareceu com uma demo do grupo Rua de Baixo, que tinha uma base que ele curtiu. “Pô, meu irmão tá fazendo base? É mentira!” (risos)

E porque você não mostrou pra ele?

Parteum . Se seu irmão é o Rappin Hood, o que você vai mostrar de rap pra ele?

Hood . Eu achei legal, mas só fui levar a sério que ele tava fazendo rap quando chegou com uma groovebox em casa. Aí vi que o bagulho era sério. (risos) Daí a gente sentou e teve uma conversa séria, expliquei várias coisas do meio do rap pra ele.

Parteum . Qualquer base que eu faça, por mais despretensiosa que seja, eu sempre penso “meu irmão é o Hood, não posso fazer qualquer coisa”, sabe? Tem sempre um controle de qualidade na minha cabeça.

Hood . (fala orgulhoso) Mas é legal quando ele chega e fala: “Ó, essa base eu fiz pra você!” (risos) Ele sabe bem do que gosto.

Parteum . É um trabalho sob medida. Por isso que é difícil sair por aí fazendo produção em série. Gosto de quem faz isso, como os Neptunes, o Timbaland, o J.Dilla – que poderia ter ficado bem maior. Produtor de rap que eu sigo é o DJ Rafa (DJ do MV Bill), porque é uma escola de produção, Consciência Humana, Baseado nas Ruas… Às vezes tô no estúdio e tá sentado ali do lado o DJ Rafa e o Vander Carneiro. O Vander fez a plástica do rap nacional.

Eu vejo que a galera do tal rap alternativo assim como o do rap nacional não se ligam muito, há uma cisão. Vocês não tem isso?

Hood . Eu sou um cara que gosta de experimentar e gosto de coisas variadas. Se eu estiver com o pessoal do Mzuri Sana, o povo do Pentágono, eu tô muito bem; com minha madrinha Leci Brandão e meu padrinho Almir Guineto, eu tô bem também. Eu quero poder fazer rap mais conservador, bumbo e caixa e voz bem na cara, mas também quero fazer um lance doidão. Eu gosto disso. Quero mostrar propostas diferentes para cada público diferente. Essa virada de página que tentei fazer com meu trabalho, de dar uma cara mais brasileira pro rap, eu acho que fui vitorioso. Mas é legal fazer o rap puro também. Cada música tem uma vida diferente. Eu sou um cara da experimentação, e meu irmão, um cara da inovação.

Parteum . Nunca imaginei colocar ele e o Iggor Cavalera no mesmo som (“Definição”, do último CD do Mzuri Sana).

Quando você lançou o primeiro single, com o PosseMente Zulu, pegou o auge do rap nacional, de inserção na mídia, de vendas (o LP vendeu 18 mil cópias). O Parteum já pegou outra época, onde as coisas estão por se definir.

Hood . Eu acredito que o rap brasileiro, como falou o Nelson Sargento em relação ao samba, agoniza mas não morre. O rap ainda tem muito pra gerar, vão surgir novos grupos, novas propostas que vão alcançar ainda mais pessoas que nós alcançamos hoje. Mas não vai ter nunca mais a parceria que nós tivemos, o engajamento que tivemos, o compromisso e a luta. E eles não têm que carregar essa carga, têm mais que fazer música desencanados. Cada um tem um peso e um tamanho dentro do rap. O que eu não posso fazer não é necessariamente o que outro não pode também. Uma vez perguntei para a Leci Brandão o que ela achava dos grupos de samba romântico, essas coisas aí. Ela me surpreendeu, porque falou que gostava, que achava importante, porque muita gente que começa a escutar samba ali ia conhecer ela, um Almir Guineto, um Martinho da Vila, um Jorge Aragão depois. Administrativamente, depois de várias lições, estamos nos preparando para coisas maiores. Quando minha geração começou, éramos todos administrados por outras pessoas, nada era nosso. Éramos de outros selos, por outros empresários, equipes de baile etc. Hoje não: somos pais de família, somos homens, temos selos, somos empresários.

Qual disco de vocês mais vendeu?

Hood . O primeiro Sujeito Homem vendeu 150 mil cópias. E já tava na época da pirataria. Parteum . O que mais vendeu foi meu solo e chegou agora em 5 mil cópias. Tem mixtape minha que já vendeu quase isso. Mas não me preocupo com os números. Cada artista acha suas limitações e não dá pra ser o melhor em uma coisa só, até porque faço várias coisas. O Mzuri Sana já abriu para meu irmão, 7, 8 mil pessoas. Dá tudo certo: “Levanta as mãos para o alto!” e todo mundo levanta. Só que quando ele entra, até a tia do Sarapatel lá no fundo começa a pular. (risos) É o carisma do cara, não adianta. A nova geração acha que vai ser melhor porque rima mais, tem o beat mais louco, a melhor produção… Você ganha até o terceiro, quarto episódio, mas e depois? Já tenho uma estrela na família, então meu caminho é outro.

Não tem uma má vontade da imprensa com o rap? Porque tirando o Rappin Hood, o MV Bill, o Marcelo D2 e o Racionais, dificilmente você vê algo relacionado ao rap. (Os dois, empolgados): Tem!

Hood . E não é só na escrita, é na imprensa em geral. A gente ainda tá estereotipado, tem muita barreira pra quebrar. E tem o lance de que há portas que só abrem para uns e não para outros. Tem lugar que só aceita o MV Bill, tem lugar que só me aceita… Temos que quebrar esse tipo de coisa.

Parteum . Aqui, agora, estamos fazendo um lance muito positivo. Já dei algumas entrevistas por aí em que esperam que eu tenha o comportamento do meu irmão e vice-versa. Minha gerente do banco me viu na TV Cultura. E falou: “Não sabia que você fazia rap… mas nem fala palavrão”. E eu: “Não, rap é rap: ritmo e poesia”. Não vá me dar crédito maior ou menor porque meu rap não tem palavrão. Entendeu? Esse é o problema com a nova geração. Porque eles estão fazendo coisas diferentes, mas fazem a mesma coisa que a geração antiga, a mudança é natural – desde quando o Bambaataaa começou a samplear Kraftwerk.

Hood . Sabe quando o rap nacional foi mais forte? Quando tava todo mundo na merda por igual. Porque ali um vibrava quando alguém vencia.

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Melhor qualidade do seu irmão?

Hood . A organização.

Parteum . Poder de síntese.

Pior defeito do seu irmão?

Hood . Ele é tão dedicado que ele cobra todo mundo pra ser igual a ele. É muito perfeccionista.

Parteum . Impaciência. (risos)

Melhor som que teu irmão te apresentou?

Parteum . “Rebel Without A Pause”, Public Enemy.

Hood . O melhor som foi o álbum Illmatic, do NAS.

Melhor som do seu irmão.

Parteum: Gosto muito da primeira versão de “É Tudo no Meu Nome”, com sample do Herbie Hancock.

Hood . “Dragão Mimado”, no primeiro disco do Mzuri Sana.

Um disco, livro ou filme que é a cara do seu irmão.

Hood (animado) . Putz, um filme com a cara do meu irmão é Ao Mestre Com Carinho, com o Sidney Poitier.

Parteum . O Alienista, do Machado de Assis. Fica procurando a loucura nas pessoas, mas a loucura tá nele. (muitos risos)

Como você definiria seu irmão?

Hood . Um cara muito dedicado.

Parteum . É um mágico, por tudo o que a gente passou, pelo que ele faz. Você vê isso com as pessoas que conversam com ele. Tem gente que chama de carisma. Eu chamo de magia.

Vocês já gravaram com vários músicos. Com quem gostariam de gravar?

Hood . Hoje em dia gostaria de gravar com o Raul de Souza.

Parteum . Vários. Um cara que eu gostaria que produzisse algo, mas já faleceu, era o J. Dilla. Outro com quem queria trabalhar, mas é quase impossível, é o Herbie Hancock.

Um disco de rock.

Hood . Tem dois discos que escutei muito de rock nacional: Titãs, Cabeça Dinossauro e o primeiro do Legião Urbana. Internacional, um que escutei muito mesmo, é o The Wall, do Pink Floyd. Deixa uma menção honrosa para o Living Colour também.

Parteum . O The Reality of My Surroundings, do Fishbone. Rock nacional vou ficar devendo.

Um disco de samba.

Parteum . O Samba de Roda, do Candeia, e o Coisas da Vida, do Roberto Ribeiro.

Hood . Memórias de um Sargento de Milícias, do Martinho da Vila.

Disco de música brasileira.

Hood . Eu sou muito fã do Djavan.

Parteum . Pô, ia falar ele. (risos)

Hood . Um é o Extra, do Gilberto Gil, e o Luz, do Djavan.

Parteum . É o Luz, do Djavan também. Esse não tem jeito, é o disco que nossa mãe gostava. (risos)

Saiba Mais:

EmNo site da +Soma, a entrevista na íntegra.

Um olha no olho do outro e acabam por ver um pouco do futuro do rap nacional

Um olha no olho do outro e acabam por ver um pouco do futuro do rap nacional

De ceticismo e ativismo

curtição para todo mundo, e isso é o mínimo!

curtição para todo mundo, e isso é o mínimo!

Considerações prosaicas,  pedestres e rasteiras sobre ações como o Dia Mundial Sem Carro e o Praia no Tietê.

Eu realmente não acredito no efetivo sucesso de ações como o Dia Mundial Sem Carro ou a Praia no Tietê – ambas ações ocorrem amanhã, 22 de Setembro, na cidade de São Paulo*. Mas, ao contrário do que pode-se levar a supor, isso não quer dizer que não participo ou endosso tais atividades. Diz-se que antes de alcançar um determinado objetivo, uns soquinhos em ponta de faca e ensaios gerais são necessários – eu estou do lado dos que pensam assim.

O melhor de participar de tais ações é descobrir que tem mais gente por aí preocupada com questões que vão além de seu umbigo e de sua própria vaidade, já caíram no deserto do real e sabem que passarinho sozinho não apaga incêndio não, só se fode. E, normalmente, no meio desses pequenos exércitos de Brancaleone, acaba-se por descobrir gente descontraída, de bom coração e fazendo amigos para toda uma vida. A Bicicletada na Paulista, que costuma acontecer toda última sexta-feira do mês, é exemplo cabal disso. Fui na última e me diverti um monte. É quando você descobre gente assim (com um pouco de culhão e um tantinho de sangue no corpo) que a vida fica mais saborosa, o pessimismo da razão dá lugar ao otimismo da vontade, e o niilismo tão fake e voraz tão presente em nossos dias – envolto na embalagem reluzente e atraente de um cinismo supostamente charmoso –, vai pras cucuias. Do frenesi corrente de espetáculos vazios chega-se à vitalidade da vida realmente vivida. Isso acaba por ser tema da maioria da teoria política radical que me interessa desde sempre. Trocando em miúdos: ativismo pode e deve ser um grande barato também. E há também o tal do Do The Right Thing que ficou pop e tangível pós o filme do Spike Lee. Se não posso dançar, definitivamente, não me chame para sua revolução!

Uso uma pequena história para ilustrar: uma grande amiga diz não largar o carro e andar de ônibus porque se sente “desprotegidas em transportes públicos”. A lógica é simples e poderosa para esta bem característica mentalidade: quanto mais contato humano, maiores as chances de ser agredida, humilhada, roubada. Essa é uma máxima que expõe bem certa fratura de nosso tempo onde a vida diária parece ser um acúmulo e consumo de humilhações. Dentro desse ideario, o contato humano não gera empatia e sim o medo, a repulsa, o afastamento, o recolhimento. Me afastar é garantir minha liberdade, minha essência (para lembrar da nova religiosidade tão em voga na classe média). Falar disso é desenrolar toda uma tese sobre o atual estado das coisas e da sociedade brasileira, da confusão entre público e privado e, acima de tudo, como a cultura do medo, muito benquista pelos donos da ordem, só gera conservadorismo e agressão. E tudo permanece na mais perfeita ordem. É a tal da sociedade patológica.

Com tudo isso em vista, me parece claro que, a imensa maioria das pessoas que adirão ao Dia Mundial Sem Carro e ao dia de Praia no Tietê são pessoas já “convertidas” à causa, por assim dizer. Por maior que fosse a propaganda e os motivos (muito bons, nos dois casos) para tais ações, a sociedade civil faz vista grossa para ambas por motivos mal delineados acima. Por outro lado, há de se ter em vista o simbolismo dessas ações e seu poder futuro que acaba por ser só um: mostrar que há alternativas, dar vazão, motivos para quem pensa diferente continuar acreditando em “outro mundo”. É aquela história de sair do armário da inação, de ganhar ânimo para agir, sair da letargia do pensamento e ir um pouco para a prática.

Não vou criar uma epopéia em torno do ativismo individual ou do real peso de tais ações. Não engrosso o eleitorado medroso e bondoso (rá) da Soninha. Eu acredito que esse tipo de ativismo é apenas a fagulha de algo maior, mais efetivo. É quase uma questão existencial: se não concordo, tento não compactuar. Tô mais para um tipo de pensamento autonomista radical mal ajambrado do que para o discurso da servidão voluntária, seja o corrente ou o do bom mocismo inócuo. Cada um sabe bem o que lhe cabe no mundo. Pra mim, parece que é sempre saudável ir aonde há silêncio e fazer um pouco de barulho. No site da revista Época, a Fundação S.O.S Mata Atlântica, que chama o Dia de Praia no Tietê, diz que o objetivo é aproximar a população do rio e pressionar o governo para a continuidade da despoluição da Bacia do Tietê”. E, realmente, é uma boa ação midiática para levantar a sociedade civil, pela enésima vez, no sentido de recuperar o Tietê. Pode parecer utópico ou até desnecessário aos olhos do pragmatismo motorístico da grande população amedrontada paulistana. Acho que as próximas gerações não vão pensar assim, é um palpite. O manifesto e os motivos do Dia Mundial Sem Carro podem ser lidos aqui. Neste outro link é possível saber mais sobre a despoluição do rio Tietê.

Na sequência, a matéria que escrevi sobre o Rappin Hood e o ParteUm, irmãos e bons artistas do rap nacional.

*O Dia Mundial Sem Carros acontece em outras cidades brasileiras. Saiba no site da bicicletada onde acontecerão outras manifestações.

ativismo que preste sempre une, criatividade, irreverência e um naco de agressão

ativismo que preste sempre une, criatividade, irreverência e um naco de agressão

A Música Livre do Grupo Um

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(originalmente publicado na +Soma 10)

Uma breve história do grupo que marcou a música instrumental de invenção no país e um dos pioneiros do cenário do jazz-rock brasileiro pelos depoimentos dos irmãos Zé Eduardo Nazário e Lelo Nazário.

A última década coroou um formato dentro da música independente onde músicos de formação roqueira passaram a namorar outros estilos (como o free jazz) e se aprofundaram cada vez mais em temas instrumentais – ainda que mantivessem em alguns casos a voz. O mesmo se deu um pouco antes no exterior e ganhou o nome de pós-rock – uma tendência musical que retomava de um lado a experiência de parcela do kraut rock alemão e se espelhavam na sonoridade propagada por um grupo fundamental dos anos 1990 chamado Slint. Hurtmold, Fóssil, Constantina, M.Takara, Porto, M.Armani, Guizado… a lista é longa e ganha cada vez mais atenção entre crítica e público.

Na década de 1970/80 aconteceu algo semelhante, só que dessa vez, motivado de um lado pela experiência da bossa nova e do samba jazz, e de outro pela música de Hermeto Paschoal – sem dúvida alguma, um dos maiores instrumentistas do planeta na atualidade. Nesse cenário, houve um componente que chama a atenção também por ser o primeiro grupo instrumental a lançar disco independente no país: o Grupo Um, formado em 1976, dos irmãos Lelo Nazario (piano) e Zé Eduardo Nazario (bateria e percussão). Pelo grupo, passaram também Rodolfo Stroeter (baixo), Mauro Senise (sax), Felix Wagner (clarineta), Carlinhos Gonçalves (percussão), Zeca Assumpção (baixo) e Roberto Sion (sax soprano).

O álbum de estréia do grupo, Marcha Sobre a Cidade, de 1979, foi lançado em pequena tiragem pelos próprios músicos e posteriormente reeditados pelo selo Lira Paulistana, que funcionava também como produtora e distribuidora e mantinha um pequeno teatro que se tornou lendário ao aglutinar a produção mais vanguardista da capital paulista dos anos 1970 e 80. Este trabalho, assim como os dois posteriores, Reflexões Sobre a Crise do Desejo (1981) e A Flor de Plástico Incinerada (1983), são marcos da música de invenção nacional. Porém, os irmãos Nazario, com quem conversei por e-mail, tem uma longa trajetória (tanto antes quanto depois) a ser comentada.

Lelo e Zé Eduardo, ainda na adolescência, criaram o grupo Malika – uma fusão de música afro-brasileira, sul-americana e jazz contemporâneo –, que contava com a participação do saxofonista Hector Costita, músico em grupos de Sergio Mendes e Gato Barbieri. “Comecei tocando profissionalmente aos treze anos nos principais shows musicais da televisão, em 1965. Ouvia muita música brasileira, jazz de todos os tipos e música erudita, e a experiência de tocar com grandes músicos também foi muito importante como aprendizado” explica Zé. Lelo fala da formação dos outros músicos e da proposta do Grupo Um. “O Zeca Assumpção se formou na Berklee School of Music, em Boston (EUA), e o Mauro Senise havia estudado com o Paulo Moura e Odette Ernest Dias. Todos nós sempre gostamos de jazz, que é uma música muito rica e complexa, que permite a criação de estruturas formais, escritas, mas que admite elementos criativos que dependem do momento em que são tocados. Anthony Braxton, Cecil Taylor e John Coltrane (ícones do free jazz) trilharam este caminho, bem como diversos outros artistas que admirávamos. Tínhamos o cuidado de nunca copiar e o resultado do trabalho mostra isso”.

A rebordosa de toda a efervescência cultural brasileira dos anos 1960 provocado pela ditadura causou um baque na cena de então. “As perspectivas musicais e artísticas foram alteradas, ninguém escapou a essa readaptação. Foram necessários vários anos para que o meio musical brasileiro voltasse a produzir uma música instrumental de qualidade”, sentencia Zé Eduardo. Porém, no início dos anos 1970 Hermeto vivia a recrutar novos jovens dispostos a acompanhá-lo em suas originalíssimas criações. Estas formações eram os principais núcleos de criação musical da época, disseminando uma maneira de pensar a música de uma forma mais livre, sem barreiras e com resultados singularíssimos. Foi natural que chegasse a vez de Zé Eduardo, Lelo, Zeca Assumpção, Mauro Senise e Roberto Sion caírem nas graças do músico albino de Alagoas. Lelo pondera que houve uma via de mão dupla na relação com os futuros membros do Grupo Um: “Hermeto é uma pessoa muito calorosa e gentil, sempre nos tratamos mutuamente com muito respeito e admiração. Acho que a nossa passagem pelo seu grupo trouxe novos elementos à música que ele fazia, da mesma forma que a sua experiência e conhecimento nos enriqueceram bastante”.

Durante a passagem pelo grupo de Hermeto, Zé Eduardo criou a Barraca de Percussão, fruto da necessidade prática durante as apresentações. “Os primeiros percussionistas brasileiros que ficaram conhecidos por usar esse tipo de instrumentação mais abrangente e misturando instrumentos brasileiros no jazz, foram o Airto Moreira e o Dom Um Romão (com Miles Davis e Weather Report, respectivamente), lá por volta de 1970. O Guilherme Franco (que anos antes formara o primeiro grupo de percussão contemporânea não-clássico do país com o próprio Zé Eduardo), também foi para os Estados Unidos em 1972 e usou essa parafernália com o McCoy Tyner e o Keith Jarrett, mas até aí ninguém tinha montado (que eu saiba) uma barraca do modo que eu fiz no grupo do Hermeto em 1973. Era uma barraca igual às das feiras livres, e isso ocorreu devido à necessidade de ter no lugar certo determinado instrumento para ser usado em um arranjo numa determinada hora, misturada aos instrumentos brasileiros e à bateria, o que a caracterizava como um “set” original. (…) Sucata industrial, tachos e leiteiras de ferro e outras coisas que “viravam” instrumentos, em volta da bateria. Depois de alguns anos usando e aperfeiçoando meu equipamento, muita gente passou a usar, virou moda, em todo lugar tinha um percussionista ou baterista com a barraquinha brasileira de percussão do lado. Se tivesse patenteado, teria ficado rico (risos)”.

Assim como os outros integrantes do Um, os irmãos Nazario não ficaram parados após a passagem no grupo de Hermeto e tocaram também com Egberto Gismonti, Marlui Miranda, Taiguara, Patife Band, além de músicos estrangeiros. O Grupo Um, sintetiza Zé Eduardo, nasce em 1976 da necessidade que ele, seu irmão e Zeca Assumpção após o trabalho com Hermeto, tiveram de “pensar numa estética diferente, que embora possa ser relacionada ao ‘free jazz’, tinha aspectos particulares, tanto na parte melódico/harmônica, quanto na rítmica, que determinaram primeiro a surpresa com que fomos recebidos no meio musical e depois o sucesso e o reconhecimento que obtivemos”. Pergunto sobre a relação com outros artistas de vanguarda na cidade de São Paulo daquele período. Lelo: “Com relação à vanguarda paulista de 1980, sou amigo de vários artistas como o Arrigo e a Ná Ozzetti, mas todos eles estavam trabalhando para criar, principalmente, canções de vanguarda. Nós nos dedicávamos a criar música instrumental”.

Fato é que os três discos do grupo, relançados em CD recheado de textos e fotos pela etiqueta Editio Princeps – responsável também por colocar novamente no mercado o trabalho de outros nomes da música instrumental do período, como Divina Increnca e Pé Ante Pé –, mostram um vigor gritante no trabalho do grupo. Pergunto a Lelo se ele conhece a nova geração de músicos instrumentais/experimentais vindos do rock no país. “Tenho observado em muitos músicos jovens um comportamento padrão de tentar repetir o que já foi tocado (e muito bem tocado) no passado. É como a discussão entre Miles Davis e Wynton Marsalis, o primeiro um criador incansável e o segundo um repetidor incansável. Eu gostaria que os músicos cada vez mais tivessem o espírito do Miles – estudar todo o passado e absorvê-lo, para depois apresentar um trabalho que traz algo de novo à cena musical.”

Zé Eduardo, tido desde sempre como um dos maiores bateristas do país, vive hoje no Sul de Minas e lançou no ano passado o álbum Encounterpoint, com o guitarrista americano John Stein e prepara um novo CD, Poema da Gôta Serena e Outros Poemas, que será lançado em breve pelo selo Editio Princeps, cobrindo um período que vai de 1977 a 2004. Já Lelo passou a realizar trabalhos voltados à música eletrônica acústica e tomou gosto pelo trabalho de engenheiro de som e para 2009, está “gravando as composições de um novo CD, com uma infinidade de sons eletrônicos e alguns solistas convidados”. O Grupo Um se dissolveu pela necessidade de seus integrantes desenvolverem trabalhos solos, o que me leva a especular sobre uma volta do grupo. Afinal, hoje há toda uma cena voltada para a música instrumental e um público aparentemente receptivo aos ventos mais inovadores na música. Pergunto se existe a possibilidade de uma volta do grupo: “creio que a possibilidade de uma volta sempre existe, já que estamos todos vivos, com saúde, continuamos amigos e tocando cada vez melhor”, sentencia Lelo.

Saiba Mais . www.editioprinceps.com/index.htm

Veja as entrevistas completas com Zé Eduardo Nazario e Lelo Nazario em www.maissoma.com

Quando futebol era arte

É meio babaca ficar nessa discussão de “ah, o futebol hoje é mercadoria bla bla bla”. O que dá pra garantir sem a menor sombra de dúvida, é que a Seleção de 1982 jogava muito muito bonito. Os dois vídeos dão o gostinho do futebol ágil e dinâmico que a rapaziada jogava. Sem contar que todo toque na bola do Zico, Sócrates e Falcão era uma pintura. Só bacharel e diplomata nesse time.

O resumo do jogo contra nuestros hermanos é só pra dizer que não é de hoje que o povo do cabelo ensebado é freguês da gente…

E apesar de gostar muito de Mano Negra e do Don Dieguito Maradona…

… contra a Seleção canarinho o moço não tem muita sorte não…